Ando cheinha de saudades. Eu sofro imenso de saudades. Para quem sente tudo intensamente, as saudades também teriam que ser às pilhas. E coincidentemente, nesta altura de Quaresma, com aproximação da Semana Santa - talvez para mim o mais difícil período do calendário cristão - intensifica-se esta provação. De repente, dou por mim privada da companhia das pessoas de quem mais gosto. Das mais especiais de corrida. E não me apetece nada estar com outras pessoas só para fazer de conta. As minhas crias não estão comigo e as minhas manas também não. Uma anda doentinha a lutar para manter a cabeça à tona da água. A outra encontra-se a viajar em trabalho, por terras de África. E a minha estrela anda a teimar no outro lado do oceano. De repente sinto-me desasada. Sinto como se todos os meus membros e o meu coração estivessem fora de mim, por aí à solta pelo mundo. Sinto-me como um puzzle com as peças todas soltas e misturadas. Esta é normalmente a minha provação. As dores por quem gosto. De uma forma ou de outra, vou lá sempre bater.
Ter saudades é uma das minhas sinas. Ou um dos meus fados. Bem sei que só se tem saudades de coisas boas, que é a forma de perpetuar as lindas vivências e mais uma data de coisas bonitas e verdadeiras sobre as quais agora não me apetece pensar. Hoje estou um bocadinho mais murcha e sombria. Só me apetece pensar como as saudades também são acidas e corrosivas. E imagino um coração grande e vermelho, cheinho de amor para dar e vender, a sofrer os males da erosão provocada pela acidez das saudades. Esta acidez causa mal estar. Dificulta a digestão da vida e pica miudinho no peito. O meu peito parece uma rede de peneirar. São mais os buracos do que os fios. E não me apetece nada encontrar fios novos. Tenho um malvado de um feitio! Nunca substituo umas pessoas por outras. Não me apetece uma companhia qualquer só para suprir a falta da companhia que eu queria. E quanto mais sinto a falta de determinada pessoa, menos as outras me preenchem. Para mim as pessoas não são casacos que vestimos e despimos conforme o frio que está. E muito menos se substituem com toda a facilidade. Um casaco qualquer serve desde que seja à medida do frio que está. Uma pessoa qualquer não serve para compensar o vazio que a outra deixa. Vivo tanto de preenchimento interior, da presença dos outros no meu coração que a maior parte do tempo até consigo andar alegre e em paz apesar desta ou daquela ausência. Mas, de vez em quando, só a imagem não chega. Só a energia que tenho no meu coração não chega. É assim como o combustível, é necessário encher-se o depósito quando este entra na reserva. E eu estou na reserva há já alguns quilómetros. E o esforço é muito. E dói-me. Sinto tanto a falta de quem mora no meu coração e não o visita. Sinto tanto a falta das vozes que me falam ao ouvido. Sinto tanto a falta dos silêncios partilhados no sossego. Sinto tanto a falta das gargalhadas ruidosas. Sinto tanto a falta de me escutarem. Sinto tanto a falta de me entenderem só com um simples olhar ou por um tom de voz. Sinto tanto a falta de quem tanta falta me faz. E resolveu dar tudo à sola ao mesmo tempo. Claro que me desforro nas minhas introspeções e nas minhas viagens aos meus mundos interiores. Mas costumo fazer essas coisas todas com a alegria de voltar à companhia da minha tribo. Na minha forma de gerir a vida procuro ter um bocadinho de tempo para tudo. Portanto, no meu dia a dia procuro fazer um bocadinho destas coisas todas. Ter um bocadinho diário para o meu interior e um bocadinho para partilhar com os meus amores cá de fora. Mais assim ou mais assado. Mais num dia ou menos no outro mas sempre procurando um bocadinho de mim própria e de quem tão bem me faz.
Parece que a Quaresma deste ano me quer ensinar a valorizar ainda mais todos os bocadinhos que passo com as pessoas que verdadeiramente amo. Quer relembrar-me como são únicas e singulares as pessoas que vivem no meu coração. Como são insubstituíveis. Como levam com elas pedaços de mim para os lugares por onde andam. Como tudo só tem sentido na companhia dessas pessoas. O mundo não tem graça sem aqueles com quem gosto de partilhar as graças do mundo. Tudo fica cinzento e pingão. Já tendo começado a primavera, tudo isto é um perfeito contra-senso. E vou adoecendo de saudades...devagarinho. Tal como murcham as flores e secam as raízes. E um dia, sem ninguém ter dado por isso, o brilho foi-se. A alegria esgotou-se. Os sorrisos fecharam-se. Sem se saber como nem porquê. Estava-se ausente. E nem se deu conta da falta que se fazia. Do quanto se iluminava, da alegria que se dava. Às vezes a vida passa ao lado e só na ausência é que a sua força e a sua beleza se revelam. Tanto contra-senso por metro quadrado...
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