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A parvoíce de verão

Resolvi renovar a imagem deste blog. Os meus mundos necessitam de ser dinâmicos. Diz-se que as aquarianas são assim. Detestam rotinas e mais do mesmo. Assim, vou alterando o que posso alterar. Com tantas cores que a vida tem, não é necessário andar-se sempre com os mesmos tons. Por outro lado, quando não se consegue mudar questões estruturais da nossa vida (embora nos apeteça) vamos mudando o que podemos mudar, o que está ao nosso alcance. 

Resolvi então arejar um dos meus mundos mais queridos, o da escrita. Como sou eu própria, mantenho uma certa constância em termos cromáticos e de forma. Há coisas que aqui, tal como na vida, não abdico. São muito próprias, muito minhas. De resto, adoro experimentar tudo o que é diferente de mim. O que é meu eu já conheço. Interessa-me experimentar tudo o que é novo. Deve ser mesmo por ser aquariana de signo com ascendente em aquário. Muito aquário por metro quadrado! Não me safo do exotismo deste arquétipo. Falo disto como se percebesse alguma coisa deste assunto: não percebo nada. Apenas vou lendo umas coisas, satisfazendo a minha curiosidade. Parece que a curiosidade também é uma característica marcante da malta que nasce sob a influência deste signo. Enfim...e para me desviar da conversa também estou cá eu...

Estava a conversar sobre mudanças e sobre renovações. A maior parte das pessoas faz muitas destas limpezas e mudanças com a entrada de um novo ano. Como sou um bocadinho ao contrário, os meus arejamentos acontecem muito após as férias de verão. Em primeiro lugar porque adoro o verão. A sua simplicidade e o bem estar que proporciona. O verão deve ser masculino. Rege-se por princípios simples, não complica e as coisas são como são. Sim ou não. As hormonas do verão não influenciam o seu estado de espírito. Quando se chateia, chateia-se e toda a gente dá por isso. O verão não amua, não muda de cara várias vezes ao dia. Por outro lado, é teimoso e, quando ferra, vai até às ultimas consequências. Quando é para desaparecer, desaparece sem que ninguém perceba porquê. Sem explicações. E os veraneantes ficam à toa sem saber o que fazer nem como lidar com os desaparecimentos pouco previstos pelos institutos de meteorologia. Não há qualquer espécie de dúvida que o verão é gajo. Com as suas qualidades e com os seus defeitos. Corta a direito sem pensar se magoa ou não as pessoas que estão no seu caminho. Por vezes, o verão também só faz de conta que é corajoso. Não é, falta-lhe a coragem para mudar o que tem que ser mudado. Faltam-lhe palavras, cheiros e sonoridades para dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. É o que é. O verão é um gajo que funciona a preto e branco, de acordo com a sua estrutura cromática. De acordo com o seu umbigo. Mas eu gosto do verão na mesma. Tem duas componentes que me são fundamentais à vida e ao meu bem estar geral: o sol radioso e o mar calmo. É a altura do ano em que o mar nos deixa partilhar todo a sua essência. E eu não sei viver sem o mar. É a altura do ano em que o sol dá umas varridelas nas nossas estruturas mais bafientas. Por isso adoro o verão. Mesmo quando tem as telhas de gajo, aquelas que eu não compreendo. Mas mesmo o que eu não compreendo não deixa de ser atraente. Ou, no mínimo, desafiante. Se o sol trata do nosso bafio, o mar acaba por nos purificar. Eu sou outra depois de uns dias de sol e de mar. Mas sou outra um bocadinho melhor. Refrescada. Principalmente nos meus propósitos. Tenho um conjunto de coisas que quero fazer. Posso não conseguir virar tudo o que me apetece. Mas consigo fazer pequenas coisinhas (novas) ou reforçar algumas que já faço e que me dão muita alegria. Eu começo sempre um ano novo depois do verão. Esta época é a minha época para sacudir o pó. Para reforçar o que é bom e para espantar o que me faz mal. Vou tentar que este pós ferias seja um tempo para sarar algumas feridas abertas que se instalaram ao longo do ano. 

Tenho um rasgão aberto no coração que tem pingado muito sangue. Vou ter que estancar isto, custe o que custar. É que sem coração também não sou capaz de viver. E procuro deixar que o tempo faça os seus milagres. Que ajude a cicatrizar antes que se morra da hemorragia. O tempo cura tudo. É verdade. Mas não sei qual é o meu limite para ir sangrando pelos cantos até que o tempo se digne a fazer que tem que ser feito. Morrer-se também é uma forma de cura. Fica-se curado de uma vez. Não gostaria que o meu coração morresse para a vida. O coração é o que eu tenho de melhor. É a minha peça mais preciosa. É a que mais estimo. É onde tenho todos os tesouros que Deus me deu. É onde se encontra a minha essência e toda a minha força. Sansão tinha a sua força no cabelo. Eu tenho no coração. Não sei explicar, mas é assim. Sendo uma pessoa forte de estrutura, sei que é no meu coração que esta força está instalada e que se multiplica. Por isso tenho medo de abafar e de oprimir o meu coração. De o ter doente, cansado, com feridas. Por vezes todo partidinho...tenho medo que não consiga recuperar de umas vezes para as outras. Tenho medo de perder a vontade de amar com toda a força, com toda a confiança. Não gosto de coisas pelo meio, nem cheias de condições. Gosto de tudo intenso. Tenho medo de começar a ser mais contida, mais desconfiada, menos espontânea e menos autentica. Tenho medo de perder autenticidade. Às vezes perde-se pureza quando nos defendemos. Quando não abrimos o coração à vontade. Colocamos pezinhos de lã. Abusamos da prudência. Abrimos muito os olhos e fechamos o coração. Não me apetece nada ficar assim, de olhos escancarados. Apetece-me cada vez mais ser eu própria, como a água que rola montanha abaixo em vez de ser um lago sereno enfiado na cratera onde desaguou. Apesar de ser esquisita e diferente, cada vez mais bichinho do mato e cada vez menos entendida, quero ser sempre eu própria. Mas, de vez em quando, apetece-me tanto a paz e o sossego que tenho medo de mim. De trancar o que tenho de melhor só para que não doa tanto. As dores e as hemorragias exaustam. Isto é o lado B de um coração grande, intenso, indomável e com vontade própria. Quando maior é maior a superfície que pode ser atingida. Tudo isto em extensão e em profundidade. Tem sido uma canseira. Sinto-me muito cansada. A minha sorte tem sido o verão. A energia do sol. O envolvimento do mar. Estas duas forças têm-me salvado o coração muitas vezes. Quando estou à beirinha de perder a bateria toda, lá consigo encontrar a energia que me permite levantar a cabeça e seguir peituda para a vida. Aproveitá-la, espremê-la. Cada gota de vida que se absorve faz evoluir a nossa alma. E, no fim do dia, é isso que verdadeiramente interessa. O processo é que por vezes é bastante tortuoso (cada vez gosto menos de processos, tenho a dizer).

Mas gosto do verão por todas as razões e mais alguma. Porque posso viver a simplicidade que me agrada nas coisas. Com pouca tralha atrás. Sem necessidade de abafos nem de complementos. Podemos escolher andar como nos apetece, de chinelinha de dedo. Podemos enfiar qualquer coisa leve que está bem. Penso que as pessoas são mais felizes no verão. Retomam à sua simplicidade original. Soltam-se mais. Retiram mais prazer da vida. Apreciam melhor a natureza. Diria que no verão faz um calor que dificulta usarem-se máscaras e capas. E tudo o que promove a transparência é adorável. O verão é adorável. Talvez seja porque tem uma energia masculina que complementa a minha feminilidade. O verão apazigua-me. Acalma-me. Permite-me andar mais na rua. Observar melhor, sentir melhor, ouvir melhor e cheirar melhor. O verão apura-me os sentidos todos. Parece que me apura igualmente os sentidos espirituais. Parece-me mais fácil o contacto com este outro meu mundo. No verão está tudo muito mais apuradinho. Talvez porque a energia é capaz de fluir muito mais facilmente. Os canais estão mais abertos, mais disponíveis. Deve ser porque cada um de nós também está muito mais disponível para a vida. Comunga-se mais com a natureza. Estamos mais recetivos ao ambiente. Parece que se ouve mais musica, dança-se mais, passeia-se mais, absorve-se mais vida. E quando se absorve a vida, o mundo espiritual também se amplia. E quando o mundo espiritual se amplia, deve haver festa da rija lá no Céu. A mim parece-me que o Céu também festeja tudo o que é bonito. Tudo o que ilumina as nossas almas. E a mim, apesar dos pesares, o verão ilumina-me a alma. 

Embora saiba que todas as estações do ano têm o seu encanto e a sua utilidade, seria capaz de viver sempre no verão. O verão tem uma essência de liberdade que me encanta. A liberdade é encantadora em si própria. E a liberdade também mora no coração de cada um de nós. Somos almas livres apesar de tudo. Apesar dos grilhões dos sistemas. E não existem sistemas sem grilhões. Portanto, ser-se livre é um estado interior, mais ou menos pleno. Eu sou uma pessoa muito livre. Muito dona de mim própria. Interessam-me imenso as outras pessoas. Adoro pessoas, adoro o mundo e a vida. Mas não gosto que mexam na minha liberdade enquanto ser consciente de mim própria, com capacidade de escolha. Deus deu-me esse valor, à nascença. Deus fez-nos livres. Não são as outras pessoas que nos vão tirar o que Deus tão amorosamente nos deu. A minha liberdade é muito minha. E faz-me muito feliz. Não sei viver quando escolhem por mim. Por outro lado, não sei prender ninguém. Não sei pedir nada do que deva ser oferecido. Não sei atar nós nem colocar cadeados. Existem uma enormidade de coisas que as pessoas fazem umas às outras que eu não sei fazer. Nem quero aprender como se fazem. Quero poder ser. Simplesmente ser. E vou desejando que o meu ser seja despoletador de bons sentimentos por parte das outras pessoas. Em liberdade. Detesto cobranças, obrigações e amarrações. E adoro espontaneidade, autenticidade, ofertas e partilhas. Por isso vivo um bocadinho à parte. Sendo pouco compreendida. Sendo um bocado parva. Miguel Esteves Cardoso, que eu adoro, diz que tem que se ser um bocado parvo para se ser feliz. Pois como o meu verdadeiro objetivo é ser feliz, devo ser, por inerência, também um bocado parva. 

O tempo (que também é muito dono de si próprio e muito livre, e que não pode ser forçado) dá-nos um presente fantástico (se tivermos paciência para esperar): a maturidade de já não nos importarmos com determinadas coisas. Nesta altura da minha vida, já não me importo de ser parva. Ou que os outros me considerem parva. Já não quero saber. Já só quero ser eu. Simplesmente eu e livremente eu. Apesar de tudo isto dar muito trabalho. Ser-se o que se é, é muito trabalhoso. Dói. Faz partir o tal coração que está fragilizado. É preciso tomar doses cavalares de sabedoria e de paciência. Dá aso a muitas lágrimas. E as lágrimas causam rugas. Não é bonito. E para que conste, o mar é tão meu amigo que me contém as lágrimas. Deixa-me chorar e não se importa de ficar um bocadinho mais salgado à conta das minhas lágrimas. Deixa-me chorar só para ele. Ninguém mais precisa de ver. Entende-as. Está cheio delas. No verão, também posso chorar melhor. Posso entrar pelo mar adentro e chorar o que me apetecer. De forma simples e livre. Sem precisar de me justificar. Só porque sim. Só porque sou um bocado parva.

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