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À noite

Desde que me lembro de mim que gosto da noite. Acho que é o facto de gostar tanto da noite que me faz também gostar ainda mais do dia. A noite carrega uma esperança única de se caminhar para a luz, para o dia. Por mais escuro que esteja, por mais carregado e solitário, sabe-se que daí a umas horas vai haver uma aurora e um novo dia vai infalivelmente nascer, carregadinho de luz e um novo recomeçar. Gosto de tudo o que me traz esperança. A esperança alimenta-me, ajuda-me a seguir mesmo quando não faço a mínima ideia por onde vou, nem porque vou. Nada me traz tanta esperança como a noite.

A noite dá-me uma paz extraordinária. É aquele bocadinho das 24 horas que me permite estar comigo própria, pensar livremente sobre o que me apetece, sem filtros nem censuras. Nem interrupções. Posso escolher a intensidade da luz que utilizo para fazer o que me apetecer. Uso o dia e a maravilhosa luz do sol para observar o mundo, os outros, tudo o que é exterior a mim. E adoro, diga-se de passagem, apreciar o mundo, a vida, as pessoas e a natureza. Mas é na noite que consigo observar-me a mim própria. É à noite que tenho o sossego para usar a minha própria luz para refletir sobre tudo e sobre nada. A minha luz serve para observar e interagir com os meus mundos interiores. É à noite que consigo pacificar-me melhor e meditar melhor. Às vezes até tenho pena de ter sono e de estar cansada. É que há tantos pensamentos para pensar, livros para ler, musicas para ouvir, textos para escrever que não cabem no tempo disponível que tenho...mas na verdade também adoro dormir.

Também não há nada mais reconstituinte como os soninhos da noite. E depois têm 2 coisas maravilhosas: a primeira são aqueles minutinhos em que antes de dormir, o nosso pensamento vai sem controle para qualquer lado e de repente nasce um cenário, uma história, qualquer coisa de interessante. Adoro quando não aterro redonda na almofada e posso pensar este bocadinho. A segunda coisa tem a ver com o sonhos propriamente ditos. Eu adoro sonhar!

Adoro sonhar acordada, é verdade. Mas os sonhos do sono são impagáveis. Eu acredito que os nossos sonhos são uma interação entre o nosso mundo e o mundo do Céu. Podendo parecer estranho, já me aconteceu várias vezes sonhar com situações que de alguma forma me trazem uma mensagem, um aviso para qualquer coisa que vai acontecer na minha vida ou na vida dos meus significantes. Isto é tão certo como estar a ler o que escrevo. Acredite-se ou não, a mim acontece-me. E eu não tenho medo. Apenas penso sobre isso e procuro perceber a mensagem. Umas vezes percebo melhor do que as outras, mas já estou mais entendida na coisa. Sensações de deja vú, então são às toneladas. Estar a viver uma cena, uma situação, um episódio, estar a ter uma conversa, um gesto com o qual já sonhei anteriormente. E não é "parece que sonhei". Sonhei mesmo e lembro-me claramente. Por isso acho os sonhos maravilhosos. Mesmo quando são pesadelos e nos assustam. Sempre acordamos. Depois da tempestade vem sempre a bonança. Da mesma forma que depois da noite, que representa paz e descanso, sempre vem a esperança de uma parte do dia ainda melhor. Cheio de luz, de movimento, de vida.

Claro que a noite, como tudo na vida, também poderá ser o momento do dia mais assustador, se se tiver medo. Se sofrer de solidão, a noite pode ser mais uma ferradela. Se não se gostar de olhar para dentro porque pode doer, de noite a dor é maior. Mais profunda. Quando se sofre de saudades, estamos fritos - é à noite que elas apertam mais. A noite traz uma predisposição muito interessante para tudo o que se passa dentro do indivíduo. Mais um ponto a seu favor...

Também me parece que no convívio da noite as pessoas são mais soltas, mais verdadeiras, sem tantos protocolos, pergaminhos, etiquetas e outras categorizações. Claro que também por vezes se soltam demais. Voltamos à conversa do costume sobre as duas faces da moeda. A noite também tem direito às suas duas faces. Ou fases, como a lua, que lhe pertence. Também pode ser noite crescente ou minguante, conforme acrescenta ou retira alguma coisa na nossa vida. A noite também me parece que é feminina, tal como a lua. Tem os seus caprichos, os seus mistérios, as sua telhas. Tem tudo o que faz parte do mundo das mulheres. Diz-se que as mulheres são mais bonitas à noite. Mais sedutoras. Pensando no assunto, é capaz de ser verdade. Acho que me sinto mais bonita depois do sol se pôr. Mais em paz. E o stress não dá beleza a ninguém, cria rugas na testa. Na verdade será sempre melhor do que a manhã, no que diz respeito à beleza. As minhas manhãs são com olhos muito fechados e com cara de poucos amigos. E acrescem umas rosnadelas nos entretantos. A noite predispõe muitos sorrisos. Até os homens me parecem menos racionais quando o sol vai dormir. Ficam mais emocionais, mais divertidos, menos engravatados. Mais interessantes. Só vantagens.

Por outro lado, acho que à noite a disponibilidade para ouvir é maior. Para ouvir o meu coração e o dos outros. A noite tem mais emoções e menos racionalizações. Consigo falar melhor sobre sentimentos da 21.00H em diante. Parece-me que escrevo melhor, com mais alma, se a lua estiver no céu. A lua e a sua meia luz é inspiradora. Acalma. E quando a calma domina, o que temos de melhor pode emergir livremente e percorrer caminhos novos. E podemos descobrir tantas coisas. Basta darmo-nos a esse luxo. De soltar a nossa essência, de sentir livremente.  A noite também propicia a liberdade. Principalmente a liberdade interior. 

E agora, como é de noite, vou apreciar o meu bocadinho, aquele que é só meu. De mim para mim. É gotinha de fermento na minha espiritualidade, no meu desenvolvimento.

Já agora, as minhas conversas com Deus são mais frequentes à noite. Aquelas conversas longas. No Céu, o sol nunca se põe e ninguém precisa de dormir. E eu oiço melhor à noite. São os ouvidos da alma que estão mais atentos...resumindo: parece-me que sou melhor pessoa à noite. Não tenho tanta propensão para a asneira.

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