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O paradoxo do Natal

Que bom voltar a escrever! Tenho andado um pouco arredia. A controlar as emoções de outra forma. São fases, estados de alma. E se me parece que não tenho nada para acrescentar à minha alma ou à dos outros, prefiro não escrever. Se o desabafo não é boa escrita, dou conta dele de outra forma. E assim tem sido. Mas agora tenho muitos paradoxos na cabeça e apetece-me tentar alinhar as ideias desta forma, escrevendo. Esta época festiva é sempre uma época paradoxal. Já nem sei o que deva pensar sobre o assunto. Talvez seja melhor procurar sentir e deixar a cabeça um pouco de lado. 

É paradoxal o facto de termos que ser e que fazer uma data de coisas por decreto. Temos que ser bons, amigos da família, solidários, serenos, amenos, amigos, fraternos, inclusivos, tolerantes e mais uma enormidade de qualidades possíveis e desejáveis no ser humano. Festeja-se a família, a paz, a harmonia. Aborrecem-me as coisas por decreto e numa época específica do calendário. E o resto ano??? Podemos pintar a manta? Rodar a baiana? Ser egocêntricos e outras pérolas? Questiono esta coisa dos decretos e dos dias especiais para se fazer qualquer coisa boa. Por outro lado - e aqui é que se encontra o nó na minha cabeça - é que se não houvessem dias decretados, talvez as coisas que se fazem nesta época, nunca se fizessem. Nunca haveria a disponibilidade para o efeito. Assim, pelo menos uma vez no ano, andamos a pensar nos outros e em coisas bonitas. Pensamos em comunidade. Exponenciamos a bondade. E isso é muito bonito. Por isso é que eu não sei se gosto ou não desta época. Adoro oferecer presentes. Daqueles talhados à medida de cada um, com todo o mimo e todo o cuidado. Mas ter que dar presentes porque sim, também me aborrece. Por outro lado penso que haverá pessoas que só recebem um presentinho, mesmo que mal amanhado, nesta época do ano. Mais uma vez o paradoxo. Nesta época multiplicam-se as ações de solidariedade pelos mais necessitados, pelos que vivem em solidão, em pobreza, na doença, na tristeza, no abandono. E isso é muito bom. Ao menos uma vez no ano as pessoas são tratadas como pessoas e não como uma estatística, uma etiqueta ou como uma categoria. Ao menos uma vez no ano. Mas e depois, no dia seguinte? A realidade dos restantes 360 dias do ano cai-lhes na cabeça. Estampa-se-lhes pela frente. E isso é que me dá tristeza. Ao contrário do vulgar dos mortais, que dá saltinhos de alegria nesta época, eu acabo sempre por chorar imenso. Não sei dizer, há sempre qualquer coisa (ou várias) que me fazem chorar. Nem que seja por aquela caridadezinha que se vê na TV ou pela tanta boa vontade natalícia que apenas dá para gasto durante uns diazinhos. Penso sempre no dia depois do Natal. E isso faz-me chorar. Quem está na rua, continua na rua. Quem está só, continua só. Quem sofre de abandono, continua com o mesmo sofrimento. Apesar de pouco ser pouco e do nada ser nada, e de pouco ser melhor do que nada, fico com uma fome ainda maior de algum equilíbrio entre as pessoas. 

Penso também nas situações que se agudizam nesta época. Para quem está só, nestes dias, a solidão pesa ainda mais. Para quem não tem nada, o nada é um buraco ainda mais vazio e mais escuro. Para quem não tem o dinheiro suficiente para o pão nosso de cada dia, olhar para as montras das pastelarias é uma maldade que se faz. É como levar uma criança para dentro de uma loja de brinquedos e dizer que só pode olhar, não pode mexer e não pode comprar. Só cria um sonho ainda maior e uma vontade imensa de poder brincar com aquilo que está acessível a outros. Para quem não tem um tostão para oferecer um presente aos filhos, as montras da cidade são uma violência...esta época também é violenta. Desta forma, é violenta. Acentua as diferenças entre as pessoas apesar das caridadezinhas. Apesar do espírito de boa vontade que paira no ar e que é maravilhoso. Infelizmente, na maior parte das vezes, este tal espírito natalício só paira, não aterra, não baixa. Vá lá que de vez em quando toque ao de leve em alguma alma distraída. Mas depois vai-se embora, hibernar até à próxima quadra. Este espírito maravilhoso só aparece e só faz os seus milagres se o chamarem. Se conversarem com ele e se o ajudarem. Também respeita o livre arbítrio dos homens. Não impõe a sua presença nem a sua influência. O mal é que a malta só se lembra dele nalguns dias de dezembro, tal como faz com as restantes virtudes natalícias. Daí que eu não consiga resolver este paradoxo dentro de mim própria. Talvez porque hoje é dia 28 de dezembro. Parece que estou a tentar desintoxicar do Natal e a buscar novamente a essência verdadeira das coisas. Talvez por isso. Ando, no meio dos restos natalícios, a procurar onde estão os verdadeiros afetos, onde está o que verdadeiramente importa. Parece que tenho que sacudir qualquer coisa que me pesa na alma. Tenho que sacudir a densidade que me afeta numa época que deveria ser tão leve e tão alegre. Por outro lado tenho pena de me dar a agonias. Tenho pena de não conseguir apenas apreciar a beleza das coisas, uma beleza luminosa, decorada a verde e a vermelho com uns apontamentos dourados. Tenho pena de não conseguir apenas celebrar o nascimento de Cristo, que por entre o barulho das luzes lá vai espreitando e dizendo para não se esquecerem do seu exemplo e dos seus ensinamentos. Lá vai espreitando e tentando dizer que o Natal pode acontecer todos os dias nos corações de todos nós. Que Ele pode nascer sempre no nosso coração. Que esta maravilha da nossa história pode ser repetida no interior de cada um. E que basta um "Ama e faz o que quiseres" para que todos pudéssemos ser tão mais felizes. "Ama e faz o que quiseres". Não me canso de repetir este mantra. Quando se ama, com um amor verdadeiro, lato e universal, não há nada que se faça de mal. O amor só produz coisas boas. Só faz o bem. A ausência do amor é que tanto mal tem trazido ao mundo. Desde que se ame, pode fazer-se o que se quiser que nunca se erra. Simples, não é? O Céu é muito simples. A mensagem de Cristo é muito simples. Nós é que temos a mania de complicar e de controlar. Essa mania vai ter que nos passar a bem ou a mal. Infelizmente temos assistido a tanta desgraça que eu diria que andamos a aprender a mal, já que não vamos lá a bem. É preciso que apareçam calamidades para que as pessoas se voltem para Deus, para a sua essência, para o seu interior, para os outros, para as coisas que têm verdadeiramente valor e que não têm preço. Quando ficamos sem nada daquilo que se pode comprar, resta o que efetivamente tem valor. Simples, não é? É de uma simplicidade quase atroz. As aprendizagens têm que ser feitas. Que pena que o ser humano aprenda melhor a mal do que a bem....que pena. 

E agora vou ter que continuar a sacudir estas mágoas que me afogam na época natalícia porque vem aí outra festa por decreto. A da passagem de ano. Parece que é uma coisa do outro mundo. Temos que estar alegres e pronto. Temos que estar lindos, bem dispostos e a despejar a nossa esperança toda num ano novo que aí vai chegar. A esperança deveria ser distribuída por todos os novos dias, sem exceção. Em cada nova hora. Às vezes depositamos tanto lá mais à frente que nos esquecemos do aqui e agora. Também sofro deste mal embora me ande a tentar corrigir. E mais do que tudo, aproveito este fim de ano para balanço e inventário, como se fosse uma loja ou um armazém. Ou uma mercearia. Mas faz-me bem olhar para trás para deixar ir, largar, desapegar e continuar a olhar em frente. Aprender com o passado sem que este seja uma sentença de qualquer espécie. E tentar escolher melhor a cada dia que passa. Tentar utilizar o meu livre arbítrio em meu beneficio e em benefício dos outros. Vou tentar que este balanço seja mais do que uma lista descritiva do "deve" e do "haver". Talvez saia em forma de espiral evolutiva daquelas que arrasta corpo e alma. Depois venho cá contar.

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