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Desabafos a sangue frio

Hoje estou num dia em que me apetece ouvir Country Music. E é o que estou a fazer. É um género de música simples, sem grandes elaborações, genuína e que vem diretamente dos corações. E nos dias em que estou apenas a tentar levar a coisa, tudo o que vem do coração ajuda-me a aguentar. A música é a minha grande companheira de todas as horas e de todos os estados de espírito. Hoje é daqueles dias em que não vivo, aguento. Esta expressão também vem de um maravilhosa música cantada pela Élis Regina, “Maria, Maria”. A letra desta canção fala da força de ser mulher. E é uma beleza. Deixa-me um bocadinho mais confortada e isso faz-me bem. Uma outra frase que retiro dessa letra é: “…a estranha mania de ter fé na vida”. Apesar de tudo o que nos faz vergar, continua-se com a estranha mania de se ter fé na vida. Mais do que ter fé na vida, tenho fé no Céu e sei que tudo tem uma razão de ser. Mas existem dias em que é mais difícil carregar o fardo. Em que parece que caminhamos contra o vento, sem sabermos exatamente para onde se deve ir. O que me safa é a confiança e a paixão que tenho pela vida. É o que me leva a sorrir apesar do meu sorriso estar carregadinho de tristeza. Por outro lado, quase ninguém sabe disso. Só sabem os que conseguem ler as palavras que os meus olhos refletem. E quem eu escolho para abrir o coração. Como tenho uma natureza alegre, resolutiva e cuidadora, não é habitual que percebam o meu estado de espírito. Normalmente sou eu que costumo perceber o estado dos outros e cuidar-lhes das feridas. É assim mesmo, é o outro lado da moeda de ser forte por natureza. Deus deu-me essa imensa graça de ser, por natureza, uma pessoa bastante forte. Já passei bocadinhos de vida muito difíceis e dolorosos. E, nos momentos em que a coisa aperta, lá estou eu com um sangue frio que não sei de onde vem. Mas vem. E resolve. Apesar de ser muito contemplativa e reflexiva também me movimento muito bem em situações de emergência daquelas viradas para a catástrofe. Não costumo perder a cabeça nem desatar a tremer. E perante as chatices das grossas também consigo ter a força suficiente para alavancar o mundo. Não sei explicar como nem porquê. Se calhar porque lidei muito tempo da minha vida com pessoas muito frágeis. Talvez tenha ajudado. Normalmente eu sou aquela a quem se liga quando se tem problemas ou quando é preciso resolver algum assunto. Quando é necessário encontrar-se uma solução. E eu não me importo. Cada um é como é e deve colocar ao serviço dos outros os seus talentos. Se Deus me deu estas graças é com certeza para eu poder ajudar quem delas precisa. Sobre isto não tenho dúvidas. Mas como tudo na vida, o lado B da coisa é um bocadinho aborrecido. Em primeiro lugar porque esfrangalho o corpo. Somatizo que me farto. Desato logo com as articulações a apitar. O meu corpo começa a dar sinais por todo o lado. É assim mesmo. Todas as emoções que não são trabalhadas ou que não podem ser escoadas de uma forma saudável, são canalizadas para a nossa fisicalidade e infiltram-se nas nossas fendas, nas nossas fragilidades físicas. Eu ando a fazer este processo de conhecer cada vez melhor as minhas e de as tentar trabalhar para evitar esta chiadeira que me dá no corpo. Mas nem sempre consigo. Por mais que se queira, nem tudo está na nossa mão. No meu caso, já quase nada do que me martiriza está na minha mão. Depende dos outros. E o meu trabalho é compreender, aceitar e desapegar. Imperfeita como sou, este tipo de evolução interior é tão difícil de fazer…é um processo muito solitário como são todos os processos de desenvolvimento pessoal e espiritual. E existem dias em que me apetecia que cuidassem de mim em vez de ser eu habitualmente a cuidar dos outros. E que me dissessem coisas bonitas em vez de ser habitualmente eu a dizer coisas bonitas aos outros. E que me mimassem em vez de ser eu mimar. E que me olhassem com olhos de ver em vez de ser eu a olhar com olhos de ver. Às vezes também me apetecia um bocadinho mais de reciprocidade. Esta coisa de levar o mundo para a frente tem o seu lado mais lunar. É que ninguém se lembra que também precisamos do mesmo que todas as outras pessoas precisam: mimo, cuidado e afeto daquele em bom. Nem que sejam lá muito de vez em quando. Mas de vez em quando já é bom para variar. Principalmente nestes dias mais lamacentos, mais pingões e mais enjoativos. Um mimos numa bandeja vinham mesmo a calhar! Os mimos dão um alento e um ânimo para a vida. É uma massagem no coração que, coitadinho, trabalha sem ninguém dar por isso. Discretamente. E ninguém é tão forte que não precise de mimo. O meu tipo de força é outro. É uma força resolutiva que ampara e que com lucidez coloca rapidamente as coisas na perspetiva que têm. Mas preciso e gosto das mesmas coisas que os outros gostam. De mimo. De afeto. De cuidado. De sorrisos. De olhos com vontade e gosto em ver. Mas não tenho jeito nenhum para pingar corações nem para pedir aquilo que me parece que só vale a pena se for oferecido de boa vontade. Como costumo dizer, nem à minha cadela eu gosto de pedir mimo. Na verdade, é a única que está sempre disponível para distribuir mimalhada sem ninguém lhe pedir. Por isso é tão maravilhosa. Tem o equilíbrio perfeito entre o dar e o receber. É tão feliz a receber festinhas como a dar lambidelas. A minha cadela é o ser vivo mais equilibrado que conheço neste contexto. Faz uma coisa linda: quando lhe coloco comida no prato, ela lambe-me a mão, como quem agradece! Que linda! Eu faço a minha obrigação, que é a de alimentar e ela agradece-me como se fosse uma coisa do outro mundo. Não deixa que uma coisa que é tão importante para ela, embora banal para mim, passe despercebida. Que maravilha! Se as pessoas fossem assim, era tudo muito mais bonito. Se por vezes a malta se descentrasse do seu umbigo e pensasse um bocadinho naquilo que faz os outros felizes, os afetos eram muito mais cheios de vida e profícuos. Por vezes bastam coisinhas muito simples e pequeninas para fazerem os outros felizes. No meu caso, que não preciso de coisas para ser feliz, as melhores dádivas são sempre em forma de palavras, de sorrisos e de mimos. Vá lá, uma florinha de vez em quando, também me sabe bem. Mas pode ser selvagem e colhida ali num cantinho qualquer. Não é a flor em si (que adoro) mas o que ela representa. E sempre que alguém perde um bocadinho da sua vida para me dar um bocadinho de alegria ou um bocadinho de felicidade, eu fico tão grata! A gratidão é um sentimento que me acompanha em todas as ocasiões. Graças a Deus que esqueço muito mais facilmente o que me faz mal do que o que me faz bem. Ou, melhor ainda, esqueço mais rapidamente quem me faz mal do que quem me faz bem. E ainda bem pois não gosto de gastar energia com o que não vale a pena. Nem a remoer no passado, nem nas alternativas, nem em “ses”. A vida é hoje e agora e daqui para a frente. Por isso é que o aqui e agora por vezes dói um bocadinho. E eu tenho uma mania que ainda não consegui contrariar (talvez porque me parece que existem coisas que não se pedem, só se recebem se nos forem oferecidas): enfio-me dentro do meu casulo e fecho tudo. Fico quieta no meu canto, a curtir a minha tristeza. Fico sossegadinha até me fartar. E não é por orgulho que fico quieta. O orgulho é uma coisa muito feia que estraga corações. É porque me parece que existem coisas que não se pedem. E que só consolam ou preenchem se nos forem oferecidas. Claro que se pode ir fazendo uns sinais de luzes até porque os outros não adivinham uma data de coisas que nós gostávamos que adivinhassem. E também ninguém tem culpa que eu seja atenta ao bem-estar dos outros e que repare no que se passe e que goste de distribuir mimo. Esta é uma grande verdade: ninguém tem culpa nenhuma da minha forma de ser. E um dos outros busílis da minha vida é o de aceitar verdadeiramente o outro, tal e qual como ele é e ficar feliz com isso. Aceitar até aceito mas talvez não no sentido pleno da palavra. Até porque não cobro nada a ninguém, não prendo e não peço. Deixo cada um andar na sua vida como quer. Agora a questão de ficar feliz com isso é que é mais difícil. Muitas vezes deixo estar e deixo ir, deixo o outro ser o que é mas entristeço. Ou zango-me. Nem que seja para dentro. Mas acontece. E isto não é aceitar plenamente. Falta-me aperfeiçoar esta coisa de ficar feliz com o pouco mais do que nada. Sendo o muito para o outro. O meu “pouco mais do que nada” pode ser o “muito” da outra pessoa. O mimo que de mim flui pode ser a coisa mais difícil que o outro tem para dar. É preciso destapar-se uma rolha que está tão apertada que não há saca-rolhas que desatarraxe a coisa. São estas diferenças nas relações humanas que as tornam tão belas e tão difíceis. Cada vez leio melhor as pessoas. Até as compreendo melhor no sentido de encontrar a causalidade das coisas. Mas não sei se a minha forma de me relacionar com elas vai melhorando. Não sei se sei lidar melhor ou pior do que antes. Na verdade, cada vez sinto uma distância maior entre mim e a esmagadora maioria de quem me rodeia. E quanto mais aumenta esta distância, mais esquisita me sinto. Embora cada vez seja mais verdadeira e honesta comigo própria. Ser-se genuíno com os outros tem um preço elevado. Ser-se honesto consigo próprio também tem um preço muito alto. São grandes esticões nos orçamentos da nossa alma e do nosso coração. Rebenta-se muito. E gasta-se muito mais do que aquilo que se recebe. Principalmente em afeto. Mas é a vida. Nós temos o total livre arbítrio para plantarmos o que entendemos. Mas a colheita é obrigatória. Receber as consequências das nossas escolhas é uma certeza tão grande como a morte. Disso temos a certeza apesar das voltinhas que a vida possa dar. Reflito muitas vezes sobre estas coisas das escolhas e das suas consequências e de se ser verdadeiro o mais que se conseguir. Eu gostava de o ser até às últimas consequências. Mas nem sei exatamente o que isso quer dizer. E não sei se aguento toda a solidão mundana que a verdade plena acarreta. E, no fim de contas, ainda se anda por cá a viver, integrados no mundo, cada um com as suas circunstâncias. Cada um com os seus lados A e lados B. Uns mais adormecidos e anestesiados e outros mais vivaços. Ou a curar as feridas e as maleitas a sangue frio. Ou quase a sangue frio. Eu que parti a cabeça quando era pequenina e levei uns pontos na testa sem anestesia fiquei assustada com tudo o que seja a sangue frio. Mas, na verdade, a maior parte das partidelas do meu coração têm sido choradas a sangue frio, tratadas a sangue frio e cicatrizadas a sangue frio. Quando eu parti a cabeça em pequena, deve ter sido a vida a dizer-me que as anestesias comigo não iriam pegar lá muito bem. Foi o chamado tratamento de choque. E sangue frio é uma das minhas características mais marcantes naquelas alturas em que o mundo vai acabar. E a sangue frio tenho cuidado das minha feridas. Parece que aquela lei universal que diz que chamamos a nós tudo o que nos assusta, neste caso bate certinho como um relógio. Tive medo do chamado sangue frio aos 5 anos de idade pela cosedura que me fizeram na testa. E a vida passou os outros quase quarenta anos a ensinar-me a lidar com ele. Para lhe perder o medo. E tem-me dado tudo o que me faz mossa, o que me entristece, o que me dói no coração. Tem-me dado o meu reflexo e o meu inverso. Tudo isto para que eu saiba enfrentar os meus medos. Para que eles não valham absolutamente nada. Para que eu fique ainda mais forte, mais genuína e mais verdadeira. O Céu tem esta tendência de ser muito generoso e de nos dar mais e mais daquilo que já conseguimos alcançar enquanto alma, enquanto pessoa. Quanto mais fortes somos, mais força o Céu nos dá. Quanto mais amor temos no peito, mais o Céu nos dá. “Quanto mais tiverem, mais vos será dado”. Claro que não são bens materiais. Claro que não são coisas. Na linguagem do Céu, falamos de talentos, de dádivas do coração. Isto é muito bonito embora difícil de gerir. Às vezes tenho dificuldade na gestão da integralidade da minha vida nas suas diferentes dimensões: pessoal, social, espiritual, no emprego, no amor, nas amizades, etc. Conjugar os meus mundos todos, é muito desafiante. Há dias em que é verdadeiramente entusiasmante. Noutros, como é o caso de hoje, é um desafio um bocadinho pesado. E, apetece-me mesmo é ir para os braços de alguém, descansar um bocadinho de forma embrulhadinha. Aninhada. Um ninho tem um ar muito acolhedor.

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