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Bolinha de sabão

Hoje é um daqueles dias em que me apetecia ser uma bolinha de sabão. Sinto até uma certa nostalgia daquelas composições que nos mandavam fazer na escola. Se eu fosse….qualquer coisa. Neste caso seria “Se eu fosse uma bolinha de sabão”. Como tenho a alma um bocadinho pesada, apeteci-me ser uma bolinha de sabão principalmente pela sua leveza. Uma bolinha de sabão flutua elegantemente pela atmosfera, indiferente ao que acontece à sua volta. Indiferente porque a sua natureza é flutuar. É essa a sua missão. Ser bonita, leve e flutuar. Apetecia-me sentir assim tal e qual como uma bolinha de sabão. As bolinhas de sabão também têm uma qualidade que aprecio particularmente: a transparência. São completamente transparentes. Nem sequer são translúcidas. São de uma transparência maravilhosa e brilhante. E, na sua transparência, refletem delicadamente todas as tonalidades e cores da natureza, envergonhando qualquer arco-íris que se preze. Apetecia-me sentir leve, bonita e flutuante apesar da vida estar num momento um bocadinho sombrio. Uma bolinha de sabão não tem coração, só tem leveza. E eu tenho tanto coração que estou sempre com os pés bem fincados na terra e não consigo flutuar. O coração pesa-me. O coração pesa-me de saudades. Pesa-me pela falta que algumas pessoas me fazem. Este agora é o tema em voga. E quando eu tenho um tema que se me enfia pela alma adentro, tenho que o esgotar. E escrevo sobre ele até não ter mais uma palavra a dizer. As bolinhas de sabão não têm saudades de nada. Apenas flutuam. Têm ar por dentro, não têm coração. E se não têm coração, não têm saudades. Deus deu-me a graça de toda eu ser só quase coração. Mas também é o seu tamanho que me crucifica. As dores de coração e as saudades já fazem parte de mim. São minhas companheiras de jornada. Quando não me acompanha uma, acompanha-me a outra. Quando não são as duas ao mesmo tempo. Uma de cada lado. Parece que cada uma alugou um ventrículo e não há maneira de se fazer cessar o contrato. Assim, ser uma bolinha de sabão, parece-me uma coisa maravilhosa. Sem nada por dentro. Apenas leveza, indo ao sabor da brisa. Sem rota, sem preocupações. Às vezes apetecia, não é? De vez em quando tenho destas coisas. Apetece-me desligar a pilha. Ir sem saber para onde ou fechar os olhos e acordar daqui a uns séculos. Qualquer coisa que me livre destas maleitas de coração. Também poderia ser só percorrer o mundo sem me importar com nada, flutuando acima da linha da água conforme soprasse o vento. Não querendo saber. Não me importando. Não sentindo nada de nada. Apenas observando a paisagem e apreciando o vazio interior. É também por isso que neste momento me apetecia ser uma bolinha de sabão. Só para descansar um bocadinho do esforço diário de levar a vida para a frente e de fazer uma data de coisas à distância. Onde, por inerência, nos desgastamos muito sem que isso produza grande efeito nos outros ou em nós próprios. Gasta-se muita energia. Eu tenho gasto muita energia. Precisava de reabastecer. E não posso. Daí que uma bolinha de sabão seja maravilhosamente desprovida de qualquer espécie de dependência energética. Apenas precisa de um bocadinho de nada de brisa para poder seguir o seu caminho independentemente das outras bolinhas de sabão. Independentemente de outra coisa qualquer. Apenas existe no momento. Não tem passado a assombrar pois veio de uma amálgama de água e de espuma sem estrutura nem história. Não tem futuro pois sabe como a efemeridade faz parte da vida de qualquer ser. De um momento para o outro, puf! Rebenta sem deixar rasto nem mágoa. Sem espalhafato nem dor. Desaparece apenas. Deve ir para o céu das bolinhas de sabão. Onde continuam a ser apenas o que são e felizes da vida. Parece-me que nesse céu nem da brisa se depende. Apenas se flutua e é-se feliz por se ser quem se é. Esta paz que as bolinhas de sabão parecem ter, dava-me agora um jeitão. Não é que esteja inquieta. Não estou. Às vezes é mais fácil se estiver inquieta. Faço o que tenho a fazer e gasto essa energia. Choro, praguejo, faço qualquer coisa e a calma normalmente retorna ao meu coração. Não estou inquieta mas também não estou em paz. Estou naquela coisa que não é carne nem peixe. Sinto-me um pouco vazia de coisas boas e só me pesam as saudades, as faltas. Os lugares vazios são mais do que o habitualmente suportável. De vez em quando o que sinto pelas pessoas torna-se maior do que elas próprias. Sem eu dar conta. Sem ninguém ter culpa. Elas também não têm a culpa de me fazerem tanta falta. Mas fazem. E o vazio instala-se. E quando o vazio se instala, tenho medo de mim própria. Aliás, assim de repente, será talvez o maior medo que tenho. É o de mim própria. Apetece-me desistir de gostar tanto. Apetece-me tapar a cabeça e ficar assim. Apetece-me não abrir tanto o meu coração, apetece-me fechar os portões todos, apetece-me rastejar para a minha toca e ficar lá dentro até me fartar. Como tantas vezes digo, o equilíbrio é tão difícil de alcançar. Gostaria tanto de ser mais morna. De gostar menos, de querer saber menos, de não entregar tanto. Uma bolinha de sabão não vive de trocas, nem sabe o que isso é. Não tem que ter atenção a coisa nenhuma. Se rebentar, rebentou. Também faz parte da sua natureza rebentar e pronto. E eu nem rebentar posso. Tenho que estar caladinha, a sofrer para dentro para não carregar ainda mais em quem já está carregadinho de mau estar. Mas que tem todo o meu amor ou a minha amizade. E não saio disto. É um ciclo vicioso que se instalou e que eu vou ter que desinstalar de qualquer maneira. Ainda não sei como. Graças a Deus que sou muito otimista e que tenho sempre a esperança de encontrar a solução para as coisas. Assim, espero encontrar a forma de sair deste circuito que me faz algum mal. Este sentimento de desânimo e de vazio não faz parte da minha natureza. Não faz parte de mim. Daí que custe ainda mais um bocadinho. Tudo o que é contra natura, mói ainda mais. É assim como os saltos altos, não são a minha praia. Sempre me magoam os pés. Nem que seja só um bocadinho. Eu nasci para andar descalça e sentir a firmeza do chão ou para andar com a liberdade de um chinelo de dedo. Cada um é para o que nasceu. E eu não nasci para a tristeza e para o vazio. Tenho mundos demais para isto. Mundos que agora se sentem abafados e de quarentena perante tanto nevoeiro. E nunca mais brilha o sol cá dentro para se poder rasgar esta névoa e dar entrada a tudo o que me pertence: a luz, a alegria, a paz e a esperança. Porque será que não posso ser como uma bolinha de sabão, simples, simples e descomplicada? Sem nada para sentir, sem nada para pensar, sem nada para resolver, sem nada a doer, sem nada a magoar. Só ser e mais nada.

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