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Esponjinha emocional

Hoje apetece-me falar de uma espécie particular de pessoas: aquelas a quem se chamam de esponjas emocionais. Estas esponjinhas são as que têm o condão de perceber e de sentir o estado emocional de outras pessoas. Claro que isto não acontece indiscriminadamente. Estas esponjinhas pressentem o estado emocional de quem lhes está no coração. Intuem o que se passa no coração dos outros da forma como Deus permite e quando Deus permite. Parece que é para se ir sabendo o estado da arte.

Isto não é nada fácil de se gerir. Em primeiro lugar não é nada fácil de se falar no assunto quanto mais de gerir! Tenho que partir do princípio de que quem partilha este bocadinho de tempo comigo acredita nalguns dons que Deus nos dá e que não são ensinados na escola nem na catequese. Será necessário acreditar-se que, para além dos talentos e características objetivas e visíveis que as pessoas possuem, cognitivas, criativas ou artísticas ou desportivas, existem também um conjunto de outras características que são do foro emocional e espiritual. E alguns de nós são capazes de sentir ou de fazer coisas assim um bocadinho esdrúxulas, à margem da chamada simples normalidade. Não se é especial de corrida por isso. Apenas se é diferente. Assim como os pintores ou os poetas. São apenas características. A cada um de nós Deus deu um conjunto delas, com o respetivo potencial de ação. Como em tudo na vida, depende da nossa escolha colocar os talentos dados a render. Depende de nós desenvolver e trabalhar as graças que nos são concedidas. Se um pintor tiver talento mas não fizer nada com isso, as obras não aparecem por geração espontânea. As poesias não se escrevem sozinhas. No mínimo, as artes precisam de um intermediário para se mostrarem. Nestas coisas das interioridades e espiritualidades, também existem intermediários. As tais esponjinhas emocionais e intuitivas. Consegue crer nestas premissas? Se sim, continuamos por aqui fora. Se não, poderemos encontrarmo-nos no próximo texto, amigos como sempre.

Ser uma esponja emocional quer dizer conseguir absorver e sentir o que outro alguém está a sentir. De vez em quando consegue-se sentir no nosso coração o que outra pessoa está sentir no dela. Consegue-se sentir a tristeza que não nos pertence. Difícil de acreditar? Muito difícil. Até para quem sente é muito difícil. De vez em quando parece que o coração nos salta pela boca sem que haja uma razão aparente para isso. Ou apetece chorar ou fica-se ansioso mesmo quando não se é dado a ansiedades. Quando estas coisas acontecem pelas primeiras vezes, fica-se assustado, com receio e achar-se que não se está regular lá muito bem…mas como em tudo na vida, é preciso serenar e encontrar respostas para o que o nosso coração dita. É necessário ouvir-se o coração. É preciso ouvir-se aquilo a que chamamos intuição. E isto acontece particularmente com as pessoas que nos são muito próximas em termos de coração. Isto acontece quando os nossos corações tagarelam uns com os outros. Quando existem laços de amor, então, é na mosca. Quantas vezes se sente que o outro, o tal querido e muito amado, está a sofrer à grande. Ou que está super nervoso ou stressado. O busílis desta coisa toda é conseguir-se identificar a origem do que se sente. Mas esta questão ficará para uma outra conversa. Agora queria só falar um bocadinho mais destas características. Não é verdade que por vezes basta o tom de voz ou um olhar para se pressentir o estado interno daquela pessoa em especial? E quando acordamos de noite com uma ideia fixa na cabeça ou um sentimento fortíssimo de qualquer coisa? Das duas, uma: ou aprendemos a lidar e a entender estas coisas ou pedimos que nos internem nalgum hospital psiquiátrico. Eu sou muito livre e não me apetece nada ser internada. Apetece-me continuar a sangrar e a sentir mas de forma livre e, já agora, que sirva para qualquer coisa. Que pelo menos sirva para ajudar os que necessitam de ajuda. Por vezes estas esquisitices servem para dar um mimo no momento especial em que o outro está mesmo a necessitar. Mas isto só acontece se Deus quiser. Tudo isto só se sente quando e como Deus quer, volto a dizer. Aprende-se a lidar com estas intuições através da meditação e da oração. A oração não deve ser uma coisa pré fabricada com palavras já inventadas. Para mim é sempre uma conversa com o Céu. Com as minhas palavras. Com as que eu sei dizer de forma sentida e honesta. De forma espontânea. A serenidade interior permite distinguir águas e perceções, permite ouvir as respostas. Permite ouvir o coração. Permite perceber o que é que pertence a quem. O que é meu e o que é dos outros. Faz-se facilmente? Não. Nunca se tem a certeza de nada. Apenas se tem a perceção de muito. E mesmo assim, nalgumas vezes em que se está muito seguro daquilo que se percebe, não se pode fazer nada com isso. Absolutamente nada. E a tristeza é a dobrar. Percebe-se a ferida emocional do outro mas nem podemos dizer que a percebemos. Como é que estas coisas se explicam? Como é que vamos dizer que sabemos que o outro chorou que se desunhou? Que o seu coração está ao saltos e que precisa de serenar? Como é que dizemos que percebemos muito bem porque é que sofre? Como é que estas coisas se dizem? Por isso são tão difíceis de gerir. São processos muito mas muito solitários. São processos vividos todos para dentro. A gerir o que se sente, o que se diz, como se diz, o que se faz. Enfim…uma carga de trabalhos. E ainda por cima isto acontece particularmente com as pessoas com quem temos profundos laços de amor. O amor é um canal muito fluido entre corações. Para além de curador, o amor é mensageiro. O amor cura muita coisa. É o melhor remédio que existe para tudo. É por onde se entendem as pessoas, por onde se conhecem. E toda a informação que recolhemos com amor, só pode ser útil e bem utilizada. O caneco é que só amar não chega. Isto porque o amor é também do mais livre que há. É preciso querer-se dar e é preciso querer-se receber. Não existe outra forma. Penso que a pureza que existe no amor é o que permite que se sinta na alma o estado de alma do outro. É desta luz pura, desta energia tão maravilhosa que as perceções aparecem. O nosso subconsciente, o nosso coração e a nossa alma sabem de tudo muito antes do que nós. São uns sabichões. Vêem tudo embora possam não passar o que vêem ao nosso entendimento. É este trabalho de ir ao encontro do nosso subconsciente, do nosso coração e da nossa alma que nos permite escolher aceitar ser-se uma esponjinha emocional e, atabalhoadamente, procurar-se fazer o melhor que se pode com o que nos é concedido.

Tudo isto é um desafio diário. É intenso. Por vezes muito doloroso. De vez em quando é avassalador em bom. Outras vezes em mau. Mas sempre avassalador. Por isso procuro tanto manter a paz e a serenidade. Eu já sou tão dada a intensidades que ainda juntar as dores e as belezas do mundo não é nada fácil. Principalmente quando não nos entendem. Ou quando não podemos partilhar isto tudo com quase ninguém. Por isso, meia volta, sinto-me exausta. Emocionalmente exausta. Cada vez menos. Cada vez lido melhor com estas marés mas ainda me cansam. E por vezes não se consegue esconder a nossa melancolia ou a nossa tristeza ou o que seja que se está a sentir. O que se pressente. E quem está à nossa volta não percebe lá muito bem o que se passa. Na verdade, a esmagadora maioria das pessoas não faz a mínima ideia do que se passa connosco. Sabe que somos diferentes mas não sabe nem como nem porquê. Nós também não dizemos e fazemos de conta que é para não corrermos o risco de nos colocarem numa camisa-de-força. Eu tenho a graça de ter com quem partilhar o que sinto em toda a sua extensão e plenitude. Tenho uma irmã de coração que é tão esdrúxula quanto eu embora de forma diferente. Faz de conta que uma pinta e a outra faz poesia. Cada uma mais exótica do que a outra embora vá dar tudo ao mesmo. Assim a solidão destes processos não é tão grande. Não nos sentimos sozinhas a ser esquisitas. A amizade é uma das mais bonitas formas de amor. Porque também é serena. Não tem a paixão a fazer das suas traquinices e a turvar a vista. A amizade é tão de paz que é das coisas mais preciosas que conheço. 

Também poder partilhar aqui o que sinto, de forma livre, é uma forma de me serenar. De lidar com as tais interioridades, sentimentos, intuições e coisas afins. Às vezes estou tão aflitinha quando começo a escrever. Preciso de despejar o que estou a sentir sobre algo ou sobre alguém em particular. E à medida que as palavras saem, o coração vai serenando e eu vou dando conta da avalanche. Há uma estrela que me ilumina que volta e meia diz que eu tenho o dom da escrita. O que a minha estrela não sabe é que eu tenho o dom de sentir. Não é o de escrever. Deus apenas me deu a graça de conseguir traduzir por palavras aquilo que sinto de forma, por vezes, até impiedosa. Deu-me este instrumento para me ajudar a conseguir gerir tudo o que se passa cá por dentro. Porque todos os dons, todas a graças, tal como tudo na vida, têm os dois lados da moeda. E este é mais um dos meus mundos por dentro. Um dos que mantenho bem escondidinhos…

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