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Pesos e medidas

Hoje tenho estado a pensar sobre as medidas da importância. Como é que se pode medir o quanto nos importamos com os outros ou o quanto os outros se importam connosco. Cada um de nós tem o seu peso e a sua medida. Porque não existe uma medida universal para algo tão importante na nossa vida? Não entendo. Existe formas de medir a tendência para o mais infinito e para o menos infinito - que ninguém sabe exatamente o que isso é - e não se mede o quanto somos significantes uns para os outros. Pelos vistos não se consegue encontrar, de forma tangível, a área que ocupamos nos outros corações. O peso que temos na vida desta ou daquela pessoa. Ou a distância que nos separa e aproxima. Nem a velocidade com que nos encontramos. Nem a profundidade com que sentimos. Não sabemos ponta do quanto, de forma palpável, contamos para a felicidade dos outros. Ou que diferença fazemos nas suas vidas. Ou se lhes dividimos as tristezas, pomos em comum os gostos e multiplicamos as alegrias e os sorrisos. Parece que a matemática, afinal, não interessa para grande coisa. Só serve para ajudar a edificar fora de nós. No meio ambiente: pontes, estradas, arranha-céus e outras coisas do género. Para aquilo que verdadeiramente interessa, não ajuda. Não ajuda no que diz respeito às medidas do nosso coração e do que se passa lá dentro. Todo o nosso mundo relacional é construído às apalpadelas, por tentativa e erro. Por isso é que passo a vida a dizer que não vale a pena racionalizar as emoções e os sentimentos. Para quê? Não bate certo. Os sentimentos são intangíveis e fluidos. São invisíveis e, no entanto, podem ter tanto pano para mangas. Têm formas pouco geométricas e tantos ângulos quantos os pontos de vista. Não são dados a sequências nem se regem pelas regras das probabilidades. De facto, a parte mais significativa da nossa vida é completamente avessa a qualquer género de categoria, estatística, percentagem ou racionalização. Nem uma matriz como deve de ser se consegue fazer com os nossos sentimentos. Não dá para nada. Apenas podemos tratar dos sentimentos e das emoções com a balança que Deus nos deu: o coração. Não há outra forma. E colocar a cabeça a pensar em função do coração e não o contrário. Deve-se “emocionar” a cabeça ao invés de se “racionalizar” o coração. Difícil mas possível e desejável. De vez em quando apetecia-nos ter uma fórmula resolvente que resolvesse estes enigmas sem grande gasto de energia. Mas, tal como já disse anteriormente, as fórmulas matemáticas não aquecem nem arrefecem o que se passa no coração. É como misturar bagos de romã com tapetes persas: nada a ver uns com os outros.

Este assunto dá-me sempre volta à cabeça. Por vezes dizem-nos que somos muito importantes e muito especiais mas não nos cuidam. Deixam que as distâncias sejam de separação e não de encontro. Deixam que se possa medir o que nos separa em quilómetros ou em horas de silêncio. Eu que adoro palavras não as concebo sem conteúdo que é o mesmo que dizer, sem substância, sem comportamento em conformidade. De que vale dizerem-nos que somos bonitas e atuarem connosco como se fossemos feias. Ou fazerem-nos sentir que somos feias. Esta é apenas uma forma de ilustrar as discrepâncias que podem existir entre aquilo que as pessoas dizem e a forma como se comportam nos relacionamentos. Por vezes, nestas circunstâncias pode-se usar uma unidade de medida: a diferença é de metro! Ou, talvez as questões sejam geometricamente circulares e desenhadas a compasso, traçando-se uma linha fechada à volta de um ponto central: o umbigo de cada um! Há pessoas que são centradas no seu próprio umbigo!

Não compreendo porque é que os uns se esquecem dos umbigos dos outros. É que toda a gente tem um umbigo! E os umbigos são todos importantes e gostam de ser respeitados e considerados. Já foram ligação de vida. Já tiveram um papel muito importante, no útero materno. Mas é preciso dar um passo em frente e entender-se que o círculo desenhado à volta do meu umbigo termina na fronteira do circulo do umbigo do outro. E que deve haver linhas e áreas de interseção. Deve haver concessões e respeito mútuo pela importância que todos os umbigos têm. Mas esta coisa do respeito pelo outro também não se mede nem se pesa. Apenas se faz um cálculo aproximado e tosco, em função dos comportamentos que se nos apresentam. E depois, para complicar a história, as parcelas que uns usam para calcular são diferentes das parcelas de outros. E isto é uma grande confusão de narizes. Ou conseguimos respeitar profundamente as diferenças com um espírito de aceitação inabalável ou não há matemática que nos safe. Cá no meu conceito, haveria de existir um sistema bem montado de medida das coisas do coração. Toda a gente sabia em que pé é que andava e com o que podia contar. Assim, gastamos um montão de energia a tentar perceber as coisas, as razões e as consequências sem que se consiga chegar a grandes conclusões. E, apesar de me chamarem de linda, parece-me que há dias em que não sou linda que chegue. 


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