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Homens: bichos incompreensíveis

Uma querida amiga pediu-me para escrever sobre os homens. Ela anda atravessada com eles. Eu também. Faz de conta que se juntou a fome com a vontade de comer. Ainda pensei não escrever sobre o tema pois como tenho estado numa lua de "descasca pessegueiro", poderei desatar o saco e ser injusta. É que quando me dá este tipo de macaca é melhor esperar que passe. Mas enfim...como sou uma senhora e gosto de pensar que já vou conseguindo controlar a tempera, aqui vai disto. Principalmente porque a minha tão querida amiga me pediu. Normalmente costumo dar o titulo aos textos depois de os ter escrito na integra. Este não será exceção. No entanto, apetece-me escrever sobre as incoerências, as dessincronias e sobre mais uma data de coisas que não compreendo no bicho homem. Costumo conseguir compreender bem as pessoas. Esforço-me por ver as coisas pelos prismas que os outros utilizam para lidarem com o mundo. Procuro sair das minhas referências e pontos de vista para poder entender as referências dos outros. Desta forma conseguimos ser mais justos com as outras pessoas. E adoro pessoas. Mas nesta altura do campeonato, não entendo os homens. Se calhar é porque eles não são pessoas! Talvez seja esta a grande descoberta do século! Os homens, ao contrário do que se pensava, não são pessoas! Só podem ser extra terrestres a fazerem de conta que são pessoas. E são extra terrestres tão evoluídos que já deram a volta à rosca da tecnologia de ponta e voltaram aos pontos de partida originais. Simples, simples. Funcionam em compasso binário, em 1 e 0, em corrente alternada e a preto e branco. De tão simples e óbvio, tornam-se difíceis de entender. São muitíssimo focados (normalmente no seu próprio umbigo) e só vêem o que está em perfeita linha reta com os olhos. Têm uma espécie de cegueira lateral, periférica e seletiva. Nem no frigorífico conseguem encontrar o que está nas partes de trás das prateleiras. Ou as coisas saltam das prateleiras e lhes dão umas dentadas ou não as encontram. É assim o bicho homem. Na esmagadora maioria das vezes, incompreensível. Posso dar uma explicação um bocadinho mais antropológica e relembrar que são seres racionais há muito pouco tempo na sua história evolutiva. O bicho homem ainda está completamente programado para a caça, para a procura de alimento, para a proliferação da espécie e para a defesa do seu clã. Estas marcas genéticas ainda fazem muita mossa numa época de racionalidade e consciência. Parece-me que caçar talvez seja a atividade fundamental do lado mais animal do homem. Daí que sejam tão focados. Na sua própria sobrevivência e na sobrevivência da espécie. Um belo bife no prato ou uma mulher bonita na cama, provêm da mesma origem: da caça. Isto não foi dito de uma forma muito elegante. Mas a elegância também não é para aqui chamada. Os homens são assim e não vale a pena dourar a pílula. São o que são. E para mim, mulher, tantas vezes vezes incompreensíveis. Não entendo como funcionam. Não entendo o que querem. Há dias em que não percebo nada de nada. Ou então, o que percebo é de uma simplicidade tão grande que nem acredito no que estou a ver. Há uma coisa que sei: os homens podem ser comparados aos carros. Mais ou menos sofisticados, funcionam todos sobre o mesmo princípio. Só é necessário ter-se unhas para a condução. E não vale a pena querer transformar um desportivo num carro familiar nem um todo terreno numa limusine. Não dá. Muito menos vale a pena comprar um fiat uno a pensar que se vai transformar num ferrari. Cada carro é o que é e cada homem também. Se nos convencermos disto, é mais fácil a gestão intra espécie.

Eles também não têm a culpa toda. Para além da força da genética que não controlam, são educados para serem fortes a todo o custo. Têm que ser à prova de bala. Não podem chorar, não devem demonstrar sentimentos. O coração é um pedaço de músculo que só serve para bombear o sangue e não lhe podem dar mais nenhuma funcionalidade. Só serve para ir batendo. E têm um medo do coração que se pelam. Gajo que é gajo trata logo de arranjar uns botões ou uns interruptores para desligarem o coração das suas outras funcionalidades. Emoções é para maricas. Ninguém lhes ensinou esta linguagem mais emocional, mais carinhosa, mais doce, mais vinda do coração e da alma. Por vezes saltam-lhes cubos de açúcar pelos olhos mas são incapazes de dizer uma palavra doce. Que bichos esquisitos! Parece que são frios de neve. Sem sentimentos. Muralhas invioláveis. À primeira vista é o que parecem. E são normalmente incapazes de se colocarem no lugar dos outros. Parece-me que o lugar deles já é muito difícil de entender. Também não deve ser fácil ser homem. Essa coisa de ser forte o tempo todo deve dar uma trabalheira...e deve consumir toda a energia disponível...por isso é que os desculpo. Os homens são, por vezes, crianças grandes. Assustadas com medo de o confessarem. Incapazes de lidar com sentimentos. Com imensa vergonha de falar sobre eles. E mais vale fugir do que enfrentar o coração. E só conseguem pensar numa coisa de cada vez. Se estão a pensar sobre o que lhes dói, são incapazes de pensar no que dói aos outros. Fecham-se sobre si próprios. Mudam de esquina ou de país. Os homens, que são simples, só são elaborados a fugir. São peritos em fugas para a frente, para trás ou para qualquer outro lado. Mais vale rabujar o touro do que fazer uma pega de frente. Lá na sua genética da caça, a defesa também é muito importante. Se não se consegue matar o bicho de forma limpa e sem grandes gastos de energia, mais vale fugir. O homem foge muito. Principalmente de si próprio e dos seus sentimentos. E estas fugas devem dar muito sofrimento, embora não sejam capazes de o admitir. 

Há coisas que me intrigam...se os homens são tão simples - porque o são - porque não são mais frontais? Quando querem terminar uma relação, porque não o expressam com simplicidade e frontalidade? Dizem que precisam de um tempo...ou que precisam pensar na vida...são estas incoerências que me custam a entrar na moleirinha. Não assumem as suas vontades com nobreza. Não entendem que a verdade dura é sempre mais digna do que a mentira doce. Na verdade, os homens são um bocadinho mentirosos e sabem adoçar a linguagem quando estão a mentir. A sua defesa pessoal acima de tudo. São capazes de passarem por cima dos sentimentos dos outros como os cilindros passam por cima do alcatrão. E, não maior parte das vezes, nem sabem que estão a cilindrar. Não pensam que magoam os outros. Acho que os homens já desistiram de pensar. Não pensam. Por isso é que não são pessoas. As pessoas pensam que podem magoar os outros com as suas manobras. E tentam evitar que isso aconteça. 

Uma outra coisa que me intriga é que são capazes de resolver uma data de problemas do mundo, são heróis a salvar vidas, a salvar a criação, a descobrir curas e a combater pela justiça e desorganizam-se com uma dor de barriga ou com uma unha encravada. Os homens funcionam, de facto, a preto e branco. São a muralha da China e, em simultâneo, são uns mariquinhas pé-de-salsa. Conseguem manobrar o maior e mais potente telescópio do mundo e não são capazes de nos olhar olho no olho e dizerem exatamente o que pensam. O homem, se não for extra terrestre, é, no mínimo, um dos mistérios da natureza. São capazes de estacionar um camião de olhos fechados e são incapazes de arrumar as coisinhas no seu próprio coração. São capazes de atravessar um oceano a nado e são incapazes de dar uma braçada ao encontro da sua própria alma. 

Os homens são capazes de saber as medidas exatas do nosso corpo mas não sabem o tamanho do nosso coração. Nem sei se sabem onde fica...fazem muitas vezes lembrar-me as legiões de soldados romanos. Muito estratégicos na sua forma primitiva de avassalar o território dos outros: "a conquista é tudo, a posse é nada". São altamente inseguros e fazem o que está ao seu alcance para conquistarem a dama que no momento lhes interessa. Depois de conquistada, ficam seguros da vida e o esforço de manutenção é paupérrimo. Pelo menos os romanos sempre desenvolviam os locais por onde passavam e criaram um império. Os homens são mais de criar haréns...e nunca estão satisfeitos...como é que se compreende isto? A única explicação que encontro é que não vale a pena socializar bichos do mato. E os homens são bichos do mato. E a genética tem muita, muita força. O que lhes sobe ao subconsciente é a sobrevivência da espécie, especialmente à custa do seu próprio material genético. Um dos seus objetivos de vida (embora não o tenham assim tão acessível à consciência) é espalhar os seus próprios cromossomas por todo o lado. Serem os melhores nesse aspeto. Por isso são tão competitivos e exibicionistas. Faz parte da sua própria natureza. Não gostam de perder nem aos feijões. Estas coisas são apenas camuflagens de quem quer ser o melhor entre pares para ter maior poder de conquista e, dessa forma, espalhar cromossomas como quem espalha grãozinhos de areia ao vento. Estão a ver como os homens são funcionam todos sobre o mesmo principio simples? Convém não nos esquecermos destes aspectos estruturantes das suas formas de lidar com o mundo e, principalmente com as mulheres. Assim já sabemos ao que vamos. Não nos irritamos tanto...

Também deve ser porque não os compreendemos que lhes achamos tanta graça. São poços sem fundo e cartolas de ilusionistas. Nunca se sabe o que guardam nas profundezas nem que coelho vai saltar. Deve ser esta imprevisibilidade que os torna atraentes. Broncos, duros e insensíveis mas atraentes. Interessantes. A culpa deve ser da física, a tal ciência que diz que os opostos se atraem. Os homens devem ser do pólo norte e as mulheres do pólo sul. Uns são companheiros dos ursos polares e outro dos pinguins. Nada a ver. Mas no meio destas antagonias todas, quando dois pólos se encontram e resolvem aceitar-se e entender-se com as diferenças que têm, é uma maravilha. Até o Céu entra em festa. Os arcos-íris vêm daí. É o fogo de artifício que o Céu envia quando comemora um encontro entre bichos que não se topam. Quando o amor é mais forte que as diferenças. Quando o amor vence tudo o que lhe aparece pela frente, é feriado festivo no Céu. E nos feriados festivos há fogo de artificio e os arco-íris aparecem. 

(Não e não. Vou resistir à tentação de explicar porque é que os arco-íris são tão raros...).

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