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Viver de esperança

O equilíbrio é um estado de alma que me custa muito a conseguir. É com muito esforço. Faço muita força para manter a paz e a serenidade no coração. Costumo dizer que tenho um coração indomável e com vida própria. E é mesmo assim. Tenho um coração que sente de forma tão intensa que ultrapassa todas as fronteiras da minha própria consciência. Passo a vida a controlá-lo, a cortar-lhe as asas, a colocar-lhe rédeas. Diria até que muitas vezes o amachuco e calco bem calcadinho. Para que ele não me ultrapasse nem desate a extravasar os limites que inutilmente lhe tento impor. É verdade que um coração intenso, que sente tudo e mais um par de botas, é uma graça divina. E, todos os dias, agradeço essa dádiva ao Céu. Mas todos os dias também peço que o Céu me ajude a lidar com isto. Sem ajuda não é possível. Não é possível controlar torrentes de emoções e de sentimentos sem ajuda. Não é possível controlar toneladas de amor sem lhes poder fazer nada de especial. Por vezes, o coração é assim como uma barragem que vai enchendo, enchendo, enchendo. E das duas, uma: ou alguém abre as turbinas e deixa o nível das águas ir baixando calma e controladamente ou a água galga, de forma incontrolada, todas as estruturas. E é um Deus nos acuda. Para mim, claro. Porque quando as emoções e o amor me invadem, sem lhe conseguir pôr mão, peço mesmo a Deus que me acuda, pois é quem pode. 

Sinto-me imersa. Só com a cabeça à tona da água. A respirar para sobreviver. Não gostaria de não ter a capacidade de sentir tanto. É talvez a melhor característica que tenho. Todos os talentos dados por Deus são de honrar e de colocar ao dispor dos outros. Da melhor forma que soubermos e formos capazes. Esta característica tem-me dado muitas alegrias, tem-me feito muito feliz. Mas como tudo na vida tem um lado contrário, também me tem feito sentir muita tristeza, muita impotência e muitas lágrimas têm rolado pelo rosto abaixo. Por vezes quase que me afogo nelas e só a cabeça fica à tona da água. Tudo o que é imenso pode ser demais para a saúde do nosso coração e da nossa alma. Daí que peça tanto a Deus que me ajude a lidar com o que sinto. Para não adoecer. Por vezes quase que me sinto adoecer no coração e na alma. Guardar a maior parte do que sentimos torna-se grande demais para conseguirmos aguentar. Às vezes parece-me que não vou aguentar mais. Apetece-me desistir. Apetece-me desligar o coração. Apetece-me hibernar. Ou outra coisa qualquer que me faça anestesiar. E, aproveitando a boleia, desligava também os pensamentos. Só por um tempo, para conseguir descansar. Para me restabelecer. Para ganhar forças. Mas não é possível. Felizmente, parece-me. Deus, na sua infinita sabedoria, não me deu um botão para desligar. Eu cairia na tentação de o fazer.


Esta coisa de ter tanto amor no peito e de não poder fazer grande coisa com ele também é uma grande maçada. Porque apesar de ser a força mais poderosa do universo e de curar quase tudo, também tem o seu lado B. Para se dar, o outro também tem que querer ou saber receber. Nós queremos dar de uma maneira e outros têm a sua própria maneira de receber. E estas coisas baterem certo, de forma complementar, é mais difícil do que eu sei lá!!! Em todos os tipos de amor, com pais, com filhos, com amigos e com outras pessoas especiais é difícil de encontrar um bom equilíbrio entre o dar e o receber. Infelizmente, só o amor não chega. Custa-me muito aceitar esta coisa de só o amor não chegar. Para quem vive a essência do amor, só o amor não chegar, é difícil de enfiar pela goela abaixo. Talvez esta seja uma das minhas grandes aprendizagens pois a minha vida inteira tem sido assim. Cheia de experiências em que só o amor não chega. Ou o amor que tenho parece que nunca é o suficiente para fazer a diferença. Tenho tido tantas experiências destas nos diferentes contextos da vida que haverá uma grande aprendizagem de alma a tirar destas minhas histórias. Para além de trabalhar a questão da aceitação do outro tal e qual como ele é, e amando-o tal e qual como é, com desapego, ainda há outras aprendizagens intrincadas nestas situações. Ainda não consigo apenas deixar o meu amor pairar sobre os outros. Só porque sim. Sem dor. Apenas pairando, estando presente quando é requerido. Apenas em dádiva pura e dura. Ou pura e doce - será talvez a expressão mais adequada à conversa.

O meu problema é que não tenho muito jeito para pairar. Tenho energia demais para isso. Tenho o coração cheio demais para ser leve o suficiente para pairar. Ainda não atingi esse nível espiritual. Ainda me descabelo a pensar o que hei-de fazer a isto tudo que tenho cá dentro. Ainda me destroço a pensar que apesar de amar tanto esta ou aquela pessoa, isso não interfere nada nos caminhos que escolhem, particularmente quando sei, também de coração, que estão a fazer asneira. Ainda não consigo lidar com isto de forma serena. Pelo menos com a serenidade que eu gostaria. A serenidade necessária para saber amar melhor os outros e para manter a paz no meu coração. A serenidade só traz vantagens. Quando ela me falta, tenho uns ataques de solidão. Ou de saudades, ou de outra coisa qualquer daquelas que sabem enfiar uma dor fininha no coração. Ainda não consigo ter a sabedoria e o estado espiritual evoluído o suficiente para só o amor que carrego ser suficiente também para mim. Em que amar basta. Em que ter o coração cheio é o suficiente para viver feliz e alegre a esmagadora maioria do tempo. Ainda não estou nesse degrau da escada. Ainda necessito de encontrar reflexo nos outros. De me sentir igualmente amada e querida, de forma verdadeira e pelo que sou. Não preciso de muito em quantidade. Preciso de pouco mas de qualidade. A sério. Pouco mas bom. O possível mas bom. 

Existe ainda um facto incontornável: os outros não têm que saber destas coisas, não adivinham nem têm culpa nenhuma de eu ser como sou. Isto é inultrapassável. Daí que o que há para acertar tem que ser acertado cá dentro de mim. Sou eu que tenho que lidar com estas coisas todas que sinto, pedindo sistematicamente ajuda ao Céu para o conseguir fazer. Peço sempre a companhia do Céu naqueles dias em que me sinto mais solitária por que não me consigo identificar com a maioria das outras pessoas. Adoro pessoas. Mas cada vez me sinto mais diferente. Mais virada para dentro naquilo que diz respeito ao meu âmago. Para quem é muito espontânea por natureza, isto é quase um contra senso. Contra-natura. É uma forma de defesa, de sobrevivência. Às vezes não consigo entregar mais. Porque tenho que guardar alguma coisa. Se não posso esperar retorno, se não posso esperar que os outros me nutram, me amem também com muita força, então tenho que guardar qualquer coisa cá por dentro. Tenho que me reservar. Não é a minha primeira pele, mas é a que visto para ir conseguindo lidar até com a própria força que tenho. Com o ímpeto. Tenho que tentar colocar algumas fronteiras aos derrames e sangrias. Sangro muito. A dor de coração faz-me muita companhia. Já estou habituada. A minha sorte é que a alegria também faz parte da minha essência e consigo tirar alegria de coisas muito pequeninas e insignificantes. E consigo fazer com a minha alegria e as minhas dores de coração convivam civilizadamente. E lá vou andando. Sempre cheia de esperança. Esperando que a paz se instale definitivamente no meu coração. Esperando que todo o meu amor seja leve o suficiente para apenas poder ser, para poder pairar como uma grande ave que, apesar do seu porte, consegue pairar no céu com toda a elegância, aproveitando a força do vento para seguir o seu caminho de forma descansada, sem esforço e sem dor.

Sigo com esperança de que tudo o que tenho no coração seja suficiente para mim própria. Tenho ainda a esperança que a força e o poder curativo do amor atuem de forma mais rápida, que não demorem tanto tempo. Tenho a esperança que o amor seja a luz que ilumina a maior parte das escolhas das pessoas. Que escolham os caminhos pelo amor e não pelo medo. Que façam opções pelo que as faz feliz e não pela recusa de enfrentarem os problemas e as dores. Tenho a profunda esperança que o amor seja a alavanca que ajuda a que se tenha a coragem de se fazer as opções de vida que vão ao encontro da nossa alma, da nossa essência, do nosso caminho original. Tenho a esperança que o amor que cada um de nós tem no coração seja o suficiente para que este se faça ouvir. Ouvir o coração é o segredo para se seguir o caminho original. 

Se eu não vivesse de esperança, teria mesmo que pedir a Deus um botão para me desligar de vez em quando. Só para descansar um bocadinho…

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