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Neste momento

Agora é mais uma daquelas vezes em que necessito escrever para aliviar a impotência que sinto. Saber das coisas e não poder fazer nada para as alterar ou para as ajudar a resolver é difícil de digerir. Eu até tenho digestões muito fáceis. Não preciso de muito tempo para lidar com as coisas ou para falar sobre elas. Costumo dizer que nem tenho estômago, devo ter uma moela, daquelas que tritura tudo. Deus deu-me esta graça de rapidamente ser capaz de trocar por miúdos tudo aquilo que penso ou sinto. Mas esta sou apenas eu. É a minha forma de ser. Cada qual tem a sua forma de lidar com o que sente, com as coisas boas e com as más. Há malta que precisa de tempo para digerir, para pensar, para engolir, para se encontrar. E é fundamental que se respeite estas diferenças na forma que cada um de nós tem para lidar com as emoções e com os sentimentos. No fundo, são as diferenças na forma de se lidar com a própria vida. Existem uns de nós que encaram os problemas de frente, peitudos face ao que se apresenta. Há outros de nós que fazem as tais fugas para a frente, ou que vão empurrando as situações com a barriga. E existem outros ainda que em função da situação, utilizam uma ou outra estratégia de lidar com o que os inferniza. Existem pessoas para todos os gostos! E ainda bem. Por isso é que o mundo é tão bonito e as pessoas tão únicas!

O lado B desta história toda é quando estamos a ver pessoas que amamos muito a sofrer não só com as situações onde estão metidas mas, principalmente, pela forma como lidam com elas. Sofrem o dobro do que seria necessário. Sofrem durante muito mais tempo por teimosia. A forma como se lida com os problemas e com as curvas da vida faz toda a diferença. Para além da coisa em si própria, o busílis está na forma como se lida com essa mesma coisa. O segredo para aliviar o sofrimento para que este seja apenas o estritamente necessário está na forma de abordagem e de resolução. Mais do que o conteúdo, parece que a forma é talvez o fator mais importante nas nossas vidas. Mais importante que as emoções, que os sentimentos ou que os pensamentos é o que fazemos com eles. De que forma os trabalhamos internamente? De que forma os colocamos em prática? Talvez aqui esteja o segredo de um coração mais pacificado e de um pensamento mais sereno.

Neste momento experimento alguma falta de paz por sentir que nada posso fazer para ajudar quem necessita de dar rumo e de fazer algumas transformações na sua vida. Nada posso adiantar na forma como pessoas que me são tão queridas estão a lidar com a vida, ou até a desvalorizá-la. A gastá-la de forma descontrolada, a quase morrer de exaustão. A esticar limites por tudo quanto é lado. Os limites são como as costuras. Quando se esticam demais, rebentam. Ver quem nos é tão querido a passar pela vida sem dela usufruir, sempre a correr, sem saber exatamente porquê. Ou pelo menos, sem pensar muito sobre o assunto. Quando o cansaço se instala, os pensamentos descoordenam-se, desorganizam-se. Entram em círculos e não saem do mesmo registo. E, a atividade física e mental é tanta, que até nos poucos momentos de descanso, a coisa não funciona. Não conseguem dormir como deve de ser. Não conseguem parar e serenar a cabeça e o coração. E as decisões continuam a ser tomadas a quente, em frenesim, em função do medo. E o corpo começa a dar de si a valer. As somatizações tornam-se não só muito evidentes como muito preocupantes. E, no fundo, o medo que eu própria tenho é que a própria vida resolva parar, à força, estes queridos que não são capazes de parar sozinhos. Ou que teimam em prosseguir, contra tudo e contra todos, porque não sabem fazer de outra maneira. Porque nem disponibilidade mental têm para ouvir outras vozes e outras referências. 

Já vivi o suficiente para saber que a vida nos pára. Que a vida nos ensina que a nossa própria vida é mais importante que tudo o resto. Que as pessoas são muito mais importantes que as coisas. Que o que nos faz bem deve ser muito mais valorizado do que o que nos faz mal. Que o amor deve ser muito mais valorizado do que o medo. Que a nossa presença é muito mais importante que os recursos materiais que oferecemos. Um segundinho basta para aprendermos isto tudo. Aprendemos ainda que a fé e que Deus não se esgota na missa de domingo. Nem no Evangelho. Que a fé e Deus nos acompanham a cada segundo da nossa existência. Em todas as decisões. Não vale a pena ter uma fé imensa com apenas um cariz teórico e ritualístico se depois, na nossa vidinha, no dia-a-dia, passamos o tempo todo com medo e a usar “ses” e “mas” e a não confiar na Providência Divina. De que vale dizermos que temos Deus no coração e que confiamos nele acima de tudo se depois não tomamos as decisões baseadas nesta confiança? A vida, num instantinho, pode até questionar a qualidade da nossa fé. E que pena que esta e a sua força sejam apenas descobertas em situações extremas em vez irem sendo desenvolvidas e engrandecidas no nosso quotidiano. 

Tenho um medo que me pelo dos abanões que a vida pode dar. Normalmente vai dando oportunidades, sinais, e mais oportunidades e mais sinais. Vai dando toda a informação de que necessitamos para tomarmos as decisões que são as melhores para nós. A chatice é que, por vezes, apesar das cartas estarem todas em cima da mesa, teimamos em não ver e em não ligar às informações e aos sinais de que dispomos. E decidimos por aquele caminho porque é o único que estamos a ver. Mesmo sabendo que está errado. Que não é o melhor. Por vezes, quando não sabemos exatamente o que é melhor para nós (o que é natural pois certezas só Deus tem), podemos fazer o processo ao contrário e, pelo menos, sermos capazes de discernir o que não é bom. O que não queremos. O que nos faz mal. Podemos não saber qual o caminho a seguir mas pelo menos sabemos qual não devemos seguir. Podemos não saber qual a rota certa mas podemos saber qual a rota que não deve ser traçada. E isto faz um mundo inteiro de diferença. Isto faz com que não se siga um caminho errado apenas porque é o único que conhecemos ou que vemos. E ter fé, confiar no Céu, é ter a coragem de não seguir pelo único caminho que se apresenta (porque é errado), tendo a certeza que depois de fazermos esta escolha, de fazermos o que nos compete - a nossa parte - Deus encarregar-se-à de nos abrir o caminho certo. Aquele que é direitinho que nem um fuso. Ter a certeza que as soluções aparecem depois das boas escolhas feitas. Aquelas que são feitas em função do amor e não do medo. As boas escolhas são sempre aquelas que nos deixam em paz connosco próprios apesar do que o mundo possa pensar. São sempre aquelas que nos permitem viver mais plenamente e em paz. Quando se escolhe para se evitar problemas ou situações menos boas, estamos a fazer com que estes problemas aumentem até explodirem. E as situações agudizam-se. E, tal como nas guerras, há sempre danos colaterais. Quando escolhemos mal, para além do nosso sofrimento, existe sempre mais alguém que sofre com isso. As consequências das escolhas menos boas costumam ser um pouco virulentas. As tristezas espalham-se por quem tem coração. A angústia instala-se. E não adianta fugir de nada. Nem fugir de tudo. 

Neste momento preocupo-me com vidas assim. Vidas que eu estimo tanto mas que se encontram em desespero. E eu a vê-las sem poder mexer uma palha. Apenas posso ir pairando. Aguardando serenamente. E oferecendo o que tenho de melhor: o meu amor e a minha constância. Esta impotência faz-me doer. Dá-me nervoso miudinho e aflição no peito. Ver os nossos queridos a esborracharem-se contra a parede e não poder fazer nada para evitar nem amortecer a pancada, é difícil de tragar. É assim que me encontro no momento…a observar os esborrachanços e os sofrimentos. E a senti-los também, claro está. Têm sido uns tempos um bocadinho difíceis. No entanto, também sei que cada um tem o seu próprio trajeto, as suas aprendizagens e a sua missão a cumprir. E, de forma mais suave (se formos bons alunos) ou de forma mais violenta e dolorosa, acabamos por chegar onde temos que chegar. Acabamos por aprender o que nos fazia, à partida, tanta falta. Para o nosso bem, para a evolução da nossa alma. Ninguém pode fazer estes trajetos por nós. A maior parte das coisas mais importantes da nossa existência acontecem dentro de nós. A felicidade é um estado interno e não externo. Por mais voltas que se dê, esta é a verdade. A esmagadora maioria da nossa vida é vivida internamente. Parece absurdo, não é? Mas não é. E o nosso maior problema é que buscamos fora tudo aquilo que devemos encontrar dentro de nós. Outro problema tem a ver com o facto de desvalorizarmos o que sentimos, o que intuímos, o que pressentimos. Costumamos dar mais valor ao que racionalizamos, ao que conhecemos e ao que amealhamos externamente. Tudo ao contrário daquilo que a nossa alma precisa para evoluir. Valorizamos o conhecimento em detrimento da sabedoria. Valorizamos a razão em detrimento do coração. E, no meio desta existência tão racionalizada, planeada e programada, com tão pouco espaço para os sentimentos e emoções, lá vem a vida e troca-nos as voltas todas. Vira-nos de cabeça para baixo. Troca aos propósitos e vira o fim para o princípio e o princípio para o fim. Tudo isto para nos tornarmos melhores pessoas. Infelizmente, por vezes, só entramos no carrilho certo, no carrilho original da nossa alma, a toque de caixa. A toque de susto. A toque de perda. Se de repente virmos a morte a passar à frente dos nossos olhos não pensamos no dinheiro que temos no banco nem no trabalho que deixamos por fazer. Pensamos nas pessoas que mais amamos. Pensamos que não lhes dissemos o quanto as amamos e o quanto nos faziam falta. Vimos o filme da nossa vida com 2 ou 3 pessoas. As mais importantes. Pensamos nos filhos, nos amores e no quanto gostaríamos de ter passado mais tempo com eles. No quanto gostaríamos de ter amado mais e melhor. Pensamos em como teria sido bom deixarmo-nos amar mais e melhor. Vem-nos à consciência tudo o que de emocionalmente foi mais importante na nossa vida. O resto é conversa e miudezas. Se assim é, porque não se vive a vida centrados no que efetivamente interessa? Centrados nas pessoas e nas emoções boas. Tudo o resto são apenas processos de suporte para que estas áreas importantes da nossa vida sejam o melhor vividas possível. Porque não é isto simples se é tão evidente?

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