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Receitas para esquecer

Sei lá qual é a receita para se esquecerem pessoas! 

Hoje li um texto sobre este assunto e fiquei a pensar sobre isso. Como se esquecem pessoas importantes que desaparecem da nossa vida? Ou como se esquecem amores? Daqueles à séria? Principalmente numa época em que vivemos em cima do acontecimento. Ainda as coisas bem não aconteceram já nós sabemos o que se passou por dentro e por fora. Este imediatismo na informação e na comunicação também me parece que está a influenciar a forma como tratamos as emoções, os amores, as desilusões, as frustrações e tudo o resto que diga respeito ao nosso foro emocional. Já não damos tempo ao tempo. Tem que ficar tudo resolvido aqui e agora, no imediato. Depressa. Saltaricamos de situação em situação. Tendemos a fazer fugas para a frente. A velocidade a que o mundo anda parece não bater certo com a necessidade de tempo que existe no aceitar e integrar as emoções que sentimos. Parece que o rodopio em que o mundo anda faz com que também se tenham carroceis internos que não nos deixam parar e refletir. Só andamos à roda e corremos.

Tenho esta impressão que em vez de sermos uma sociedade mais adulta e madura, estamos a regredir para a adolescência em que tudo tem que ser imediato, aqui e agora. As melhores coisas da vida levam o seu tempo. Têm que florescer devagar. É assim como os cozinhados: os que cozem mais devagarinho têm sempre um sabor mais apurado. Escrever isto até me faz confusão a mim própria. Eu que tenho pouca paciência para esperar, dou por mim a escrever estas coisas! Mas é a verdade embora custe um bocadinho a aceitar em certas situações. O que é mais importante em termos emocionais deverá cozinhar devagarinho. Para se construir ou para se desmanchar. Para se esquecer alguém parece-me que o caminho é deixa-la estar presente. É lembrar as vezes que nos der vontade, até à exaustão. Até não termos mais células de memória desocupadas. Tem que doer em banho-maria até se esgotar a água. Não há outra solução. Se fizermos de conta que nada aconteceu, a pessoa permanece nas nossas entranhas para sempre e nunca a esquecemos. Ou pelo menos nunca esquecemos a falta que nos faz ou o bem que nos fazia. Nestas coisas emocionais, fazer de conta nunca é a solução. E, apesar de me custar muito dizer isto, o tempo soluciona quase tudo. O tempo ameniza as emoções ruins e enaltece as boas. E ajuda-nos a aliviar o sofrimento. Pelos vistos, aquilo que sentimos dentro anda a uma velocidade muito diferente daquela que gostaríamos. Anda devagar, vai pairando em vez de voar de uma vez. 

Como é que se arranca um grande amor do coração? Não há de ser à força. Os grandes amores têm uma raiz profunda em forma de anzol. Quanto mais se puxa mais se enterram e mais prendem. Os grandes amores são difíceis de tirar do peito. Temos que ir aliviando como quem abre uma válvula, devagarinho, devagarinho, sem que o coração perceba o que se está a fazer. Se ele dá conta é um Deus nos acuda! Temos que ir deixando ir assim como quem não quer a coisa. Um lágrima aqui, outra ali, uma boa noite de choro, dois dedos de bom vinho tinto e vamos arrastando a dor dia após dia até ela se fartar da nossa enfadonha companhia. Não vejo outra solução…não tenho melhor receita. 

Tenho muita dificuldade em tirar coisas bonitas da minha vida. Se bem que de vez em quando, poderá ser mexida uma tecla, que eu não sei qual é (já me fartei de procurar mas não a encontro) que desliga uns fios quaisquer e fecho a torneira do sentimento. É verdade. Já me aconteceu isto uma ou duas vezes na vida. Luto pelo que sinto, pelo amor, pela união até à exaustão. Um dia, acordo exausta e fecho a torneira. Acabou-se ali sem apelo nem agravo. Não sei dizer como é que isto se faz. Mas já me aconteceu. Parece-me que será Nosso Senhor, que é quem mexe no coração, que resolve que já chega e que o coração tem outras coisas melhores para fazer do que andar a sofrer por quem já se foi. Nosso Senhor sabe sempre o que é melhor para nós. É pena é nós não sabermos…apenas julgamos que sabemos. Ou pensamos que sabemos. Ou outra coisa qualquer que nos faça mover num sentido diferente do que seguimos. Daquele que nos faz sofrer. 

E ainda assim, se calhar, para cada um de nós haverá uma receita própria, uma forma exclusiva que nos ajuda a lidar com as memórias emocionais. Que nos ajuda a esquecer ou a manter, pelo menos adormecido, um grande amor. Tenho cá para mim que estas formas personalizadas, só Deus é que controla. Se amar e desamar estivesse na minha mão…se pudesse esquecer sempre que me apetece, parece-me que já tinha feito muita asneira. Estaria vazia, talvez. Ou amarga. Ou sem história nenhuma para contar. Tendo em conta as vezes que me apetece desligar o botão, se eu o fizesse, não gostaria de quem gosto da forma como gosto. Voaria uns bocadinhos a medo, a meio metro do chão, em vez de largar asas pelo céu inteiro. Tinha uma casquinha de noz em vez de me aventurar pelo oceano adentro. E viveria no lusco-fusco, de certezinha absoluta, em vez de me deixar iluminar por uma estrela super brilhante. Lá sofrer sofria menos. Quase nada. Mas também não sentiria a maravilha do amor. Não saberia o que é a intensidade levada ao rubro. Não teria as emoções na ponta dos meus dedos. Tudo o que é morno aborrece-me! Até o sofrimento morno me chateia. Ou bem é para doer ou bem que não é. Esta coisa da melancolia e das saudades por ausência, a tristeza miudinha dão cabo de mim…ai se eu tivesse um botão…

Ainda bem que não tenho. Às vezes, ter falta de peças é para o nosso próprio bem!

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