Avançar para o conteúdo principal

A sorte não existe

Estou a ouvir uma música que gosto muito e cujo refrão é assim do género "...deixa-te ficar na minha casa, há janelas que tu não abriste...ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste...". Estes bocadinhos de refrão resumem a coisa. É difícil deixar partir quem foi muito significante na nossa casa, isto é, no nosso coração. E por mais que se salte de grande amor para fora, se a coisa não ficar bem resolvida, não descola, não desanda. Fica presa ao coração de uma forma viscosa, peganhenta e não há forma de arrancar. Vale a pena pensar nisto. Para se sair de um grande amor, ou se sai à força porque é o amor que sai de nós, da nossa casa, ou é melhor pensar bem sobre o assunto.

Tudo tem o seu tempo e o seu momento certo. Claro que por motivos de personalidade, esta é uma das minhas maiores dificuldades: perceber o tempo certo das coisas e das pessoas. É uma aprendizagem diária. E os amores também têm um tempo certo para tudo. Até para serem arrancados do peito. E, mesmo assim, não sei se não temos que dar um passo atrás e perceber se é um amor que se arranca ou que se guarda numa das gavetas do coração. Quando se quer saltar fora de um amor, seja lá porque motivo for - talvez porque só amar não chega - temos que refletir mais do que nunca. Não estou a falar de uma relação que termina porque o amor acabou. Isso é pacífico do ponto de vista que me interessa abordar. Não. Estou a falar de se terminar uma relação onde o amor ainda abunda. Mas onde, infelizmente, só o amor não chega. Pode chegar-se a um ponto onde o que magoa é mais pesado do que o bem que circula. Onde as lágrimas são mais do que os sorrisos e os sonhos. Pode haver um dia em que a balança se desequilibra para o lado do sofrimento. Estes devem ser momentos de grande serenidade. Não se devem tomar decisões em picos de tristeza. Embora seja deveras tentador. Parece que se resolve o problema pela raiz: mata-se o bicho e vai-se a peçonha. Mas não é verdade. Aquilo parece ser um alivio momentâneo, poderá pesar o resto da vida. Às vezes apetece partir a loiça toda e pronto! Mas a loiça partida dá muita trabalheira. Faz muitos cacos e nunca se concerta. Tem que se comprar tudo de novo.

Daí que se deva pensar bem sobre nós e sobre o nosso amor. Com serenidade, com sabedoria. As boas decisões só se tomam com paz no coração. Se não, os amores vão-se embora mas a suas sombras ficam connosco para sempre. Nunca partem. E isso assombra-nos durante muito tempo. Durante o tempo que demorar a maturar e a resolver o assunto. A assombração fica até sermos capazes de arrumar o passado. De o aceitar, de o integrar, de retirar as devidas aprendizagens e de se agradecer pelo efeito. Sim, agradecer. Agradecer ao Céu pela experiência de vida. Pela oportunidade de aprendizagem. Pela evolução que causou na nossa alma. Pelos macaquinhos que nos retirou do sotão. Quando somos capazes de fazer isto, conseguimos pacificar o coração e tomar uma boa decisão. Se arrancamos o amor do peito e da pele ou se o deixamos fechadinho numa gaveta especial para o efeito. Ou se ainda não se está preparado para deixar ir. Podemos querer abrir mais janelas e dar mais de nós a conhecer, sem nada a temer nem a perder. Numa atitude de entrega total sem nunca deixarmos de ser nós próprios e sabendo que pode ir ou rachar. E, se rachar, ficamos com a consciência tranquila que fizemos o nosso melhor. Fizemos o que estava ao nosso alcance. E isso também é pacificador. Tão sábio é quem luta pelo que ama como quem o deixa ir. A sabedoria pode ter, de facto, respostas opostas para situações similares. É a beleza da coisa.

Por vezes a nossa cabeça parece um grande ponto de interrogação. Não sabemos o que havemos de fazer. Sentimo-nos num beco sem saída. Não sabemos se havemos de andar para a esquerda ou para a direita. Nestas alturas, a prioridade é serenar. Pacificar. As dúvidas são tão maçadoras como as melgas. E as dúvidas não deixam ouvir o coração. São produto da nossa racionalidade, da nossa cabeça. As dúvidas não têm coração. E o amor tem tudo a ver com o coração. Daí que valha a pena serenar a cabeça e deixar o coração invadir os nossos sentidos. Apesar da dor, vale a pena esperar para que o coração nos dê a resposta. Vale a pena deixar que este nos aponte o caminho. Relembro que o nosso coração é muito mais inteligente do que a nossa cabeça. Porque no nosso coração é onde mora a nossa essência, onde mora Deus. O caneco é que isto é muito difícil de se fazer. Implica muita maturidade, muita serenidade, muita fé, daquela da boa, à prova de bala. Implica não ter medo. Implica desapegar que é outro berbicacho difícil de descascar. Parece que tudo o que importa é difícil. Parece que sim. Até diz que as dores de crescimento são difíceis. Basta serem dores para serem difíceis de aguentar. E parece que o crescimento e que a evolução são sempre acompanhados de sofrimento. Também parece que não existe amor sem sofrimento. Aqui está uma coisa bem chata de se encarar. Amas e sofres ou não amas. Eu escolho amar. Na verdade também é bem fácil sofrer-se sem se amar. Assim como assim, já que o sofrimento faz parte da vida e do crescimento, que seja por amor. Não há causa mais nobre nem mais bonita. Disto tenho a certeza. Não tenho é a certeza se consigo tomar as decisões certas no momento certo. Não sei qual é o meu melhor para poder fazer em conformidade. É muito mais o que eu não sei do que o que sei. Mas sei que me esforço e que tento. E que me levanto todos os dias sabendo que vou continuar a lutar. Por vezes é esta a sensação que tenho quando acordo. Mais um dia para lutar, para fazer o meu melhor, para arrancar a nata que a vida tem para dar. Mas por vezes tenho medo de não conseguir fazer o meu melhor. Ou de não ser capaz de lutar mais. Tenho medo de desistir em vez de decidir com sabedoria. Tenho medo que o cansaço se levante comigo. Tenho medo que o meu melhor não seja suficiente para o que é necessário. Tenho medo que o meu amor não seja fluido o suficiente para que, tal como a água, possa encontrar sempre um caminho. Às vezes tenho medo de acordar e de não se capaz de seguir em frente. A minha sorte é que tenho um coração de leão, um dom que Deus me deu, e que me faz sacudir os medos e colocar os pés fora da cama com a convicção que o pior já passou e que o melhor está para vir. Antes de tudo, Deus deu-me esperança e coragem. Isto eu sei. E quando tudo parece sem nexo, sem propósito, a esperança devolve-me o sentido da vida e a coragem empurra-me para frente. Espicaça-me a alma. Ambas devolvem-me a energia e o entusiasmo que me caracterizam. É a minha sorte. Sorte, não. A sorte não existe, o que existe é a Graça de Deus. E essa, sinto-a todos os dias. Salva-me de mim própria.

Comentários