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Navegar e outras coisas

Como o dia hoje estava um bocadinho troncho, lá desato a encontrar formas de me animar. Para além de destilar as emoções aqui no blog e escrever até me cansar, desato a ouvir musica. Encontro o que me apetece ouvir, o que me faz sentido. Estou a ouvir uma música muito bonita que se chama “navegar em mim”. E a letra faz-me todo o sentido. Resumindo a coisa: para se amar alguém ou para se ser amado não basta as tralhas habituais da sedução, é preciso que o outro “navegue em mim”. Só assim é amor de verdade. O tema do amor (amor de qualquer género) sempre me inspira. Faz-me sempre pensar. E, como não consigo desligar os pensamentos, mais vale partilhá-los por aqui. Alguém navegar em nós deve ser uma coisa maravilhosa. Em primeiro lugar porque só se navega no mar e o mar é sempre um ambiente maravilhoso. Pelo menos para mim. E se eu fosse um mar, como seria bom que alguém que me amasse fosse capaz de navegar em mim! Parece-me que este “navegar” encerra muito mistério. Parece ser uma coisa simples, não é? Mas não é. Para se navegar no outro tem que se tem muita sabedoria. Existem uma data de condicionantes para se poder levantar âncora e fazer-se ao mar. Primeiro é preciso ter-se muito amor pelo outro. O amor é o que faz ficar à tona da água. É o que faz flutuar. É o que predispõe a traçar a rota, mesmo sem se saber o que se vai encontrar, se ilhas paradisíacas ou adamastores assustadores. O amor é o que dá esperança na navegação. Por outro lado, navegar em alguém implica ter vontade de atravessar a sua alma. De a conhecer no verso e no reverso. De norte a sul. Desde ao nascer ao pôr-do-sol. Navegar no outro implica aceitar o outro tal como ele se apresenta. Assim como um navio. Navega independentemente do estado do mar. Sabendo que depois de uma imensa tempestade vem sempre, sem exceção, um mar calmo e sereno. Que nada do que é mau dura para sempre. E se se aguenta a tempestade, então o navio é suficientemente forte para navegar apesar das condições exteriores. E isso é amor verdadeiro. Forte. Navegar no outro implica que esse outro se sinta confortável em ser invadido no seu espaço natural, na sua zona de conforto. Por tudo isto é que a navegação é uma arte.

É tão interessante (embora triste) verificar que existem imensos casais que estão juntos por mil e uma razões exceto a fundamental: por amor. Viro-me para a direita e para a esquerda e verifico que a maior parte dos pares estão infelizes. Ou a fazer de conta que são felizes. Ou correm para nem pensarem sobre isso. Ou têm medo. Medo de não serem capazes de viverem sozinhos ou medo do julgamento dos outros. Ou ainda isto tudo junto. As pessoas coabitam mas não partilham. Vivem juntas mas não unidas. Outras vezes preferem ter uma má relação a conviverem apenas consigo próprias. Outras vezes aceitam condições degradantes para manterem relações disfuncionais onde apenas se adia o afogamento. Outras vezes inventam-se razões, umas simples, outras complicadas, para camuflar o simples “já não te amo”. Porque será que a verdade custa tanto a dizer? É verdade que custa. Mas o que ainda custa mais é o descobrir as verdadeiras razões cá dentro de nós. E, por vezes, os outros, a vida, os filhos e outras coisas que agora não me consigo lembrar, é que pagam as favas! 

Lembro-me de enquanto filha ter carregado a responsabilidade da não separação dos meus pais. Lembro-me da minha mãe dizer que não se separava do meu pai por causa dos filhos. Isto assim na infância e na adolescência faz-nos crescer num instantinho. À força. Lembro-me como isto me doeu. Não a possibilidade da separação em si mas a responsabilidade desta não acontecer. Os casais esquecem-se que, para os filhos, mais vale uma boa separação do que um mau casamento. Esta responsabilidade sempre me pesou nos ombros. Senti que era responsável pela infelicidade de duas pessoas. Assim de repente e sem me lembrar de ter feito alguma coisa de mal que causasse essa infelicidade. Era assim só por ser filha. Porque não se separavam por causa dos filhos. Claro que hoje entendo que não foi nada por causa dos filhos que não se separaram. Foi porque não tiveram a coragem de o fazer. Porque fizerem o que foram capazes de fazer. Quando estou por aqui a tecer estas considerações deixo claro que sei que cada um faz o é capaz de fazer em determinada altura da vida. Cada um faz o seu melhor. Não é isso que está em causa. Não estou a escrever em tom de crítica. Mesmo que seja asneira, fazemos o que somos capazes de fazer. Mas penso sobre estes assuntos. Sempre pensei. Como filha, como mulher e como mãe. A vida sempre me deu as situações para que, obrigatoriamente, tivesse que pensar sobre estes assuntos. Também passei por um divórcio, com crias. E fiz o melhor que fui capaz. Tentando proteger as minhas filhas de alguma responsabilidade sobre o assunto. Procurando descobrir o porquê das coisas. Tirando as lições que me foram proporcionadas. E fiquei toda partidinha. A vantagem de ficarmos destroçados, destruídos e no chão é que só há um caminho: a reconstrução. Não há volta a dar. A única possibilidade é renascer. Podemos é escolher como nos reconstruimos, como renascemos. Com a ajuda de Deus consegui reconstruir-me sendo melhor pessoa. Escolhendo gastar energia com as coisas boas. Com alegria. Sem amargura nem ressentimentos. Essas emoções ruins procurei deixá-las nos destroços. E esgatanhei-me para encontrar emoções novas, de bem e de paz que me ajudassem a traçar um rumo novo. E cá estou. A valorizar tanto as coisas boas da vida. Cada sacudidela que a vida nos dá deve servir para nos abrir os olhos. E apesar de uma situação nos correr mal não há nenhuma razão para termos medo dela. Apesar de ter dado com os “burrinhos na água”, como se diz, cada vez valorizo mais o amor. Talvez por ter dados com os ”burrinhos na água” é que o aprendi a valorizar tanto. Quem diz o amor diz outras coisas da vida. Os terramotos, apesar de tão destrutivos, dão-nos a oportunidade de começar de novo. De forma mais simples e ordenada. Distinguindo o essencial do supérfluo. 

Num momento extremo da nossa existência é que somos capazes de ver exatamente o que é para nós importante. Dou um exemplo: numa situação de quase morte, em que nos parece que vamos morrer, todos os pensamentos que nos afluem à consciência são os mais importantes de todos. As pessoas de quem nos lembramos são as tais. As que fazem a diferença na nossa vida. E, se tivermos um pensamento do género: deveria ter feito isto ao aquilo, devemos agarrar esse pensamento. Depois do susto passar deveremos refletir muito bem sobre tudo o que nos passou pela cabeça. E fazer o que tem que ser feito. Digo-vos isto com conhecimento de causa. Também tive uma experiência dessas. E foi muito pedagógica. Procurei pacificar-me com as pessoas que me pesavam no coração e procurei dizer a todos os que amo, o quanto os amo. Pelo menos isto procuro fazer, sempre que tenho oportunidade. Procurei passar a viver como se pudesse partir a qualquer momento. Na verdade, podemos partir a qualquer momento. E não gostaria de ir para o outro lado com mágoas nem pesares. Gostaria de ir cheia de amor e com a sensação de que valeu a pena. Mais uma razão para valorizar tanto o amor. O amor de todas as formas e feitios. 

Esta converseta toda desaguou da arte de navegar. As palavras, pelos vistos, também têm vontade própria. E fluem com os pensamentos. Começamos numa ponta do novelo e acabamos noutra totalmente diferente embora interligada. E todos os pensamentos e palavras me levam para a mesma conclusão: deveríamos viver a vida assente no amor e não no medo, na segurança, no socialmente aceite, no confortável. O que Deus nos planta no coração é sempre, sem exceção, a semente do amor. Depende de nós dar-lhe as condições para florescer e para se tornar a árvore mais possante e alta do nosso jardim. Também podemos escolher congelar a sementinha. Ou atrofiá-la. Ou até destrui-la. A escolha é sempre nossa. E a vida dá-nos várias oportunidades de a podermos escolher. A semente do amor passa a vida a cruzar o nosso caminho para que nós reparemos nela. Sempre a pedir para ser escolhida…Pois peço a Deus que quando planta essa sementinha no nosso coração, que plante também uma semente de coragem, já robusta, para que nos acompanhe na vida e que nos ajude a fazer as escolhas que nos colocam no caminho original, um caminho de amor e de evolução. Aquele que combinamos com Deus antes de nascer mas do qual não nos lembramos. A falta de memória é uma coisa muito ruim e dolorosa…

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