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As mentiras e eu

Temos uma relação difícil. Sempre me magoam. Todos nós mentimos, é desnecessário negar. A mentira e a verdade, tal como qualquer outra coisa da vida são o verso e o reverso da mesma moeda. Dizem os entendidos nestas coisas que mentimos em média 5 vezes por dia. Perante isto, a primeira reação será dizer: -“Eu?! Deus me livre! Eu não minto!”. Pois mentimos. Basta estarmos tristes e se alguém nos cumprimenta e pergunta como temos passado, dizemos:-  "Muito bem, obrigada!" É mentira, estamos tristíssimos. É verdade que uma boa parte das nossas mentiras tem a ver com cortesia. Hoje nem sequer quero falar de mentiras patológicas ou daquelas por maldade, que propositadamente servem para ferir. Isso não me interessa. Neste assunto, interessa o que diz respeito às pessoas que são importantes para mim. E ainda às outras pessoas que se cruzam na minha vida. Pessoas normais.

As mentiras sempre me doeram, as minhas e as dos outros. Mesmo quando penso que não tenho alternativa e que o melhor para aquela pessoa é a minha mentira. Minto-lhe mas fico rasgada por dentro. E quando me mentem, e eu sei, mesmo para me poupar e porque gostam de mim, também me fica a doer. Sempre fui daquelas pessoas que prefere uma verdade dolorosa a uma mentira doce. Cada vez sou mais assim. A idade apenas me trouxe a sabedoria de pensar que há coisas, verdades ou mentiras, que é melhor não saber. Ou pelo menos não saber antes do tempo. Tudo tem o seu tempo próprio, até a verdade. E procuro, quase até ao infinito, não mentir. Porque dói. Porque me sinto pior pessoa. Mesmo quando me parece que é para o bem do outro. Quando a verdade não ajuda ninguém, só prejudica, só vai criar sofrimento sem nenhum valor acrescentado. Nessas alturas, peço a Deus que não seja preciso dizer nada. Nem a verdade, nem a mentira. Infelizmente, nem sempre é como eu gostaria que fosse e tenho que fazer o que tenho que fazer. Ninguém tem culpa que eu prefira uma verdade dolorosa a uma mentira doce. Essa é a minha posição perante estas coisas, embora saiba que não a posso impor aos outros. Também nestes assuntos, cada um é como é e tem as suas preferências. Eu detesto mentiras e meias verdades. Seja de que de forma for. 

A mentira deveria ser sempre o último recurso. Ou nem sequer ser um recurso. As meias verdades também são uma chatice. Tenho alguma dificuldade em lidar com elas. Às vezes não as percebo e outras vezes fico a pensar na outra metade da verdade. A quebrar o juízo para fazer o puzzle.

Muitas vezes digo que é muito fácil mentirem-me. É muito fácil. Não porque eu seja assim tão palerma ou porque me dê com pessoas que gostem de mentir. Nada disso. Uma parte das mentiras que dizemos é por defesa pessoal. Porque não nos queremos expor. Não tem a ver com maldade. Essas situações, como já disse, estão excluídas desta conversa. É fácil mentirem-me porque normalmente, no que diz respeito às pessoas, não sou assim tão palerma. Mas ponho-me a jeito. Sou direta. E faço perguntas. Se calhar corro o risco de fazer perguntas demais. E então, para não estarem sujeitas às minhas perguntas e à minha opinião, comentário ou outra diretividade qualquer, é mais fácil atalhar a conversa logo pela raiz e mentir. 

Eu tenho muita facilidade em falar de pensamentos, sentimentos, emoções, no fundo, de tudo o que tem a ver com o coração e com a intimidade. E sei que isto não é nada fácil para a maior parte das pessoas. Eu também não sei porque é fácil para mim. É fácil e pronto. Acho que os nossos mundos interiores são uma coisa maravilhosa. Mas compreendo que as pessoas tenham receio de se exporem, de se verem “olhadas” por dentro, mesmo quando sabem que eu seria incapaz de lhes fazer mal. Mas tem o direito à sua privacidade e à sua proteção. No meio disto tudo, mais importante que a mentira em si, é a razão que lhe dá origem. E essa razão sempre me ajuda a tomar uma decisão. A relevar ou não. A fazer de conta que não sei que é mentira ou a expô-la claramente. Ou outra decisão qualquer. Também isto é um processo de relacionamento. De aprendizagem, de livre-arbítrio. Este é um processo que me faz gastar muitos neurónios. Sou uma pessoa muito espontânea. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. E, sendo espontânea, não gosto muito de pensar como é que me deveria relacionar, desta ou da outra maneira, com esta ou com aquela pessoa, etc. E gosto muito de pessoas. Assim, pensar muito as formas de relacionamento é um bocadinho contra-natura. Mas gasto muito os tais neurónios porque, obrigatoriamente, tenho que as pensar. Tenho que escolher as formas de relacionamento mais adequadas. Para não invadir o espaço de ninguém, para não ir para além do que a outra pessoa quer mostrar ou dar. Também a outra pessoa não tem culpa que eu a entenda com alguma facilidade, que lhe perceba as entranhas e que descubra as suas feridas emocionais. Onde dói. E não faço de propósito. Com as pessoas que gosto é assim. Sem muito esforço da minha parte. E por vezes tenho que fazer de conta que não percebo nada disto. E tenho que guardar o que percebo. É um processo um pouco solitário. Muitas vezes tenho que escolher calar, quando me apetece dizer. Tenho que escolher cerrar a boca em vez de deixar falar o coração. Tem que ser. 

Não gosto de assustar ninguém nem de sentir que as pessoas se assustam comigo. Às vezes assustam-se e eu tenho muita pena que assim seja. Para mim própria nada disto é fácil. É difícil escolher o registo adequado a cada pessoa para que ela não sinta invadida. Para que eu não seja intrusiva. Para que possa dizer ou fazer o que é adequado na situação certa. Ou até escolher não dizer nada ou não fazer nada. Com a idade e a experiência, vou aperfeiçoando umas coisinhas. Vou ganhando mais sabedoria e mais calma. Por exemplo, se me mentiam, antigamente, ou zangava-me, ou colocava a coisa em pratos limpos. Agora tenho outra forma de me relacionar com a mentira. Não gosto mais dela, pelo contrário. Aprendi a retirar-lhe o poder que ela tinha sobre mim. Já não é assim tão importante. Importante é o porquê da mentira, a sua origem. Isso é o que verdadeiramente importa. Claro que às vezes também descubro razões que me magoam ou que me fazem doer. Principalmente as que têm a ver com o facto das pessoas se assustarem comigo. De terem medo de se exporem a mim. Custa-me, mas compreendo muito bem. E aceito. Mesmo doendo. O instinto de proteção do nosso mundo interior é tão profundo como o instinto de sobrevivência. Eu tenho esta noção clara. Por isso é que os nossos mundos de dentro são também tão importantes! Na verdade, passamos a vida a protege-los com todas as nossas forças. Claro que me dói se as pessoas de quem eu gosto sentirem a necessidade de se protegerem de mim. Nunca lhes faria mal. Nunca as molestaria. Mas tudo isto é um problema meu, não é um problema das pessoas de quem eu gosto, não é? Portanto, lá vou aprendendo a viver com esta característica. Chamo-lhe característica porque não sei bem o que lhe hei-de chamar. Há dias em que lhe chamo graça ou talento. Noutros dias, chamo-lhe cruz ou tormento. De vez em quando, apetecia-me não perceber nada de pessoas. Só para descansar um bocadinho e para experimentar se era melhor não perceber nada de nada! E apetecia-me fechar-me no meu casulo, pelo menos até ao Natal! A sorte é que isto me dá só de vez em quando, quando percebo alguma mentirinha daquelas de autoproteção ou para eu não fazer as perguntas a seguir. Na realidade eu gosto demais de pessoas e de mundos por dentro para desistir de alguma coisa. Apenas vou pedindo ao Céu que me vá dando a sabedoria para ir gerindo todos estes reboliços que se me apresentam. Ou que eu própria crio. Também tem dias. A sabedoria é uma coisa fantástica. Que Deus me vá acrescentando esta qualidade. Não me pode dar amor sem me dar a sabedoria para o gerir.

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