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Um dia em cheio

Depende da definição de cada um. Pode ser de paz. De descontração. De amor. De amizade. Do que se quiser desde que seja em cheio para cada um de nós. Os dias cheios são os que verdadeiramente valem a pena. São os que deveriam guiar todos os outros. São os que nos deveriam guiar a vida. Infelizmente, dizemos que tivemos um dia em cheio quando este é excecional, quando é diferente ou mais intenso do que a maioria dos outros nossos dias. E deveria ser ao contrário. Todos os dias deveriam ser cheiinhos de coisas boas e, lá muito excecionalmente, poderia aparecer um dia mais vazio. Se calhar mais tranquilo. Um dia daqueles de não fazer nada. De desligar até o pensamento. De preguiçar a valer.

A vida passa tão depressa que deveríamos tentar rechear os nossos dias de tudo o que é bom. Mesmo à grande. Desde o acordar até ao deitar! Claro que eu sei que isto é difícil. Mas eu sou uma otimista e acho a vida uma coisa maravilhosa! Se não podemos ter dias em cheio uns atrás dos outros, podemos pelo menos, todos os dias que Deus nos dá, tentar fazer ou sentir uma coisinha muito, muito boa. Daquelas que nos enche o coração, ou que nos dá muito prazer, ou que nos pacifica. Também podemos escolher a tal coisa especial em função do estado de espírito e ajustar ao que nos está a fazer mais falta. Não é assim tão difícil. É só começar a tentar. Pode ser devagarinho que nem toda a gente gosta de correr. Por exemplo, hoje já fiz uma coisa que me dá imenso prazer e que me pacifica, que me ordena os pensamentos: uma bela caminhada até ao rio Tejo. Que rio lindo, não é? E as suas águas pacificam-me. Gosto mais do mar mas o rio também é belíssimo. E as coisas belas ficam-me gravadas na alma. Trazem-me a esperança de também a minha alma ficar mais bonita. Uma coisa simples mas que me ilumina o dia. Um sol maravilhoso, uma cidade com uma luz inigualável e o rio soberbo. Um pinguinho de felicidade. Voltando a esta cidade maravilhosa: se calhar, lá muito atrás na nossa história, alguém trocou umas letras à cidade e em vez de se chamar Luzboa, enganou-se e escreveu Lisboa. Os erros acontecem aos melhores. Lá porque se trocaram as letras, não se trocou a beleza da luz. 

Também os dias podem ser cheios de luz. Depende do que somos capazes de fazer com a vida. Com as coisas boas que sentimos. Com as pessoas de quem gostamos. Miguel Torga dizia que o que verdadeiramente importava era a vida afetiva. Que o resto da vida eram só formas de organizar o menos importante. Tanta razão tinha este senhor! (Ler Miguel Torga também é um bom bocadinho de vida). Mas na verdade, por mais que corramos atrás de outras coisas, no fim do dia, o que interessa são os nossos amores, as pessoas que são importantes para nós. Tudo o resto é supérfluo. Pode ser muito necessário mas não é assim tão importante. Se calhar, vale muito a pena diferenciar estes conceitos. Saber colocar as coisas no seu devido lugar. Estabelecer, na nossa vida, o que é verdadeiramente importante e o que é apenas necessário. Para mim, o que é necessário apenas serve de suporte, de apoio ao que é importante. Nem mais nem menos. Por vezes há a tentação de trocar as coisas. De mergulharmos de cabeça no que é necessário e descurarmos o importante. Como uma linda canção costuma dizer: "L´important c’est la Rose"…E é mesmo verdade, é a flor que está no nosso coração. Acho que todos nós temos lá uma rosa. Porque é a flor das flores. Porque é a que define a vida, a rosa e os seus espinhos. Mas também a sua beleza, a sua cor e o seu aroma. E isso é que importa, o que está no coração. E afinal, um dia em cheio, é um daqueles dias que nos enche o coração. Até transbordar. Um dia em que a rosa que lá temos dentro está mais viva que nunca, mais perfumada e que nos invade toda a nossa essência. Todas as nossas dimensões. É a flor da vida. E os dias cheios são os mais autênticos dias da vida. E tudo o que é autentico, por princípio, deve ser muito bom!

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