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Rasgões

Quando decidi começar a partilhar as minhas escritas, sempre me preocupei em partilhar coisas que pudessem fazer a diferença para quem lê. Gostaria de escrever só palavras que transmitissem coisas boas, alegrias, reflexões, pensamentos e outras formas de lidar com a vida. Sempre senti a responsabilidade de cuidar de quem lê o que escrevo. Nem que fosse apenas contribuir para um rosto sorridente. Já valia a pena. Mas como a vida é feita de altos e baixos, de alegrias e tristezas, tenho tido a necessidade de escrever sobre tudo. De largar os meus estados de espírito. Escrever ajuda-me a lidar com as coisas menos boas, com a mágoas, com os rasgares de coração. É terapêutico para mim. Estou muito mais habituada a cuidar do que a ser cuidada. A vida assim me foi formatando. E como já tenho escrito noutros textos, tive que encontrar estratégias para curar as minhas feridas, os meus rasgões. A escrita é uma delas. E aproveito para lhe agradecer, a si que lê o que escrevo, uma vez que ao ler os meus textos, está a conter os meus desassossegos. Também me ajuda a sarar e a lidar com as coisas menos boas. Obrigada, mais uma vez, por fazer parte deste meu mundo e desta dimensão. Nem sempre consigo estar no meu melhor e contribuir para a sua alegria ou evolução como ser humano. Nem sempre consigo contribuir para alguma coisa na sua vida. Mas tenha a certeza que contribui na minha. Pelo menos ao ter a paciência e a compreensão para ler o que escrevo. Ser paciente e compreensivo são qualidades admiráveis! Por vezes esgoto o meu stock destas coisas.

A tristeza é a principal gastadora de energia boa. De stocks que interessam. E luto com todas as minhas forças para os manter, num mínimo de segurança. A compreensão e o entendimento são os que me gastam mais esforço. Procuro tanto compreender pessoas e comportamentos que não consigo explicar. Quer dizer, conseguir até consigo, explicar e compreender, aceitar é que é mais difícil. Este é mais um daqueles momentos da vida em que me rasgam o coração. E o que mais me deixa triste é o facto de não haver necessidade. De ser uma tristeza gratuita. Principalmente quando existem outras formas de se fazerem as coisas. Outros recursos. Quando escolhemos um comportamento ou uma atitude, deveríamos ser capazes de pensar no impacto que essa escolha pode ter nos outros. Quando gostamos e nos preocupamos com as outras pessoas, devemos fazer o nosso melhor neste aspeto. Pensar um bocadinho antes de passar com um cilindro em cima de tudo porque estamos tristes. Porque não sabemos o que fazer com o que sentimos, com o que pensamos. E, não sendo capaz de fazer melhor, não fazemos nada. Absolutamente nada. E este nada, no outro, pode ter muito impacto. Um impacto negativo, bem se vê. O nada, a ausência, no outro, é sempre sentida como abandono. Por mais compreensivo que se seja e por mais entendimento que se tenha. Mesmo que se saiba, que se sinta, que quem nos entristece também está tristíssimo. Mesmo quando se entende que quem nos magoa não é capaz de fazer melhor. Pelo menos agora, não é capaz de fazer melhor.

Para quem é tão amante de palavras, como é o meu caso, o silêncio não é de ouro, é de carvão porque me enegrece a alma. O silêncio, o nada e a ausência, são frutos muito amargos do mal estar dos outros. E, por vezes, tenho vontade de esgotar toda a minha compreensão e entendimento. Apetece-me ler as coisas à letra. Interpretar comportamentos tal e qual como eles se apresentam. De forma direta, aplicando uma proporcionalidade simples e exata. Apetece-me, de vez em quando, virar as minhas palavras contra mim própria e fazer análises frias dos factos. Ler com simplicidade. Não ler entrelinhas, não sentir nada a não ser a minha mágoa. Às vezes apetece-me pensar apenas na tristeza que sinto, sem cuidar a sua origem. Sem compreender a sua fonte. E dizer, esgotei a paciência, os sinais de luzes, a forma mais ou menos delicada de dizer o que para mim é pouco importante, o que é importante e muito importante. Basta o outro querer saber. Mas como não se manda nos quereres dos outros (e ainda bem) somos nós que temos que encontrar a solução para o que sentimos. Eu só consigo dar conta de mim e da minha tristeza. Do que sinto. Não consigo nem quero dar conta dos sentimentos dos outros. E não é preciso muito para me sentir feliz e alegre. Parece-me que os meus mínimos olímpicos não são assim tão exigentes. Mas claro que esta é a minha visão da minha própria exigência. Se calhar não deveriam ser mínimos olímpicos, deveriam ser mínimos mundiais, europeus ou apenas nacionais, sei lá. Mas eu também não trato as pessoas pelos mínimos. Então para quem gosto, procuro dar o melhor que tenho, procuro bater os meus próprios recordes. Só porque gosto. É a melhor das razões. E não preciso nada de medalhas em troca. Nem de reconhecimento, nem de outra coisa qualquer que não seja o afeto, verdadeiro e simples. Parece que isto é uma dificuldade do outro mundo!

Tudo o que me interessa das pessoas é o que elas podem oferecer de boa fé, de vontade, de forma espontânea e livre. Sempre digo que seria incapaz de prender alguém. Amo tanto a liberdade como amo as palavras. Seria incapaz de querer alguma coisa de alguém que não se sentisse livre comigo. E apenas o que podem oferecer. Não são mundos e fundos. São apenas afetos. Na dimensão possível. E isto aplica-se a todo o tipo de relações que estabeleço na minha vida. À família, aos amigos, aos amores e a outros relacionamentos especiais. Como é que uma coisa que parece tão fácil, se torna tão difícil e penalizadora? 

Hoje parece-me que tenho a cabeça inundada de perguntas: 

1. Porque pessoas inteligentes, maravilhosas, corajosas e decididas, não sabem o que hão-de fazer com o que sentem? 
2. Como é que pessoas que são capazes de encontrar solução para quase tudo, ainda os problemas vem no horizonte, não conseguem encarar dificuldades que tem a ver com emoções, com tristezas?
3. Como é que pessoas que tem corações do tamanho do sei lá de quê, que seriam capazes de salvar mundos, não são capazes de cuidar dos corações que estão mesmo ali à mão?
4. Como é que pessoas que são incapazes de fazerem mal aos outros conseguem causar tanta mágoa?
5. Como é que pessoas tão lúcidas por um lado e com tanta intuição por outro, conseguem escolher as fugas para a frente?
6. Como é que pessoas que carregam tanto amor no coração, conseguem abandonar tanto as pessoas que lá moram?
7. Porque se escolhe não fazer nada, não dizer nada, o vazio, quando se tem tantos recursos? Qual é o mal de não se saber utilizar esses recursos na perfeição? É tentando que se aprende...
8. Qual é o mal de se partilharem tristezas, palavras, vontades, inseguranças, erros, vitórias, medos, fragilidades, sentimentos, emoções e até lágrimas. E sorrisos. E histórias?
9. Como é que pessoas tão perspicazes não conseguem ver quem está à frente dos olhos, de forma clara e autentica, e cuidar um bocadinho dessa relação? Personalizar um bocadinho o tratamento que se dá às pessoas em função da sua forma de ser, da sua personalidade? Só um bocadinho, bolas! Aquele bocadinho que é capaz de dar alegria ao outro sem se molestar a si próprio, sem beliscar a sua liberdade. Quando se gosta e respeita as outras pessoas, isto é quase uma inerência, em qualquer tipo de relação. Se calhar as palavras chave são mesmo o gostar, o respeitar e outras afins terminadas em "ar"...

Até para mim, que gosto de pessoas e vou conhecendo alguma coisita sobre elas, tudo isto me espanta e admira! Espanta-me quando as relações entre as pessoas evoluem e depois, os factores que foram de atração, transformam-se em fatores de medo, de afastamento. E a chatice é que não se pode voltar atrás nas relações. E voltar ao ponto onde não havia receios e que se podia falar de uma data de coisas. Em que havia coerência e confiança, dentro do possível. E que se podiam falar de fragilidades e abrir o coração. Abrir o coração, o que é uma coisa maravilhosa, pode, de facto ser uma coisa assustadora. Principalmente se se abrir demais, tendo em conta o limite de cada um. Por vezes parece que não se sabe lidar com os corações. Só com a racionalidade. E amachuca-se o coração. Esquecendo-se que quando amachucamos o nosso coração, estamos também a amachucar os corações dos outros que gostam de nós. E rasgamos a direito. São os chamados efeitos colaterais. Os rasgões custam muito a curar. Não saram bem. Sangram, inflamam, infetam e deixam cicatrizes feias. 

Percebo de poucas coisas na vida, mas de males do coração percebo. Conheço muitos tipos de dores, de feridas, de fraturas, de hemorragias e de cicatrizes. Tenho uma lista delas. Também é verdade que conheço a maior parte das coisas boas do coração. Do amor, das alegrias e da felicidade. Também tenho uma lista grande, graças a Deus. E quantas e quantas vezes, não é este conhecer dos corações que me trama. Que me faz hesitar em decisões que seriam claras. Que me faz entender e compreender os outros mesmo quando não sei definir o meu próprio estado de espírito, quando não sei se estou zangada demais ou triste demais. Quando deveria fazer análises SWOT das situações e do meu relacionamento com as pessoas. 

O meu coração também me trama porque quando as pessoas o conhecem, têm um medo dele que se pelam. E pensam no que ele é capaz de saber e de descobrir. Têm medo se expor. Deixam que o medo de se exporem seja mais importante do que o que poderiam receber se não tivessem medo. Deixam que o que não são capazes de fazer ou dizer seja mais forte do que o que sentem e poderiam sentir. Deixam que a tristeza seja mais forte do que a alegria. Deixam que a perdas sejam maiores do que os ganhos. Deixam que o seu próprio coração seja cravado de espinhos em vez de sentirem a doçura e o aroma das rosas da vida. São escolhas que se vão fazendo. E as escolhas têm, obrigatoriamente, as suas consequências. É uma lei universal indiscutível. Estas escolhas são muitas vezes meio caminho andado para a solidão.

Por vezes, o meu próprio coração, o tal que me trama, também sendo grande, indomável e com vontade própria, vira-se para o meu lado e diz que chega. Que está fartinho de se sentir diferente, negligenciado ou invisível. Diz que está farto da minha tristeza. E hiberna. Eu não consigo hibernar mas ele consegue. Ou muda de ponto cardeal. E relembra-me que é grande mas não é inesgotável. E que chega a uma altura que fecha a torneira e não há quem a abra. O meu coração está a fazer-me sinal de luzes. Ou a fazer-me sinais de fumo. E eu levo sempre a sério o que o meu coração me diz. Apenas preciso da serenidade e da paz para o entender e ouvir como deve de ser. E escolher pelo melhor. Seja esse melhor o que for. Talvez o consiga descobrir no meio dos rasgões.

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