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O milagre das palavras

Recentemente dei conta da quantidade de visualizações que este meu blog tem. Ainda não me tinha apercebido da dimensão. Fiquei um pouco apardalada com a questão. Pergunto a mim própria como é possível que tanta gente já tenha lido alguma coisa do que eu escrevi. Fiquei deveras admirada. Tudo isto começou como uma forma de dar vazão a um impulso que por vezes era - e continua a ser - mais forte do que eu. Começou por ser o meu cantinho terapêutico onde posso despejar as palavras que tenho no sistema. Todas as palavras que me saem dos pensamentos, que me saem do coração e da alma. Como nunca fui de diários nem de escrever só para mim, esta foi a forma que encontrei de transmitir, seja lá a quem for, as minhas energias. Nunca consegui escrever sem um objetivo, só porque sim. Desta forma, consegui abrir muito do que sou, do que sinto, do que penso, sem grandes filtros, sem juízos de valor, e conseguindo manter a pessoa por detrás da Magdala Gabriel em serenidade e harmonia. Esta experiência tem sido maravilhosa! 

Quando realizei que estava com um número considerável (pelo menos para mim) de leitores, deu-me um frio na barriga. E agora? Pensei eu. Isto traz assim uma responsabilidade com algum peso nos ombros. Até me deu medo, a mim, que Graças a Deus, não tenho medo de quase nada. E pensei também que costumo vir ao meu blog destilar tristezas, rasgões de alma e estraçalhanços de coração. Ou falar sistematicamente de saudades. Ou do que for, conforme me apetece. Conforme me sai da alma. Umas vezes até escrevo coisas perfeitamente patetas. Outras vezes estou em franca sangria espiritual. E, de repente, pensei como é que isto se faz, sentido esta responsabilidade e este susto de muitas pessoas lerem as minhas escrevenhices. Madre Teresa de Calcutá costumava dizer que quando alguém sair de perto de nós, deverá sair um pouco mais feliz. E é neste sentido que o tal susto aperta comigo. Receio que quando alguém sair de perto de algum dos meus textos, não saia mais feliz. Receio que saia pior do que quando entrou. E tenho andado a pensar neste assunto. E nem escrevi nada até que tudo isto fizesse sentido. Hoje, alguém que me importa muitissimo, disse-me o que eu precisava de ouvir para encontrar o sentido que de repente me tinha faltado. E disse-me que tantos leitores eram tantos pela espontaneidade dos textos. Tal como foram saindo. Sem pensar em mais nada. E percebi que é verdade. E assim é que vai continuar a ser. Com todo o agradecimento a quem partilha comigo tanta intimidade. 

Todos quantos lêem um dos meus textos, partilham comigo um bocadinho da minha alma, do que tenho de mais intimo. E, mais uma vez, só posso agradecer, sem deixar de me admirar. Sem deixar de pensar em como escrever me faz tão bem e tão feliz e que, do outro lado das palavras, alguém encontra interesse naquilo que para mim é tão libertador. De facto, a liberdade é mais contagiosa que a gripe da época! Ainda bem. Assim, mantenho viva e bem acesa a chama daquela esperança que pensa que o amor também é altamente contagioso. Que flui por entre as palavras como se de uma brisa discreta se tratasse. Assim como quem não quer a coisa, o amor vai passando por entre as sílabas, por entre os espaços e por entre os sinais de pontuação. No fundo, no princípio e no fim, é sempre o que me impulsiona a escrita. O amor. Da mesma forma que me impulsiona a vida. Não sei viver sem amor, de forma amena ou amorfa. Da mesma forma que sou incapaz de escrever se o coração não me arder no peito. Se o sangue não desatar a correr com o abecedário todo para a frente e para trás. Se o impulso não vier da goela para a ponta dos dedos. Nesta altura da minha vida, esta coisa da escrita é um segredo que guardo bem guardado. Poucas pessoas sabem quem é o rosto por detrás da Magdala Gabriel. Muito poucas. Apenas as mais importantes da minha vida, por uma razão ou por outra. Uma ou outra pessoa saberá por questões que estão ligadas ao meu desenvolvimento espiritual e a quem fez todo o sentido desvendar a coisa. Meia dúzia de pessoas no total. E estas opiniões interessam-me verdadeiramente. Mais pelo conteúdo do que pela forma. Interessa-me saber o sentido que se encontra no que escrevo. O impacto que poderá ter na alma dos outros. Apesar de este ser o meu jardim secreto, nunca consegui deixar de me preocupar com quem me lê. É verdade. Quem lê o que escrevo também me lê a alma. Daí que seja tão importante reservar-me. Penso que se entenderá a importância que a reserva tem nestes processos. Tenho a secreta esperança que as minhas palavras consigam trazer algum bem a quem as lê. Que consigam encaixar nesta ou naquela vivência. Mas procuro que seja com o rosto de cada um, com a alma de cada um, com a vivência de cada um. Sem enviesamentos. Sem um rosto prédefinido. Sem uma imagem à partida. Cada um poderá criar uma imagem da Magdala de acordo com o que lhe fizer sentido. Com o que tiver mais à mão. Da forma como quiser. E esta é a beleza das palavras. Cada pessoa pode construir um mundo só seu com as mesmas palavras que são entregues a toda a gente. Maravilhoso! Por isso gosto tanto de palavras. E respeito-as tanto! Penso até que as palavras são sagradas apesar de eu as derramar sem rei nem roque. Por vezes até sem grandes filtros. Pode até parecer que não lhes dou o devido valor. Mas dou. Dou-lhes tanto valor que as minhas melhores memórias são de palavras que me foram ditas. Aliás, as palavras já me salvaram enquanto pessoa. Na pior fase da minha vida, foram palavras vindas do coração de alguém que fizeram toda a diferença para que eu voltasse à vida com paixão de viver. E sou eternamente grata a quem as proferiu. A pessoa em causa nem teve a noção que me salvou. Daí em diante passei a amar as palavras tanto quanto amo o próprio amor. E sinto-lhes o peso da responsabilidade. Mas também lhes sinto a leveza da liberdade. E a força do amor. E não gosto de usar palavras em vão. Não gosto de gastar palavras só por gastar. Porque tem que ser. Porque tem que se entreter uma conversa. Cada vez mais, isso me faz mal. Cada vez mais dou valor ao poder que uma simples palavra pode ter na nossa vida. Pode mudar uma rota. Pode representar um virar de esquina. E nunca me esqueço que as palavras são o principal veículo para se expressar o que nos vai na alma. O que nos vai no coração. Só podem ser belas e preciosas. Por mim, mandava colocar ouvidos em todos os corações para que pudessem ouvir todas as palavras que eu tenho para dizer. Tantas palavras e tão poucos ouvidos...mas tenho sempre a esperança que a toque de caixa, os corações lá vão ouvindo e avermelhando os sentimentos. A toque de caixa e de tanto se insistir, a essência de cada um começa a tomar conta da sua existência. E os milagres acontecem. É verdade, as palavras também fazem milagres. Comigo aconteceu. Obrigada por acreditar. 


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