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Um bocadinho de madeira flutuante

Hoje sinto-me assim como um bocadinho de madeira a boiar no mar. A deixar-me ir para qualquer lado que a maré me leve. Flutuar no mar é uma das minhas sensações preferidas. E quando não sei bem para que lado encaminhar a vida, faço um chamamento dessa sensação. Penso sempre numa água quentinha e transparente, azulada ou esverdeada, conforme a vontade do oceano (que também tem as suas vontades e os seus caprichos). Penso que a cor do oceano depende das suas conversas com o sol e com o céu. Oferece um reflexo cheio de cor e de mensagens que só as forças da natureza compreendem entre si. O azul e o verde hão de querer dizer coisas diferentes. E as suas variações sobre o mesmo tom também hão de ter significados diversos. Mas isto são conversas que não nos dizem respeito. São os amores trocados entre o mar, o sol, o céu e o vento. É muito feio enfiarmos o nariz onde não somos chamados…por vezes sou muito nariguda nestas coisas…penso que estas forças da natureza têm uma identidade própria, uma energia própria e adoraria percebê-la. Só a consigo sentir…e para sentir, o nariz não me serve para nada. Tenho que usar o coração e a alma. 

Voltando ao bocadinho de madeira a flutuar - é que sou especialista em mudar de assunto quase sem dar por ela - hoje é assim que me sinto. Como confio no mar e nas marés, deixo-me ir sem receios, sem medos. Hoje parece que não está nada na minha mão. As coisas que são importantes estão a acontecer por si próprias. As pessoas que importam estão na sua vidinha. A luz de Lisboa continua linda e a vida vai seguindo o seu curso. Parece assim uma coisa sem jeito, não é? Mas não é. Para mim, deixar fluir é um adquirido. É uma aprendizagem. Sempre achei que tinha a minha vida nas mãos, se é para fazer, faz-se já e agora, fazer planos e projetos, etc., etc. Tudo ao contrário! Tudo ao contrário! 

Ando a aprender a dar tempo ao tempo. A deixar fluir. A deixar que a vida se apresente. A ter a paciência e a calma para saber e aceitar que o futuro não existe. Que não controlamos nada. Ando a aprender que tudo tem uma boa razão de ser. Mesmo quando eu não conheço essa razão ou, conhecendo-a, não a compreendo. Ando a tentar aprender isto tudo com paz e serenidade. Assim, um bocadinho de madeira a flutuar no oceano parece-me uma coisa muito atraente. Primeiro é-me fácil sentir o embalo das ondinhas, o conforto e a leveza que a água proporciona. Depois, quando se flutua, olha-se para o céu. Olha-se sem ter nada de especial para ver. Apenas se contempla. E contemplar é um dos exercícios preferidos da nossa alma. Contemplar o céu, a sua cor, a sua luz, as nuvens e as suas formas inesperadas, é um regalo. A nossa alma agradece. Naquele momento, estamos em perfeita comunhão com a criação e com o universo. Somos efetivamente parte integrante de um todo magnífico e inqualificável pela grandeza que encerra. Será um momento de infinita paz. Flutua-se com toda a confiança e com toda a entrega, contempla-se com todo o amor e com toda a admiração, o todo ao qual se pertence. E deixa-se fluir, com alegria e com a convicção de que vamos parar a qualquer sítio que está ali mesmo à nossa espera. Que está preparado para nos receber. Que será o melhor para nós e para a nossa alma. 

Um bocadinho de madeira a flutuar no oceano pode, de facto, ser uma lição de vida e de evolução espiritual. Este bocadinho de madeira não tem medo do amanhã, nem sabe que ele existe. Não se preocupa com a dimensão temporal das coisas. Não tenta controlar o seu ambiente – aprecia e agradece o facto de flutuar no mar. Não há melhor sítio para se flutuar. O bocadinho de madeira, que quase nada sabe, tem a certeza que o mar é o melhor local para se flutuar. E tem a melhor das vistas, o céu e o sol. E, de vez em quando, sente-se muito útil pois uma gaivota aqui ou um pelicano acolá, resolvem descansar na sua superfície. E estes passarocos, não o conhecendo, também nele confiam. Confiam que não se afunda, que não se vira e que lhes vai proporcionar o repouso de que tanto necessitam. Afinal, faz toda a diferença haver um bocadinho de madeira a flutuar no oceano…quem haveria de dizer?

Quando se flutua nas águas do mar, as noites nunca são escuras nem assustadoras. Olha-se para o céu e vê-se as estrelas a brilhar com toda a sua energia. Como são vaidosas, vêem o seu reflexo no mar e toca de brilharem com mais força para mostrarem que são mais brilhantes e majestosas que as estrelitas do lado. Os astros também têm os seus caprichos…e os astros-menina ainda refinam mais um bocadinho. São femininas. E estrela que se preze, quer ser a principal e roubar o protagonismo à Estrela do Norte (mesmo que na verdade esta seja um planeta). É assim mesmo. Para quem está a flutuar cá por baixo a assistir a isto tudo, as noites transformam-se em momentos muito animados e divertidos, ao contrário do que seria de pensar. A lua também é uma grande compincha no meio desta muda algazarra. A lua, já se sabe que tem fases. Tem dias. Também é uma menina. Também tanto se exibe, magnífica e esplendorosa, como se esconde, de amuo ou mau humor. É conforme corre o seu seu namoro com sol. Perceber a natureza das coisas é muito bonito! Assim, podemos deixá-las em paz quando é preciso e sabemos amá-las tal e qual como são. Os bocadinhos de madeira flutuantes também têm coração. É um coração diferente. Talvez todos nós devêssemos ter corações como o dos bocadinhos de madeira flutuantes. São uns corações que estão fora do seu próprio dono. Estando fora do peito podem ser do tamanho que quiserem. Podem até ser infinitos. E podem amar o que está do outro lado do mundo, nos píncaros do céu ou nas profundezas da água. Vale tudo. É também um coração flutuante que deixa fluir todo o amor que sente e todo o amor que lhe é dado a sentir. Não tem limites. Um coração sem limites deve ser uma coisa do outro do mundo! Pode distribuir-se por todo o lado. Pode ser como o ar que circunda o nosso planeta. Afinal, pode ser um coração atmosférico pela abrangência e estratosférico pela altitude. Como uma coisinha tão insignificante e dolente, um bocadinho de madeira flutuante, pode ser tão imenso e tão intenso. O segredo do tamanho e da importância das coisas está no tamanho da sua essência. Fernando Pessoa dizia que o homem é do tamanho do seu sonho. Eu diria que é do tamanho da sua essência. E quando uma essência sonha, só Deus pode contra.

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