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Uma amigdalite e a sua subtileza

Estou doente. Uma valente amigdalite com tudo a que tenho direito. Não tenho jeito nenhum para estar doente. Não tenho paciência. Apetece-me ter pena de mim própria, enfiar-me no conforto dos lençóis, adormecer e voltar a acordar lá para agosto. Diretamente em férias, na praia, a tomar umas belas banhocas de sol e de mar. Essa sensação generalizada de desconforto desliga-me o sorriso e o bom humor. Apetece-me desligar tudo. Ficar em modo off, nem que seja por um dia. Cozinhar a doença e pronto! Praguejar um bocadinho. Não querer saber de coisa nenhuma por alguns momentos. Desligar as antenas.


Estar doente faz-me ter que lidar com a impotência. Com o que não depende de mim própria. Com tudo o que não está sob o meu controlo, sob a minha direção. Para quem está muito habituada a tomar conta a sua vidinha e a depender essencialmente de si própria, esta coisa de estar limitada fisicamente, é  maçadora. Faz emergir o meu lado mais lunar. Mais sombrio. Sim, também tenho um lado sombrio. Também tenho um lado mais explosivo. Mas esse, hoje, não é para aqui chamado. A lua influencia mais o meu estado de espírito quando estou doente. Não muito brilhante. Não muito luminoso nem iluminador. Estou assim em versão minguante, quase lua nova. Se não fosse uma senhora, apetecia-me dizer uns palavrões em bom português. Parece que aliviam. E hoje, apesar da lua ser inspiradora, não estou muito inspirada. Estou murcha e irrequieta. E por cima disto, até estou com pouca paciência para  mim própria. Apetece-me rosnar. Não gosto de mim assim. É contra natura. Se calhar é um bocadinho menos contra natura do que eu gostava que fosse...o meu lado lunar também é intenso. E quando estou para rosnar, estou para rosnar.

A minha sorte  é que existe sempre qualquer coisa que é mais forte do que eu e do que o meu lado lunar. Talvez o lado solar seja mais forte. Pelo menos é o que eu tento alimentar para que seja mais forte.

Isto faz-me lembrar uma maravilhosa história de um diálogo entre um avô e um neto, ambos índios nativos americanos. O avô explicava ao neto que cada homem tinha no coração um lobo bom e um lobo mau que lutavam constantemente. O neto perguntou ao avô sobre qual dos lobos vencia a luta. O avô, sabiamente (porque todos os avós índios são sábios), respondeu-lhe: "Vai vencer o lobo que tu alimentares".

Bonito, não é? Esta história é inspiradora. Lembra-me que tenho o lado lunar e o lado solar e que tenho que escolher qual devo alimentar. Ou pelo menos, alimentar melhor. Para que seja mais saudável e para que vença a luta interna. E, apesar de estar com aquele estado de espírito deplorável, não consigo deixar de pensar que, em simultâneo, sou a maior tola que Deus ao mundo deitou! O sol cá dentro do peito desata a dar-me uns raspanetes que me põe logo os pensamentos no sítio. É que eu posso dar-me ao luxo de ficar impertinente. De ficar com pena de mim própria, irritada e comichosa por estar com uma amigdalite. Posso dar-me ao luxo de ficar mal disposta e enfiada na minha cama. Pois é, tenho cama. Há muita gente que não tem. Há muita gente que não tem destes caprichos de ter amigdalites. Não as pode tratar. Ou tem coisas muito piores que não são tratáveis. E que dariam tudo para ter uma simples amigdalite! É verdade, voltamos sempre às questões da relativização das situações. Lembro-me também de pessoas que, muito limitadas fisicamente, são sempre fontes de inspiração, têm sempre um sorriso no rosto e um bom humor à prova de bala! Quando penso nessas pessoas, sinto-me sempre muito insignificante. E triste comigo própria por não ser capaz de fazer um bocadinho melhor com os diferentes estados em que me vou encontrando. A sabedoria é, decididamente, um processo. E dos difíceis.

Também me ocorrem outras reflexões em função deste estado de murchice. No  avesso destas pequenas situações, menos agradáveis, escondem-se algumas subtilezas que nos moldam o carácter e a alma. Procuro a paz e alegria todos os dias. Luto por isso. Mas ainda procuro, com mais força, a sabedoria. E assim, mesmo sendo uma pessoa pouco subtil, sensível mas pouco subtil, procuro captar as mensagens, as subtilezas onde elas existem. As para-linguagens. O significado e o significante das coisas. As pequenas, por vezes microscópicas, gotas de sabedoria que se podem encontrar por aqui e por ali. Esta é uma das partes mais interessantes da vida - procurar o que está para além a evidência. Procurar a essência em detrimento da casca, do papel de embrulho com fita, laçarote e tudo. 

Isto tudo por causa de uma amigdalite maçadora! Mas esta aborrecida maleita também tem as suas subtilezas. Por vezes é pedagógico experenciarmos a impotência. Lembra-nos que não somos omnipotentes. Que não controlamos nada. Que não somos donos de coisa nenhuma, nem de nós próprios. Temos o usufruto das coisas e até do corpo a que chamamos de nosso. Treina-nos a humildade. Lembra-nos que também precisamos dos outros. Que sozinhos valemos pouca coisa. Podemos pouca coisa. Lembra-nos ainda que devemos estimar o corpo e a saúde que Deus nos dá. Que também estes podem ser muito efémeros e que, de um momento para o outro tudo pode mudar. Penso ainda que num segundo de vida tudo pode mudar. Até a própria vida! 

Penso em tudo que não depende de mim e posso treinar a aceitação, o desapego. Penso em todas a graças que me foram concedidas. E todos os talentos que me foram dados. Penso na vida e nas suas maravilhas. Penso na Mãe do Céu. Sempre penso na Mãe do Céu quando a vida me está um bocadinho amarga. E lembro-me de como ela foi doce contra tudo e contra todos. Penso sempre na Mãe do Céu quando a vida me é doce. E isso faz-me também agradecer a doçura que ela inspira e que distribui. Quando nós pedimos. Quando procuramos ser doces. A doçura será talvez uma serenidade carregada de mimo, de ternura, de sabedoria. De aceitação. De entendimento do outro. Haverá característica mais bonita numa pessoa do que ser doce? Não sei. Há tantas coisas que gosto nas pessoas que ainda não decidi quais são as minhas preferidas.

Já decidi, no entanto, que não gosto nada desta amigdalite! É amarga que se farta. Mas, olhando bem, com os olhos da alma e com a lupa da subtileza, encontramos alguns ensinamentos que nos tornam a alma mais doce. E o nosso lado solar alimenta-se, preferencialmente, de doçura. Tem dias. Por vezes prefere a sabedoria. Ou até a paciência. Também, sendo sol, tem direito a ser temperamental.

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