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Impulsos

Por vezes os dias não são tão bonitos como gostaríamos. De vez em quando deixamos que aquilo que nos causa tristeza leve a melhor. Estas balanças internas onde pesamos o lado solar e o lado lunar das coisas são um bocadinho traiçoeiras. Como sou movida a otimismo, esperança e paixão, tento sempre que o prato solar da balança conduza o meu estado emocional. Mas nem sempre consigo. Umas vezes é um bocadinho mais difícil do que o habitual. Hoje é um desses dias choramingões onde me apetece entristecer só porque ainda não consegui destilar as gotas de lua que me invadiram o coração. 

Às vezes necessitamos de ajuda para fazer a destilagem daquilo que nos entristece. Mas nem sempre essa ajuda está disponível. Coincidentemente ou não, quem nos pode ajudar a transformar as gotas de lua em gotas de sol, está também num processo similar e não consegue estar no comprimento de onda que lhe permita ver para além das suas próprias tristezas, que já são muitas. E não há nada a fazer. 

Tenho muito pouco jeito para fugir do que me entristece ou do que me causa problemas. A experiência diz-me que fugir da coisa apenas lhe dá mais força. A tristeza torna-se maior e o problema cresce. É um ciclo vicioso. Como sou uma pessoa demasiadamente resolutiva, tenho que acalmar a minha vontade de tratar tristezas e resolver problemas, assim na hora, imediatamente. Se fugir dos problemas é meio caminho andado para eles ficarem maiores, correr para os resolver, no calor da onda, também pode ser má ideia. Mais uma vez, nem o 8 nem o 80. O equilíbrio impõe-se, nem se deve fugir nem resolver impulsivamente nada. Na verdade, no momento, não tenho nada pra resolver. Apenas para tratar. Tratar da tristeza, da melancolia e da choraminguice do coração.

Como passo a vida a dizer, estas gotas lunares que inundam o nosso sentir apenas se tratam deixando doer. Doer até passar. O que me aborrece é que ficam sempre cicatrizes daquelas que nos travam aqui ou ali. Daquelas cicatrizes que se transformam em semáforos no fluir do que sai do coração. Para quem tem inundações permanentes, passar a vida a travar a força das águas à custa de cicatrizes, é uma canseira. Gasta-se muita energia. E o stock da paciência também é molestado. Como não sou muito paciente, este é um stock que preciso ter bem equilibrado para que nunca esgote. 

Se por vezes pudesse atuar exclusivamente de acordo com a minha vontade momentânea, utilizando apenas o instinto e o mau feitio, mandava tudo pela janela e desistia. Desistia de tudo o que apesar de ser maravilhoso me entristece vezes sem conta. Desistia de tudo o que me faz rachadelas no coração. Desistia do lado lunar da balança. 

A sorte é que o meu amor é sempre mais forte do que o meu impulso. Que acredito sempre mais nos outros do que eles acreditam em si próprios. E a tristeza aborrece-me e encurta-me as vistas, tal como faz aos outros. Se estou centrada na minha tristeza e na minha dor, não consigo colocar-me no lugar do outro e perceber a sua própria tristeza. A minha forma de lidar com a dor pode ter efeitos colaterais no coração dos outros. Por isto tudo não gosto de estar neste estado nebuloso em que a lua é que me ilumina. Tenho sempre medo de mim própria quando estou triste. Tenho medo de tomar decisões daquelas drásticas que, supostamente, resolvem os males pela raiz. Começo a ter um formigueiro nos dedos para arrancar da pele a emoção que cobre. Tenho sempre medo de mim própria. Particularmente do que sou capaz de fazer. O que não sou capaz não me assusta. Nunca me assustou. Agora do que sou capaz de fazer tocada a ferro…

Tenho que respirar fundo, ir até ao mar (que me entende sem que eu diga uma palavra), e deixar que o seu embalo me acalme a têmpera. Porque tenho sempre medo de ser injusta nos juízos que faço. Mas quando não entendo o porquê das coisas, os juízos acontecem sem balizas, sem filtros e podem dar asneira. E às vezes, para variar, apetece escolher um caminho mais fácil, com flores e musica nos ouvidos. A chatice é quando o caminho fácil está mesmo ao alcance da nossa mão. É só querer. É só tomar o rumo. Ainda é mais tentador. Se eu me movesse a racionalidades, tinha a minha bússola tão orientadinha, tão certinha que era um mimo! Nem era preciso apontar, era só deixar o caminho levar-me…

Mas como sou movida a coração, nunca sei para onde este me leva nem qual é a música que vai tocar. E de vez em quando sangra que nem um desgraçado. É a vidinha para mim. Às vezes não sei o que fazer a isto tudo...

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