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Antíteses e negócios

Recebi uma reclamação por andar a escrever pouco. Uma das minhas queridas amigas, leitora fiel das minhas escrevinhices, disse-me que estava com saudades de ler as minhas coisas. E tem razão. Ultimamente tenho escrito pouco. E isto porque só me apetece escrever mais do mesmo: saudades, saudades, saudades. Também deve ser aborrecido, para quem lê, andar a ler a mesma coisa, uma vez e outra. Até a mim me enjoa escrever sempre sobre o mesmo tema. O problema é que só me apetece despejar estes assuntos. Se isto fosse um fadinho, diria que já tenho saudades de saudades não ter! Já tenho saudades de escrever sobre alegrias e coisas muito bonitas. Daquelas que também fazem parte da minha essência. Mas esta fase tem sido assim um bocadinho difícil de descascar. Ando aqui numa luta comigo própria para não me deixar ir na melancolia, para não hibernar, enfiar-me no meu casulo e desistir do que tantas saudades me causa. É uma luta que se vai travando diariamente. E vou dizendo, não desisto hoje, amanhã logo se vê. É assim como quem deixa de fumar e diz para si próprio: “Hoje não fumo. Amanhã, logo se vê.”

E assim vou levando a minha vida, entre uma vontade férrea e a vontade de desistir. Como é interessante que ambas coexistem em mim, parecendo antagónicas. Mas eu sou cheia de contradições. De quentes e frios. Tenho tanto de obstinada como consigo largar num abrir e fechar de olhos. Depende das teclas. E ando a tentar temperar estas minhas características que são produto do meu pouco saber no que diz respeito à gestão do tempo. E esta gestão do tempo a que me refiro não tem a ver com a agenda pessoal e profissional ou até com o tal relógio biológico. Tem a ver com uma noção de tempo mais lata e universal. Tenho pouca paciência para esperar que o tempo faça os seus milagres. Custa-me a aceitar, sem espinhas e sem dor, que existe um tempo necessário para tudo. Eu sei, tenho esta noção integrada, acredito piamente nisto mas ainda não consigo aceitar com um sorriso no rosto e a paz no coração. Por isso faço muita força e sou obstinada quando enfio alguma coisa no coração ou na cabeça. Parece mais fácil arrancarem-me a cabeça do que o que lá está enfiado dentro. Também quando alguém me entra no coração, mais vale arrancarem-me o coração. Será mais eficaz do que tentar arrancar a pessoa que lá conseguiu entrar. Este é o meu lado férreo. Enquanto eu acreditar que vale a pena, que é por ali, nada me demove. O meu outro lado, que não sei como lhe hei-de chamar, larga tudo num instante. Se entender que não vale a pena, que o esforço é vão, quando a esperança fica murcha, deixo ir sem espernear. Costumo dizer que sigo até ao limite. Quando o meu limite aparece, às vezes de forma inesperada ou inexplicável, deixo ir, largo. Tenho medo que este limite me apareça em forma de travadinha. Dá-me uma coisa má e desisto do que tenho que desistir. Sem apelo nem agravo. Tenho esta maneira esdrúxula de lidar com o tempo. Tenho pouca paciência para ele. Mas ando, francamente, a tentar melhorar este aspeto em mim. É uma das grandes aprendizagens da minha vida: aprender a lidar com o tempo que as coisas e as pessoas precisam. Cada um à sua maneira. Aprender a ter paciência. Ando mesmo a tentar. Para se chegar a determinado ponto, podem-se escolher tantos caminhos diferentes. Os mais longos e mais tortuosos, os mais difíceis, os mais lentos…os mais sofridos. Os caminhos existem para todas as escolhas. O sortido dos caminhos é como o sortido da farmácia: há remédios para todas as necessidades, feitios e gostos. Assim são os caminhos, depende do que se escolhe. E é mesmo assim. Não tem mal. O mal é de quem não é capaz de aceitar estas coisas com a naturalidade de quem sabe que a eternidade não tem tempo. Que Deus não nos coloca um prazo para evoluirmos enquanto almas. E que o que importa é chegar-se ao ponto onde se tem que chegar independentemente do caminho escolhido e independentemente do tempo que se demore. Eu sei estas coisas todas e estou plenamente convicta delas. Mas como alma bastante imperfeita que sou, ainda não consigo ter a serenidade necessária para encaixar tudo o que acredito no meu DNA. Mas garanto que me esforço. Estou numa dessas fases de esforço. E todos os dias peço a Deus que me ajude a ter a vontade férrea de permanecer em tudo o que é para o bem supremo da minha alma. E para não teimar, largando com toda a facilidade aquilo que me prejudica. Peço a Deus que me ajude a usar estas minhas características em meu benefício e em benefício dos outros. E Deus ajuda-me. Também todos os dias. Mesmo quando estou mais desanimada e sem saber o que fazer, Nosso Senhor sempre me ajuda. Basta que eu esteja atenta e que queira aceitar essa ajuda. Mas estes são outros vinte e cinco tostões, como se costuma dizer. É outra conversa.

A minha sorte é que é verão. E o verão anima-me muito. A luz, o calor e o sol, salvam-me a vida. Salvam-me o humor. Deixam-me também mais iluminada. É impossível não se achar que a vida é linda quando o clima está de feição. Quando a natureza atinge o seu esplendor, o seu pico. Quando o mar se acalma e vem rebolar aos nossos pés. Como é maravilhoso, o mar. Tudo aquilo que me aborrece ou que me faz sofrer fica muito mais pequenino diante do mar. É que os aborrecimentos têm um medo do mar que se pelam! Encolhem-se e ainda bem! Vou vê-lo cheia de minhocas na cabeça e venho de lá novinha em folha! (É que as minhocas que habitam na nossa cabeça também têm medo do mar. Fogem com os sete pés que não têm. As minhocas não têm pés. Mas rabeiam muito, mesmo assim.). Diante do mar, todos os meus problemas ficam microscópicos. Eu diminuo de tamanho, mas a minha alma fica muito maior e iluminada! E é isso que interessa. Aquela energia temperada a flor de sal dá-me o maior dos ânimos, a maior das alegrias. Uma alegria que eu não sei explicar com palavras. Que só eu compreendo. É como se eu tivesse um amor incondicional pelo mar. Um amor transbordante que emaranha por todas as minhas dimensões. Não sei dizer melhor. Só sei dizer que é assim. E tem sido um crescendo ao longo da minha vida. Não foi uma coisa que me bateu….foi sendo e foi crescendo devagarinho, sem eu dar por isso, até ao dia que me caiu a ficha. Até ao dia em que decidi que não sou capaz de viver sem o mar por perto. E tenho os seus sons entranhados nos meus ouvidos e os seus odores nas minhas narinas. Estas sensações são bocadinhos de mim própria. Cada um tem as suas excentricidades e eu tenho esta: uma relação inexplicável, extensa e profunda com o mar. Uma relação que me ajuda a lidar com todas as outras relações que estabeleço com as pessoas à minha volta. Tento transpor a calmaria para tudo o que me rodeia. A calmaria não faz parte da minha essência, é um bem escasso e precioso que tem que ser importado. O nosso interior também vai sendo construído por importações. Todos os bens que existem fora devem ser importados para engrandecer o nosso bem interior. E quando juntamos um bem a outro bem que já existe, vamos transformando a matéria-prima da qual somos feitos. E quando a nossa construção está bem sólida já podemos exportar o que conseguimos produzir. Não é possível exteriorizar o que não se possui. Não é possível exportar um bem que não nos pertence. Esta coisa do dar e do receber não é um negócio virtual daqueles que é tratado todo on-line. Esta troca de bens entre o nosso interior e o nosso exterior tem que ser bem tangível. Pois assim é que se fazem bons negócios daqueles em que todas as partes saem contentes e a ganhar. E se a vida parece ser um negócio, escolho o mar como meu mediador, como a minha plataforma logística de interação com o mundo. E melhor não sei dizer.

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