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Amor de tartaruga

Antigamente, haviam uns cromozinhos com umas coisinhas bem lamechas que falavam de amor. E tinham uns bonequinhos simples com uma frase que começava sempre por "Amor é...". Nunca colecionei porque nunca fui de coleções mas olhava assim de soslaio para os cromos que alguém tinha ou colava nas capas dos livros ou dos cadernos. Achava graça mas não percebia muito bem o que queriam dizer algumas das frases. Não atingia nem a profundidade nem a simplicidade dos dizeres. Porque era muito nova. E por isso adoro a idade e o conhecimento e a sabedoria que traz. E de repente, fiquei a pensar (também inspirada por umas musicas que estou a ouvir), se eu tivesse que escrever umas frases sobre "o amor é...", o que seria que eu escreveria? E, de repente, patino um bocadinho. Parece que é mais fácil descrever-se a falta que nos faz ou dizer que sem amor somos isto ou aquilo. É nestas alturas que eu gostava de ter alma de poeta e saber escrever umas coisas lindas  sobre o que de mais importante pode existir na nossa vida: o amor! E dou conta que é muito difícil definir a força mais importante do universo de uma forma simples, profunda e abrangente. Parece-me que não consigo. Talvez eu nem consiga utilizar umas figuras de estilo daquelas bem pimponas para tornar as palavras mais bonitas. Não conheço nenhuma palavra que seja mais bonita do que a palavra amor. Não conheço nenhuma cor mais bonita do que a cor do amor. Nem aroma mais bem cheiroso. Nem sabor mais doce e exótico. Não é possível encontrar palavras para descrever a beleza de um sentimento tão bonito que vai deixando rasto e fazendo milagres por onde passa. Desde que se queira e desde que se deixe que assim seja. O amor é tão libertador e respeitador da liberdade dos outros que nunca se impõe. Apenas existe. Apenas é. E ser, em toda a sua plenitude, é de uma beleza indescritível. De uma simplicidade extraordinária. E tudo o que é bonito e simples, é pacificador. O amor é muito pacificador. É fantasticamente pacificador. A desgraça, a ansiedade, o coração na boca e a dor acontecem na sua ausência. Na sua mal vivência. Na sua condicionalidade, nas suas circunstâncias e consequências. Nunca há dor com o amor em si próprio. É sempre no está à sua volta ou no espaço que este deveria ocupar e que se encontra vazio. Aqui sim, a dor é grande que se farta. Os descabelanços e as preocupações acontecem na ausência e nunca na sua presença. O irónico da coisa é que quanto maior é o amor, maior se sente a sua ausência. Quanto maior o sentimento, maior é a tristeza, maior é o vazio. Por vezes as histórias de amor podem ser desconcertantes. Por vezes sentimo-nos como crianças em lojas de doces. Uma criança numa maravilhosa loja de doces, daquelas de sonho, com tudo o que se deseja. E a porta da loja só se abre de vez em quando. E o seu conteúdo é dado a cheirar, é dado a provar, é dado a descobrir cada caixinha e cada prateleira. E, de repente, quando se julga que se está no paraíso ou que se concretizou um sonho, alguém diz: "Estás a ver bem tudo isto que adoras? Não podes ter. Não podes provar mais. Não está ao teu alcance." E fecha-se a porta. E chora-se. E sofre-se pela perda do que verdadeiramente nunca se teve. Apenas se descobriu que pode existir. Apenas se teve a noção que aquilo que se desejava em sonho, existe na realidade. Ali, à nossa frente. Mas não ao nosso alcance.  Porque a criança não tem a chave para abrir a porta. Por vezes nem a altura para conseguir espreitar à janela. E fica a aguardar um milagre. O bom de se ser criança é que as crianças acreditam em milagres assim como nós acreditamos que o sol nasce todos os dias. Para as crianças não existem impossíveis. Ainda bem que nos sentimos como uma criança numa loja de doces, porque assim ainda há esperança. Se nos sentíssemos como adultos, virávamos as costas à loja de doces só para que ela não nos fizesse sofrer ainda mais um bocadinho. Só para não vermos o nosso sonho à distância. Desistíamos e pronto. Por vezes apetece desistir. Arrancar o que nos dói no coração. Arrancar do peito o imenso vazio que o enche quando os sonhos teimam em não ser os nossos. Apenas nos roçam, por vezes tocam-nos de leve ou em profundidade, porque passam por nós a rasgar. Com força. Espetam arpão e dão à sola. Deixam a seta com veneno daquele que não deixa parar a sangria. E quando se sangra amor não é possível ser-se criança. É-se como uma tartaruga que se enfia na sua casquinha à espera que passe o que tem que passar cá fora. As tartarugas são deveras animais interessantes. Percebem muito mais da vida do que parecem. Têm uma carapaça forte que serve para tudo. Protegem-se e enfiam-se lá dentro sempre que o tempo se torna tormentoso. E vão vivendo a sua vidinha devagar, sem pressas e sem correrias. Esperam que os milagres aconteçam com a serenidade das crianças. E sentem-se protegidas apenas com os seus próprios recursos sem necessitarem de mais nada nem de ninguém. Apenas dependem, como o resto do mundo, da providência divina.  E sabem ficar quietas quando não há nada que possam fazer. Viram-se para dentro. Encontram em si próprias o que necessitam para continuar a viver. Sabem que possuem o que é necessário para viverem com calma. Sem quererem mudar os outros ou acelerar o tempo. Às vezes, uma tartaruga parece-me um animal muito sábio. E com certeza que uma loja de doces não as deslumbra. Entretêm-se em manter a sua carapaça bem rija e confortável para lhes suportar a vida. Também me apetecia ter uma carapaça como as tartarugas. E ter a sua capacidade de aceitação e paciência para o que não posso mudar. As tartarugas sabem destas coisas. Andam devagar. Quem anda devagar tem a sabedoria de apreciar cada momento como se fosse o primeiro e o último. Como se fosse o mais importante e especial. Como se fosse único. As tartarugas não se importam com os sonhos que podem magoar. Elas têm uma carapaça que as protege contra tudo e contra todos. E arriscam sem medo. Se o pior acontecer, enfiam-se na sua própria casinha e já está. Curam as suas próprias feridas, sem fazerem mal a ninguém, e voltam a espreitar a vida com o vagar necessário para recomeçar outra vez. Talvez pudesse haver um cromo de caderneta a dizer que "amor é... ser rijo e sereno como uma tartaruga". A frase não é lá muito bonita mas contém muita sabedoria. Amor de tartaruga dá mais esperança de vida ao próprio amor. Amor de loja de doces parece um bocadinho mais amargo, por muito contraproducente que isto possa parecer. 

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