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Gotinhas de felicidade

Hoje gostaria de escrever sobre felicidade. Um tema tão debatido. Parece que todos corremos atrás dela. Colocamos uma enorme quantidade de "se(s)" na nossa vida em perseguição da felicidade. "Se eu tivesse...então seria feliz", "se eu fosse...então seria feliz", "se acontecesse...então sentia-me feliz". Colocamos a felicidade de uma forma tão condicional na nossa vida. Sempre condicionada pelo que está fora de nós. Por aquilo que nos é externo. Por aquilo que depende de outros, da sorte, da própria vida. Dinheiro, poder, beleza, ser amado, um bom emprego, prestígio, reconhecimento, um carro, uma família perfeita e um conjunto de outras coisas que de momento não me consigo lembrar. Para cada um de nós, a felicidade é um mundo próprio. É um conceito lato, subjetivo e indefinível. E corremos atrás dela. Corremos, corremos, corremos. Às vezes nem sabemos porquê nem para onde. Mas continuamos a correr. Se os outros correm, porque não corremos nós também? Estamos numa época cheia de pressa, cheia de evolução, cheia de transformações no quotidiano que conhecemos. Por vezes, sentimos que nem conseguimos acompanhar tantas transformações, tantas alterações, tantas novidades e tantas seduções que nos prometem umas gotinhas de felicidade.

Mas as gotinhas de felicidade encontram-se na nossa alma. É verdade. Proponho que se quebrem as formas normais de pensamento, embaladas pela rapidez das coisas e pelos valores que atravessam a maior parte das pessoas que conhecemos. Vamos, de forma calma, meditada, refletida, embalada pela paz e pela serenidade, encontrar novas formas de olhar para os conceitos que tratamos como banais. Vamos pensar na felicidade de outra forma. Não como um fim em si mesmo mas como um processo. Qualquer coisa do género: a beleza não está na chegada mas sim no caminho que é percorrido. Na história, na vivência e nos rastos que vamos deixando. Sempre que olhamos para trás e dizemos "valeu a pena" este ou aquele bocadinho de vida, esta ou aquela situação, encontramos a felicidade. No caminho, na pegada, na marca pessoal. E este caminho é feito de muitas passadas, de virares de direção, de encontros nas esquinas, de abrigos construídos à pressa no meio de uma tempestade. Da força para andar mais um bocadinho. Das pedras que encontramos neste nosso caminho e que conseguimos contornar, desviar, levantar ou utilizar para construir, para nos elevarmos. Da alegria de irmos cada vez mais ao encontro. Ao encontro. Ao encontro de ...? 

Para esta questão proponho novamente uma outra forma de pensarmos a felicidade. Vamos, serenamente, deixar de pensar que a felicidade se encontra fora de nós. Vamos pensar que tudo o que verdadeiramente necessitamos para sermos felizes está dentro de nós próprios. No nosso coração, na nossa alma. E então encontramos a resposta para a questão de irmos ao encontro. Vamos ao encontro de nós próprios, do nosso âmago, da nossa essência. Este é um caminho um bocadinho difícil. Entrar dentro de nós próprios e ter a coragem de espreitar o que lá se passa, não se faz de ânimo leve. Primeiro deveremos limpar "a maquilhagem", "a tralha" que se encontra à superfície, num primeiro nível de auto-conhecimento. O socialmente correto, o familiarmente correto e até o pessoalmente correto. Tudo aquilo que fazemos, dizemos, mostramos para nos sentirmos adaptados e aceites pelos outros. Depois de limparmos estas características que são carimbadas, adotadas, aprendidas, não originais, poderemos aprofundar mais um nível de auto-conhecimento. Para ultrapassarmos esta primeira camada do nosso interior temos que ter em atenção alguns aspetos. Só se olha para dentro com paz. Com serenidade. Com alguma meditação. Cada um de nós deverá encontrar a forma de conseguir olhar para si próprio. E não é ao espelho. É com os olhos da alma. Isto também deverá feito sem auto-julgamento, sem auto-crítica, com muito amor por nós próprios. Com uma vontade verdadeira de descobrirmos mais uma maravilha da criação. Com o lado solar e o lado lunar, com os dois lados da moeda. No fundo, de acordo com tudo o que existe no universo. O verso e o reverso. Não ter medo do que se vai encontrar. Por exemplo, no meu caso, a escrita tem ajudado muito no processo de auto-conhecimento e no processo de partilha que me dá muita felicidade. Quando comecei estas lides de auto-conhecimento, o que me custou mais a aprender a fazer, foi a pacificar. A acalmar os pensamentos e as emoções. Costumo dizer que a minha cabeça nunca sossega. Está sempre a pensar, sem esforço. Para me livrar da minha "tralha" pessoal, foi preciso aprender a desligar um bocadinho a velocidade dos pensamentos, a pacificar a tempera, a encontrar paz interior para me poder ver e ouvir com outros olhos. Foi difícil. Ainda é. Penso que esta primeira camada do "ser interior" - não tenho melhor forma de a designar - será a mais difícil de ultrapassar. É a que dói mais. É a nossa camada protetora que luta com todas as suas forças para se manter intacta. É a camada que nos dá uma falsa segurança, um determinado sentimento de pertença e de aceitação. Mantém-nos mais ou menos integrados no meio e no contexto onde nos movemos. É uma crosta que ajuda a lidar com o sofrimento e com a cicatrização.

Para romper esta proteção, necessitamos de coragem. Coragem para desvendarmos o que conhecemos mal. O que nos fará, se calhar, sentirmo-nos como ET's. Verdes e com antenas. Únicos, diferentes dos outros. E esta tomada de consciência, podendo ser dolorosa, é também magnífica. Descobrimos características, gostos, emoções, sentimentos, virtudes e defeitos que ainda não tínhamos deixado emergir. Quando se contempla, com disponibilidade, o nosso interior, as surpresas aparecem. Quando somos capazes de nos despimos daquilo que aprendemos, do que somos capazes de fazer, do que possuímos, resta apenas o que somos em essência. Que maravilha a descoberta de sermos únicos e especiais! Que importa sermos ET's?! Que importa sermos diferentes? O que é que isso interessa e a quem? Apenas a nós próprios, numa primeira abordagem. Quando somos capazes de fazer estas descobertas, conseguimos aprofundar o nível de auto-conhecimento. Quanto maior este for, mais sabemos o que verdadeiramente nos faz feliz. E encontramos dentro de nós tudo o que precisamos para sermos felizes. São pequenas gotas que se vão juntando, e tal como no mar, cada uma contribui de forma inequívoca para uma imensidão de boas emoções, arrebatamentos e encantamentos, vivenciadas com muita paz que, teimosamente, chamamos de felicidade. E é verdade que devemos procurar ser felizes. A maior parte do tempo. Tanto quanto nos for possível. Nas coisas pequeninas, nas assim-assim e nas grandes. 

Não esquecer que ser feliz também dói. Dói ser corajoso. Dói ser caminhante. Dói crescer. Dói amadurecer. Dói amar e dói ser amado. É como a noite e o dia. Um não existe sem o outro. Não sabemos dar valor à luz se não conhecermos a escuridão. Mais um lugar-comum. Mas tão importante para toda esta conversa. Os opostos, as diferenças, a aceitação do menos bom, a capacidade de contemplar o simples, o diferente, o único. Até o que não entendemos. Tudo isto dentro de nós. E no dia em que formos capazes de rirmos de nós próprios em vez de chorarmos por nós, estamos, sem dúvida nenhuma, a saborear gotinhas de felicidade. Como sabemos, todas as gotinhas correm em direção ao mar. E se tivermos a coragem de sermos felizes? De fazermos as opções de vida que verdadeiramente nos fazem felizes?

Tanto mar, tanto mar!!!

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