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Mensagens

Desistir da dor

Desistir. E se desistir for o contrário de existir? Quando dói demais da conta, apetece desistir. Apetece que a dor desapareça. Qualquer coisa que se prefixe com "des", parece uma boa alternativa para a fazer evaporar. A dor é a sensação mais teimosa que existe no nosso coração. Teimosa! Insiste! Até à exaustão! Até ao suplício! E quanto mais educados formos, mais ela se ri na nossa cara. Irónica, satírica e insuportável de arrogante!  Se pedimos delicadamente que saia, bate o pé e, caprichosa, deixa-se ficar. Se lhe damos uma ordem, ela, só de má e porque sim, faz exatamente o contrário e instala-se de armas e bagagens! Não vejo alternativa senão desistir. Deixá-la doer até se cansar. Fazer do meu coração a sua casa, a sua morada enquanto lhe aprouver. Enquanto lhe der na real gana. E a dor é, de facto, realeza. Não acata ordens de ninguém e é ela que comanda as tropas. Mais austera ou mais branda, mais ditadora ou mais democrata - depende como ac...

A tristeza e o Natal

Hoje, recorrentemente, tenho-me lembrado de um pequeno mas maravilhoso poema de Natal de Ary dos Santos, que diz assim: "Quem faz das tristezas forças e das forças alegrias,  constrói à força de amor,  um Natal todos os dias". Lembro-me muitas vezes deste poema. Em primeiro lugar porque tudo o que é bom deveria ser repetido todos os dias. Ou pelos menos, tantas as vezes quantas as possíveis. E, sendo um lugar-comum, o Natal deveria de facto acontecer todos os dias. Seriamos muito mais felizes e faríamos os outros mais felizes. Mas esta não é a razão emocional que me leva a recordar, hoje, de forma quase obsessiva este poema. Invade-me e martela-me o pensamento assim como um carrilhão de sinos. Um sino para cada frase. O mais agudo será talvez o de fazer das tristezas forças. Há dias, momentos, fases, épocas na nossa vida em que, no que diz respeito à tristeza, não há nada a fazer senão senti-la. Aceitar que entrou no nosso coração e que vai permane...

A poesia do milagre

Gostava de saber escrever poesia. Daquela que emociona, que serve de reflexo ou ainda daquela que de tão simples, sabe falar das coisas mais complexas e difíceis. A poesia sempre vem da alma. Se não vier, é apenas uma rima, uma lengalenga ou um jogo de palavras. Também está bem. Também é bonito. Mas, tudo o que é intenso ultrapassa o bonito. O morno. O cizentinho. O azul bebé.  A poesia é intensa. Entra no nosso coração e pronto. Não precisa de análises gramaticais nem de outra espécie. Por vezes nem a entendemos mas mexe connosco. Provoca, incomoda, emociona, apazigua ou faz nascer ainda outra emoção qualquer. Pode até provocar emoções daquelas que não sabem o caminho. Nem nós sabemos onde as arrumar. Fica assim a chamada bagunça emocional. Sem tirar nem pôr. Este tipo de bagunça obriga-nos a refletir. A meditar. Quem for curioso relativamente a si próprio poderá sempre descobrir o porquê das coisas que o emocionam. E isso é muito, muito bom. Conhecer-se a si próprio. O ...

Uma amigdalite e a sua subtileza

Estou doente. Uma valente amigdalite com tudo a que tenho direito. Não tenho jeito nenhum para estar doente. Não tenho paciência. Apetece-me ter pena de mim própria, enfiar-me no conforto dos lençóis, adormecer e voltar a acordar lá para agosto. Diretamente em férias, na praia, a tomar umas belas banhocas de sol e de mar. Essa sensação generalizada de desconforto desliga-me o sorriso e o bom humor. Apetece-me desligar tudo. Ficar em modo off, nem que seja por um dia. Cozinhar a doença e pronto! Praguejar um bocadinho. Não querer saber de coisa nenhuma por alguns momentos. Desligar as antenas. Estar doente faz-me ter que lidar com a impotência. Com o que não depende de mim própria. Com tudo o que não está sob o meu controlo, sob a minha direção. Para quem está muito habituada a tomar conta a sua vidinha e a depender essencialmente de si própria, esta coisa de estar limitada fisicamente, é  maçadora. Faz emergir o meu lado mais lunar. Mais sombrio....

Saudades

Uma das maravilhas que se encontra no código genético dos portugueses são as saudades. Ao andarmos pelo mundo, levámos esta palavra e este sentimento connosco. Espalhou-se pelos 4 cantos do planeta. Saudades. Esta palavra não existe em quase nenhuma língua para além da nossa. Mas o sentimento, esse, impregnou-se por esse mundo fora. Principalmente onde existem portugueses. E haverá algum país no mundo onde não existam portugueses? Pouco entendo destes assuntos geográficos, demográficos e de fluxos de migração. Não é definitivamente a minha especialidade. Agora de saudades, garanto que percebo!  É apenas uma palavra que em si mesma encerra tantos mistérios e tantas intensidades. Define a essência do melhor que cada um de nós guarda. A saudade, guarda em si própria a dualidade da nossa existência. O verso e o reverso. O côncavo e o convexo. Ou seja, as antíteses e as complementaridades de cada um de nós. As duas metades de uma mesma realidade. Saudade é sinónim...

Relatividade

E se uma gota fosse um mundo? E se um mundo fosse uma gota?  Assim são as pessoas. Pequeninas como gotas e imensas como mundos! Tudo depende do ponto de vista. Da forma como nos posicionamos. Do ponto de onde estamos a olhar. É a tal história de tudo ser relativo. A relatividade não é apenas uma teoria da física. É talvez um dos maiores pilares da sabedoria. Tudo depende dos olhos com que olhamos para as coisas, para as pessoas e para as situações. Faz-nos sair das nossas "verdades" tão absolutas e tão infalíveis! A relatividade é um lembretes que deveremos ter sempre à mão quando nos atrevemos a fazer juízos de valor, a resolver os problemas dos outros, do país e do mundo. Normalmente à mesa de jantar conseguimos fazer isto tudo! Esquecemo-nos de relativizar as coisas. Num mesmo ponto, cruzam-se uma infinidade de linha retas. Para uma mesma situação podem existir tantos olhares e tantas formas de interpretar. Nunca esquecer que quando estamos a ajuizar a vida dos outros...

Abelhinhas

E se uma abelhinha deixasse de ser abelha, apenas por um dia, e passasse a ser uma abelhuda? Em vez de saber exatamente o que fazer na colmeia, fazia exatamente o possível para saber o que lá se passava. Em vez de servir a colmeia e fazer parte importante de um todo equilibrado, servia-se da colmeia e tirava a sua parte, desequilibrando o todo. Em vez de cuidar do bem comum, cuidava de saber bem o que de fora do comum havia. Em vez de cuidar e proteger a sua rainha, espreitava e fazia figas para que algum zangão se zangasse com ela. Que afinal nem é sua, a rainha, é desta colmeia cheia de abelhas vulgares, estúpidas e nada visionárias. Fazem sempre a mesma coisa! Até as fardas são iguais, sempre às riscas. Que inferno! Que enfado! Se uma abelha não é abelha, então uma abelhuda não é um inseto mas é uma pedra no sapato. Que não anda nem deixa andar. Mói. Pica. Enfia o nariz em qualquer flor, sem pedir licença, sem delicadeza, sem preceito nem pudor. Se uma ...