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Olhos de água

Ontem foi um daqueles dias em que me senti bastante inspirada e alegre. Estive num encontro com música e poesia. E trouxe comigo uma frase que me ficou aferroada cá por dentro: “Se os meus olhos secarem…” 

E pensei que me apetecia escrever sobre este assunto. Se os meus olhos secassem ou quando os meus olhos secarem, o que terei eu a dizer? Será que os meus olhos poderiam secar por terem perdido a capacidade de chorar? Deus me livre! No dia em que eu não chorar já não sou eu. Já não estou a viver, estou a vegetar. Tenho uma lágrima fácil de mais que espero que seja inesgotável. Isto porque os meus canais lacrimais têm uma ligação direta ao meu coração. Deve ter sido algum defeito de fabrico assim remendado à pressa. Mas agora já não sei funcionar de outra forma. É tudo intenso. Emociono-me demais. E isso faz parte da minha essência. E as lágrimas correm como forma de aliviar a pressão, a muito boa ou muito má. Se os meus olhos secassem, seria sinal que as minhas emoções já não eram minhas. Já não as sentia. Seria um sinal de que a frieza teria tomado conta de mim. Teria o coração gelado e o mar que tenho cá por dentro seria um imenso glaciar, deserto e sem piada nenhuma. Se os olhos secassem como é que a música, a natureza, a criação, e todas as maravilhas que me rodeiam poderia fazer parte dos meus mundos? Se os meus olhos secassem, de que valia ter coração, cérebro, corpo, alma e tudo mais o que me constitui? Seria tudo inútil. O que seria eu se os meus olhos secassem e as lágrimas não me rolassem pelas bochechas abaixo com tanta facilidade? Que espécie de pessoa seria eu? Provavelmente, se os meus olhos secassem, eu já não seria coisa nenhuma. Com olhos secos não se sorri. Não se ama. Não se esperneia. Não se faz nada que valha verdadeiramente a pena. 

Se os meus olhos alguma vez secarem, também me seca a alma e a flor da vida. E deixo de valer um fósforo. Não sei nem quero saber o que é ter os olhos secos. Mal por mal, que estejam sempre rasos de água! E também podem ter algumas rugas. Daquelas para cima que é sinal que também sorriem muito. A minha mãe sempre disse que eu sorrio com os olhos. Eu não posso saber verdadeiramente destas coisas porque não vou para o espelho ver como é que é quando estou a sorrir espontaneamente. E quando se vai sorrir para o espelho, nunca é um sorriso espontâneo. É artificial. O que interessa é que também se sorri com os olhos. Eu, que sou intensa em tudo o que faço e sinto, diria que sorrio de corpo e alma. Com todas as células. Daí que os sorrisos criem rugas. Mas são lindas rugas de alegria. As lágrimas também fazem rugas, vincam emoções no rosto. Rugas destas só podem ser rugas bonitas.

Se os meus olhos secassem também me secava o sangue nas veias. E seria como uma árvore sem seiva, morta, seca, oca e feia. Sem capacidade para criar raízes nem para receber a luz do sol. Sem ser capaz de transformar nada à volta. Sem segurar o solo nem travar a força das chuvas. Sem ser verde de vida. Apenas de um cinzento moribundo a aguardar ser pó de terra. Se os meus olhos secassem também se acabavam as palavras. Se calhar, as minhas palavras crescem nalguma árvore que se enraizou no meu coração. Uma árvore grande com ramos cheinhos de letras. É só abanar e elas caem em palavras. Muitas e generosas. Formam textos. Esta árvore de vida mata a sede com as lágrimas salgadas que caem dos meus olhos. Por tudo isso, peço a Deus que não deixe secar os meus olhos. E, no dia em que ficarem secos para sempre, peço ainda que os olhos da minha alma sejam sábios, contemplativos e cheios de amor. E que saibam recordar com benevolência tudo o que os meus olhos do rosto viram enquanto tiveram água de vida. 

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