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O meu medo e eu

Hoje apetece-me falar de medos, fragilidades, limites e outras coisas que nos parecem mal. E digo “parecem” propositadamente. Talvez apenas pareçam e não sejam “mal” na verdade. 

Muitas vezes falo sobre o encarar de frente as dores, as saudades e outras emoções que nos fazem sofrer. Não existe outra maneira de lidar com elas. É necessário virem à nossa presença. Não podem ficar algures na nossa mente, na nossa alma ou no nosso corpo, perdidas e sem tratamento. Tudo o que nos assusta ou dói tem que vir à nossa consciência. Tudo aquilo que nos torna mais pequenos, mais insignificantes, mais martirizados tem que ser colocado ao nível dos nossos olhos. Quando fingimos que nada nos dói ou que nada se passa, estamos a deixar que qualquer coisa que nos avilta se esconda e que cresça, paulatinamente, sem pressas, no nosso interior. O nosso mundo interior é quentinho e confortável e estas emoções perdidas adoram lá ficar e aninhar-se num canto onde ninguém as incomode. E vão-se alimentando da nossa negligência e das nossas fugas para a frente. Um dia, quando se acordar, quando se der por isso, temos um montão de monstros debaixo da cama. E não temos a consciência que fomos nós que lhes demos guarida e que lá os enfiamos. Enquanto estão debaixo da cama não estão dentro de nós. E, o que é preciso, é não se espreitar para debaixo da cama. Se não espreitarmos, eles, os monstros, não aparecem. Mas o medo continua. Sabemos que eles lá estão. Sabemos que existem e que têm poder sobre nós. E têm poder porque nós permitimos que eles tenham esse poder. Essa escolha é exclusivamente nossa, a escolha de tornar poderoso o que nos afeta. 

Tudo o que há na vida, interior ou exterior, tem que estar ao nível dos nossos olhos. Dos olhos todos – os de ver e os da alma. Não devemos olhar de alto para nada nem para ninguém. Por outro lado, não devemos olhar de baixo para cima, colocando-nos a nós numa posição inferior, pequenina. O segredo está no olhar de frente, ao mesmo nível. E isto já tem muito que se lhe diga! É meia resolução! Quando somos capazes de olhar para uma das nossas fragilidades de frente, estamos a ser capaz de a respeitar e de olharmos para ela com olhos de ver. Podemos conversar com ela. Fazer-lhe perguntas. Descobrir de onde vem. Porque vem. Como nasceu e que influência tem sobre nós. Se eu conseguir olhar de frente para o meu medo, estou a respeitá-lo. A compreendê-lo. A perceber que afinal não é maior do que eu. Estou a dar-lhe apenas a importância que ele tem e não outra qualquer, desfasada e mal dimensionada. Se eu olhar para o meu medo, posso descobrir-lhe os segredos. Posso despi-lo das plumas e lantejoulas que o fazem dar tanto nas (minhas) vistas. Posso torná-lo sério, honesto e como tal, fazê-lo uma parte de mim. Integrá-lo na minha vida, nas minhas vivências e nas minhas experiências. Posso dominá-lo, posso controlá-lo e não o inverso. O meu medo não dá conta de mim. Não me tolhe os passos, não me desvia o caminho. Sou eu que dou conta dele e que o aproveito para me conhecer melhor e para conseguir compreender as minhas escolhas e as consequências que daí advém. O medo também faz parte de mim porque não sou super em nada. Apenas sou. E ao ser, também sou fragilidades e receios. Mas, por outro lado, também tenho que ser amável para mim própria. Também tenho que me dar luxo de ter medo. De ser frágil, de ter receios, de ter limites. E de dizer para mim própria:

- “Não faz mal. Eu sou melhor e maior do que os meus medos. E às vezes preciso de colo. De mimo. De descansar.”

Tenho que me permitir integrar todas estas facetas menos glamorosas na minha entidade. Esta sou toda eu. E eu estou em contínua evolução e aperfeiçoamento. O caminho da alma, faz-se caminhando. E ao caminhar, vale pena olhar de frente para tudo, levantar a cabeça, os ombros e encarar a vida tal como se nos apresenta. Com mais ou menos medo mas sempre de frente, com a postura de quem está disponível e receptivo ao que vier. De peito aberto para vida, com a coragem de sentir medo. De se sentir pequenino. De se sentir indefeso. De se sentir um baguinho de arroz no meio do mundo. Também é preciso coragem para se sentir o que verdadeiramente se sente. Por vezes há a tentação de se fazer de conta que somos os maiores, os mais fortes, os melhores, os super heróis. Só para não se encarar de frente a nossa pequenez. Assim, é preciso ter coragem para verdadeiramente nos sentirmos. E para sermos capazes de nos aceitarmos e amarmos tal como somos. Para também termos compaixão por nós próprios. Exigência a mais connosco, também não é coisa boa. Nunca chegamos lá. Pode ser sempre melhor. E não somos capazes de sentir alegria por aquilo que somos. Só conseguimos pensar no que ainda não somos. Exigência a mais, não. 

Só atingimos a meta quando formos para o céu. Portanto, aqui nesta vida, a meta é o próprio caminho. É cada passo que damos em favor do bem supremo da nossa alma. É cada vez que conseguimos fazer crescer o amor. É cada sorriso, cada lágrima, cada queda, cada arranhão, cada rasgão. É cada fichinha que cai na nossa caixa da sabedoria. É cada gotinha de paz que conseguimos amealhar ou oferecer a alguém. É cada vez que fazemos a diferença. E é cada medo que conhecemos melhor e trazemos à consciência. E assim, o que pode parecer mau, afinal, são degraus na nossa evolução e fazem parte da escadinha que andamos a subir todos os dias. O mal e o bem, esta dicotomia, tem muito que se diga…talvez numa próxima conversa.

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