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Cuidar para dentro

Tenho muita dificuldade em perceber o gostar de alguém sem se cuidar, sem querer saber. E por mais que me esforce, tenho alguma dificuldade em perceber estas coisas. Infelizmente tenho algumas pessoas assim à minha volta ou à volta de quem me é muito querido. Gostar-se ao longe, sem acompanhar sem saber se está bem, sem ser preciso saber nada sobre a outra pessoa. Que coisa desconcertante! Penso que isto é um bocadinho coisa de homem. Assim de repente, lembrando-me de algumas pessoas que relaciono com este assunto, só me vem o género masculino à cabeça. É capaz de fazer sentido porque os seus mundos por dentro são fechados a 7 chaves com cadeados quase invioláveis. Sentem tudo para dentro, cuidam para dentro, amam para dentro. Estando bem cuidado no mundo interior, já está tudo bem. É mesmo à homem. São educados para a responsabilidade, para serem fortes, frios e duros. Emoções são coisas de mulheres e de gente fraca! Eu acredito que sentem, sofrem, amam e tudo igual a todas as outras pessoas. Mas é para dentro. Como se o objeto de amor fosse um holograma que povoa um qualquer mundo interior. Que povoa os pensamentos e os sentimentos, a cabeça e o coração. Cuidar da pessoa verdadeira, daquela de carne e osso, é que é o cabo dos trabalhos. Isso é que é mais difícil. Penso que, se calhar, não sabem como isso se faz. Não sabem refletir no mundo exterior toda a riqueza que se passa dentro. Não sabem dizer que gostam de quem gostam. Não sabem fazer mimos, delicadezas e doçuras. E partem do pressuposto de que a ausência de más notícias já são boas notícias. E que está tudo bem. Por vezes também não sabem ler nas entrelinhas. Se por dentro está bem, há-de estar bem por fora. Estas pessoas esquecem-se que as outras tais de quem gostam, também têm mundos por dentro e por fora. E outra forma de lidar com as coisas, com os amores e com as pessoas. Não sei quem está certo ou errado. O que sinto são os fossos entre as pessoas, quando era tão simples fazerem-se pontes de entendimento. 

Quando se gosta, não tem que haver anulações de personalidades nem atitudes contra-natura para qualquer dos lados. Gostar implica ir ao encontro de... e quando se vai ao encontro, vai-se tentando perceber o que faz o outro um bocadinho mais feliz sem se molestar, sem se magoar a si próprio ou perder a sua própria personalidade. Sem percas de liberdade, sem sacrifícios. Apenas uma negociação onde ganham, obrigatoriamente ambas as partes. Porque quem gosta, fica feliz por fazer o outro feliz. É um valor acrescentado para si próprio. Existe uma maravilhosa música do Caetano Veloso que diz qualquer coisa do género: “…é claro que a gente cuida quando a gente gosta…”. Para o Caetano é claro. Para mim também é claro. Mas para muitas pessoas, é lusco-fusco ou escuro mesmo. Sendo as pessoas todas tão diferentes, até o próprio conceito de cuidar é diferente de pessoa para pessoa. Mas enfim, todas as coisas que nascem e moram no coração são subjetivas. São de difícil definição. 

Voltando ao assunto da forma de cuidar para dentro. A chatice desta maneira de gostar assim um bocadinho desasada, surda e muda, é que um dia, quando se lembra ou quando se é capaz de dirigir o cuidado para o sítio certo, a outra pessoa, pode já lá não estar. Aborreceu-se de não sentir o que afinal lhe dedicavam mas não conseguiam demonstrar. Esgotou a paciência e a capacidade de curar as suas feridas sozinha. E foi à sua vidinha. E, de repente, quem não era capaz de cuidar para fora, de dar o braço a torcer, fica sozinho. Em solidão. Porque um holograma, afinal, não preenche. 

Também as relações entre as pessoas têm que ter 2 setinhas. Tem que ser um ciclo virtuoso onde cada um alimenta o coração do outro. Quando apenas um é capaz de nutrir, de cuidar, o destino está traçado. E normalmente, ambos sofrem. Em ficou esgotado e o outro sozinho. Ambos perdem. A perda é uma canseira. Acarreta montanhas de sofrimento e faz muitas cicatrizes. E se não se aprendeu nada, se não se foi capaz de perceber a moral da história, aí vem mais perdas na certa! E mais dores, mais fardos pesados. E mais solidão. 

O que me deixa estarrecida é perceber que existem pequenos nadas que fazem tanta diferença na vida e na relação entre as pessoas. Pequenas coisas, algumas palavras e alguns gestos. São recursos que estão ao alcance de todos, não é preciso ir à China para se encontrar algum componente esquisito. Não são precisas coisas exóticas nem do outro mundo. São coisas tão simples! Como não utilizar os recursos que temos à mão para manter e melhorar o que é bom?

Quer dizer, eu fico estarrecida mas até compreendo. Custa-me a aceitar mas compreendo. A educação deixa-nos marcas e referencias que são muito difíceis de ultrapassar. Ainda mais castrador que a educação é o medo. O medo é que nos trama a todos. Medo da rejeição, medo de parecer ridículo, medo de ficar numa posição fragilizada ou enfraquecida, medo de ficar sem jeito, medo de não controlar, medo de se entregar ao outro, medo de sofrer, medo de criar expetativas, medo de se expor, medo da opinião do outro, medo de não dar conta do recado e mais uns quantos medos dos quais agora não me consigo recordar. E esquecemo-nos de ter medo de magoar o outro. Esquecemo-nos de ter medo de perder aquela pessoa que afinal é tão importante na nossa vida. Ora aqui está um medo que é bastante organizador. Se tivermos medo de perder o outro, se calhar, somos capazes de o cuidar melhor. De o amar melhor. Há assim uns medinhos que até dão um certo jeito. Que até ajudam as relações. Que nos põem em sentido e na ponta da unha. Na verdade não seria preciso ter medo de nada. Apenas amar o outro como deve de ser. Abrir o coração, deixar jorrar e já está. E, tal como na natureza, nada se perdia, tudo se transformava! Para muito melhor, tenho a dizer.

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