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Silêncios e coração

Porque será que muitas vezes aquilo que não se diz é de muito mais valor do que aquilo que se consegue traduzir por palavras?

Eu sei que isto é verdade para muitas pessoas que conheço. E procuro aceitar esta reserva, nos outros, o melhor que sou capaz. Na minha opinião, tudo o que é bom, deve ser dito aos outros. Tudo o que sentimos de bonito, deve ser partilhado com a origem desses sentimentos. Nunca se deveria ter medo de se dizer o que se sente, o quanto o outro é especial para nós, o quanto nos faz bem, o quanto nos alegra a vida, o quanto seja o que for. Mas verifico que estas palavras assustam as pessoas. Dizer coisas bonitas, assusta. Será que é por medo de se ficar preso ao que se diz? Ou de se criar expetativas sei lá do quê? Ou de se ficar vulnerável? Ou de se parecer pateta? Se assim for, faço o possível para ser pateta. Com todas as pessoas que adoro. Mas nem sempre é possível. Às vezes tenho que ser uma senhora adulta que reserva o que sente. Porque o silêncio dos outros também influencia os meus. Não deveria ser necessário para as coisas serem como devem de ser, mas de vez em quando faz-me falta alguma reciprocidade. Faz-me falta encontrar o espaço para desgargalar o que me vai na alma. Não é fácil abrir a goela com quem se defende muito. Com quem mede as palavras todas, principalmente aquelas que têm que ver com o coração, com o sentir. É difícil gerir as torrentes do coração quando não lhes podemos dar espaço para escoar. Mas as coisas são como são e as pessoas são como são. E para haver alterações de comportamento, de formas de estar, é necessário tempo. Tudo tem um tempo certo. Cada um tem que sentir a necessidade de mudar qualquer coisa para que essa mudança efetivamente aconteça. 

Por vezes dou por mim a falar com as pessoas e dou conta que não me consegui fazer entender. Principalmente quando falo com o coração ou com o meu lado mais espiritual. Ficam apenas olhos grandes a olhar para mim, com montes de pontos de interrogação a pairarem. E há coisas que não se conseguem objetivar nem provar por a+b. Apenas se sentem. Sabem-se e pronto. Existe um nível de conhecimento que vem diretamente da nossa alma, tenho a certeza, e do nosso coração. E não há comprovativos a atestar a veracidade da coisa. Ou se acredita ou não. Ou se sente ou não.

Eu que gosto tanto de palavras, tenho tentado aprender a ler nos silêncios, no que não se diz. Ou no que fica por dizer. Procuro encontrar outras referências diferentes das minhas. Procuro encontrar nos silêncios dos outros aquilo que o meu coração me diz que existe. Que é verdade, que está lá mas sobre o qual não se fala. Aprender a ler os silêncios é uma tarefa levada da breca. Mas sempre é melhor do que lidar com palavras que não são verdadeiras. Muito melhor. Por vezes os silêncios falam-nos nos medos dos outros, das suas fragilidades, das suas dúvidas. Podem falar-nos do seu amor. E até da sua paz. Do seu repouso no nosso colo. Tudo depende dos silêncios como as frases dependem das palavras. Por vezes há palavras que são ditas que querem dizer exatamente o contrário do que soam. Os silêncios têm a vantagem de não terem som. São o que são, sem segundas intenções. Eu não gosto nada de segundas intenções. Detesto manipulações e mensagem subliminares. Não tenho nem jeito nem paciência. Por mais que goste de palavras, ainda gosto mais da verdade. E gosto mais de um silêncio verdadeiro do que de palavras mentirosas. Claro que de tudo, o que gosto mesmo, são de palavras verdadeiras. Mesmo que doam. Mesmo que firam. As mentiras e as falsidades ferem sempre muito mais. As verdades cicatrizam. As mentiras pingam sempre. Criam desconfiança e receios. Apesar de falar e escrever pelos cotovelos, honro muito o que digo e o que escrevo. Prezo muito a palavra dada. Não utilizo palavras em vão, a não ser numa situação perfeitamente lúdica, de brincadeira. Na vida a sério, existem palavras que nunca utilizo em vão. Nunca uso a palavra “amor” em vão. É a mais preciosa de todas. Não chamo de amor a quem não amo. 

Os silêncios são por vezes as palavras que só o coração sabe ouvir. Por isso é que o nosso coração é um órgão vital também para a nossa alma. Ele escuta, fala, pensa e transforma a densidade em luz. É o único órgão capaz de transformar as raivas em calma, as iras em serenidade, as impaciências em paciência. A tormenta em paz. A mágoa em perdão. A tristeza em alegria. E por aí fora. Tudo se pode transformar no nosso coração. E tudo se pode transformar em bom, se assim quisermos. Se assim escolhermos. O coração chora muito mas depressa seca as lágrimas. Sangra muito, mas rapidamente estanca a hemorragia e vai às entranhas buscar formas de se cicatrizar. Por isso gosto tanto do coração e de tudo que o representa. Não por ser lamechas, mas por ser o órgão mais verdadeiro que existe no ser humano. 

Parece que afinal os silêncios dão-se bem com os corações. Entendem-se. Eu sou muito coração mas ainda sou muito de palavra. Ainda me enervam as coisas que se sentem e não são ditas. É mais forte do que eu. A minha grande sorte é que o meu coração é muitíssimo mais inteligente do que eu e toma as rédeas destas coisas e acalma-me os nervos. Outra coisa que os corações também sabem fazer: acalmar a malta. Sossegar os ímpetos e serenar os impulsos. Ter coração só traz vantagens!

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