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Os hospitais

Hoje não tem sido um bom dia. 
Nos dias que não são bons, tenho sempre dúvidas se hei-de ou não escrever alguma coisa. Sinto sempre esta responsabilidade de escrever para a alegria, para a reflexão ou para qualquer outro efeito bom para quem lê. Mesmo que o tema seja triste, que fale de dor ou de lágrimas que traga consigo uma forma de o compreender ou ultrapassar. De lidar com ele.

Hoje não sei. Só me apetece ter pena de mim própria. E eu detesto este sentimento. Lá acordei cheia de dores outra vez. Esta minha lombar anda muito zangada comigo. Lá fui até ao hospital. Toca de me entupirem de anti-inflamatórios e de analgésicos. Eu detesto estar doente. A doença atrapalha-me a liberdade. É impeditiva de um montão de coisas. E sempre me faz refletir sobre mim própria, sobre os outros e sobre a vida. Até a doença tem que ser útil, senão é sofrimento vão. E o sofrimento nunca deve ser gratuito ou vão. Não faz sentido. Tem que ser retirada qualquer gotinha de sumo desta fruta amarga.

E tenho a sorte de me poder tratar. De procurar bons cuidados médicos. De me chamarem de "querida" quando me espetam as veias. De usarem muitos diminutivos na relação comigo enquanto doente. Nos dias que correm, isto é uma sorte. O que deveria acontecer, de forma geral e por princípio, onde existem pessoas fragilizadas, acontece quando se pode ir a um hospital particular. Também já fui muito bem tratada em hospitais públicos. Mas também já me senti como se fosse uma coisa, ou uma folha de alface que nem dá para salada. Depende da sorte. Depende do coração de quem nos atende. Afinal, a conversa volta sempre ao mesmo, ao coração as pessoas.

E os hospitais sempre me fazem pensar e sentir coisas. Por um lado, dou graças a Deus por haver estas estruturas onde se salvam vidas e se alivia a sofrimento. A medicina faz milagres, hoje em dia. Mas simultaneamente, penso nas pessoas que têm que se socorrer dos hospitais. Tanta dor por metro quadrado! Tanto sofrimento, tanta limitação e tanta lágrima. O doente e as suas famílias. Sofrimento coletivo. E quando há família que sofre connosco, é fantástico, não é?

Penso nas pessoas que adoecem sozinhas. Que sofrem sozinhas. Que não têm ninguém que lhes dê uma pancadinha nas costas e que lhes deseje as melhoras.  Lembrei-me disto na sala de tratamento, onde ao espetarem a agulhita para me darem os medicamentos, o enfermeiro disse - "é só uma picadinha, minha linda". E eu respondi o que habitualmente respondo - "não se preocupe, já tive 2 bebés. Não magoa nada." Só para desanuviar o ambiente, só para também reconhecer o cuidado de quem está a fazer o seu trabalho com mimo. Isto faz toda a diferença para o doente e para o profissional, penso eu.

Como não tinha mais nada que fazer senão relaxar e olhar em redor, olhei para os meus camaradas de tratamento, cada um sentado no seu sofá, e com as suas agulhinhas, e fui imaginando a história de vida de cada um. Interessante como havia no ar um certo clima de cumplicidade e de companheirismo. As fragilidades unem as pessoas. Cada um de nós talvez tentasse perceber qual seria o motivo que levava o colega do lado a estar ali sentado. E as conversas começam a estalar. Na verdade, eu não disse nada. Só soltei uma ou outra gargalhada, o que também não dá muita saúde à lombar. Caramba, quando doí, parece um espinho encravado, tudo incomoda!
Mas, apesar de gostar muito de falar, ainda gosto mais de ouvir e de observar. Como somos todos tão frágeis em determinada situação. E como é engraçado ver como as pessoas deixam os seus pergaminhos todos à porta do hospital. Os únicos protocolos que existem lá dentro são os de tratamento. Embora não goste nada da ideia, tenho a noção clara que se de vez em quando fizéssemos um bocadinho mais de visitas ao hospital, os nossos valores, atitudes e comportamentos acomodavam-se muito bem ao sítio onde pertencem. E não gastávamos tanta energia com coisas que não interessam para nada.

No meio de tanto analgésico, os pensamentos fluem livremente. E não consegui evitar a lembrança de algumas histórias, verdadeiras, de velhinhos abandonados em hospitais. Porque a família vai de férias. De crianças que são sistematicamente agredidas, para poderem lá passar umas temporadas. Para os seus disfuncionais pais ficarem sem esse peso. E de mais umas pérolas deste género. Parece que não pode ser possível, não é? Mas é, infelizmente. Lembrei-me de já ter convivido tanto com hospitais. Não por mim diretamente. É só de vez em quando e por motivos light. Mas por familiares e amigos, já tenho uma boa quota. E já vi um bocadinho de tudo. Do melhor e do pior. E do assim-assim também. Portanto, os hospitais são sempre poços de recordações, de pensamentos e de sentimentos.  De lembranças de pessoas que se amavam e que, de uma forma ou de outra se perderam. Umas perderam-se para a doença. Outras perderam-se pelos efeitos que a doença teve nelas próprias. Outras ainda porque a doença já era o próprio sinal de perda, da mudança. Nem vale a pena continuar com exemplos. Hoje voltei a lembrar-me que, sem contar com as minhas crias (graças a Deus) já tive em risco e vida, no hospital, os elementos mais importantes da minha família. Pai, mãe e irmão. A saber-se como entravam sem se ter a mínima ideia se sairiam com vida, ou com que diagnóstico. E outras pessoas também muito chegadas, avós, padrinhos, amigos de família. O meu próprio casamento, quando entrou em espiral destrutiva teve direito a um internamento.  Acho que nunca tinha pensado assim nisto dos hospitais como se fossem uma lista de acontecimentos na minha vida...aqui está mais um exemplo de como a escrita é organizadora!

Não costumo pensar muito nestas coisas pois sou otimista por natureza. Gosto de gastar pensamentos com alegrias. Mas as tristezas também têm que ser pensadas. Fazem parte de nós. E de vez em quando penso nelas e então agradeço a vida, a saúde e a presença dos que amo. Nunca liguei muito a doenças. Não tenho nada pinta de hipocondríaca e desde que ande bem, não vou ao médico. E como tenho muita resistência à dor, sou um bocadinho balda comigo própria. Se calhar, a vida está a fazer-me uns sinalinhos de luzes que é para eu aprender a tomar um bocadinho melhor conta do embrulho da alma. Se calhar tem que ser. Na verdade já melhorei muito os meus hábitos de alimentação, exercício e outras coisitas que ajudam na saúde. Mas se calhar tenho que fazer umas revisões de vez em quando. Uma maçada!

Mas não posso deixar de ser justa e de dizer como todas estas experiências de vida me têm tornado muito melhor pessoa. Como tenho aprendido a distinguir o essencial do acessório. O importante do supérfluo. Como tenho aprendido a sempre escolher as pessoas em detrimento das coisas. Do amor, do coração e da alma em vez da segurança, do programável e do racional. A única desvantagem deste processo é que, precisando eu de ser uma pessoa mais paciente e serena, tenho cada vez menos paciência para miudezas e coisinhas que não interessam nada. E para pessoas pequeninas de espírito e más. E lá tenho que voltar a lembrar-me que ninguém escolhe ser assim e que os outros não têm culpa do meu mau feitio.

Aprender é cansativo. Principalmente quando nos doem muito as costas.

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