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O sabor amargo da impotência

E parece que não acabo ano sem o centésimo texto...já é tarde mas o sono foi para outras paragens. Talvez daquelas mais quentinhas e sossegadas. Estados serenos que não conseguiu encontrar hoje em mim para se poder instalar e passar a noite em pleno. O sono também tem as suas vontades e não se deixa comandar assim às primeiras. Quando percebe que não consegue a paz de que necessita, desaparece de cena. Não adianta chamá-lo. Quanto mais se chama, mais ele nos foge. O sono também tem cada uma...faz uma pessoa desatar a escrever a altas horas da noite quando deveria estar a usufruir da sua tranquilidade. Enfim...

Quem me haveria de dizer que o meu centésimo texto não seria um daqueles cheio de alegria e de paixão pela vida...afinal sai-me uma coisa murchinha, cheia de melancolia e de penas da alma. As penas têm a mania de se atravessar à frente das gotas. Também querem os seus 10 minutos de fama. Dizem que apesar de serem penas também fazem parte da alma, tal como as gotas que passam a vida a derramarem-se aqui por estes sítios. Tento fazer de conta que não, mas a verdade é que as penas estão cheinhas de razão. Sem penas não existem gotinhas de sabedoria nem gotinhas de alegria. A alma é um todo uno que integra o ser e a sua antítese. Portanto, nada a fazer. As penas querem desfilar, então que assim seja!

Hoje acordei de lágrimas nos olhos. Quando tal acontece, o dia é uma torneira pegada. Por vezes, chorar ajuda. Liberta. Alivia. Choro sempre que me apetece. Se não chorar, esta energia vai ter que sair de qualquer forma e não me apetece nada passar a vida a somatizar e a ter dores por tudo o que é articulação. A minha principal causa de tristeza tem a ver com o sentimento de impotência. O de não poder fazer mais nada sobre esta ou aquela situação, sobre esta ou aquela pessoa. Por vezes, estou a entender exatamente qual é a ferida emocional, qual é o problema, qual é a solução com as circunstâncias do outro e não posso nem devo fazer nada com aquilo que sei e sinto. Tenho que ficar quieta. Tenho que respeitar aquilo que Deus nos deu de forma muito sagrada: o livre arbítrio. A escolha, a tomada de decisão de cada um. Se Deus não interfere no livre arbítrio de cada um, quem sou eu para interferir. Existem decisões que só o próprio deve tomar, de forma serena, olhando todos os sinais que a vida lhe dá e escutando tudo o que o coração tem para dizer. Ordenar os pensamentos e colocar as coisas na devida perspetiva. Com a importância que efetivamente têm. Mas custa-me muito estar a ver as coisas mesmo à frente dos olhos e não poder apontar as linhas mestras, os caminhos e as alternativas. A impotência é uma maçadora. Castra-nos a possibilidade de ajudar mais e melhor. Pelo menos é o que me parece. No entanto, não podendo fazer mais, faço o melhor que sou capaz e tudo o que está ao meu alcance. Faço o que o coração me diz para fazer, apesar dos pesares. E se tenho muita vontade de dizer alguma coisa ou fazer alguma coisa mas que faz o coração apitar, ligar o semáforo e fechar a cancela, pois respeito e fico quieta a curtir a companhia desta tão maçadora intrusa - a impotência. Às vezes engulo-a para não ter que lhe sentir o sabor amargo. Outras vezes não consigo. Lá tenho que a mastigar bem mastigadinha até me passar pelo estreito. Estamos numa dessas alturas. 

As questões nem se colocam no respeitar das decisões dos outros. Muitas vezes colocam-se num patamar anterior, no respeitar da liberdade de escolha de cada um. Claro que se pode ajudar a colocar as coisas em perspetiva, a realçar este ou aquele aspeto ou ainda a colocar as cartas e as variáveis todas em cima da mesa. Por vezes até parece que se desajuda. Mas tudo o que se faz por amor, em teoria, é bem feito. Tudo o que se faz a pensar na busca da felicidade do outro, em princípio, está certo. Mas só se pode e só se deve ir até onde o nosso coração mandar. E o coração manda sempre respeitar de forma sagrada a liberdade de escolha de cada um. O caneco maior é quando o ajudar e desejar que o outro encontre o seu caminho, nos poderá afastar. A ironia é que para que um se encontre o outro poderá ter que se perder. Mas tudo o que é sagrado, tal como a liberdade e o amor, tem destas coisas. Uma escolha verdadeira tem que ser feita em liberdade. Um amor a sério tem que vir de dentro para fora. Sem negócios, sem restrições e sem medo. A liberdade e o amor são coisas muito simples. Encerram em si a simplicidade divina da essência de cada um. Só precisam de uma alavanca corajosa. A coragem também só pode vir de dentro para fora. Não pode ser carregada pela boca. Depende do âmago de cada um. Depende do que cada um é capaz de fazer com o amor que dedica a si próprio e aos outros. A uns, o amor dá coragem. A outros dá medo. E é assim. Ninguém é melhor do que ninguém. Somos diferentes. Com diferentes formas de lidar com o que sentimos. Com o amor e com o medo. Por vezes, alguns de nós ainda deixamos que o medo seja mais forte do que o amor, do que a esperança e do que a fé. E não é por mal ou por cobardia. É por falta de coragem. É porque até para corações muito valentes, existem decisões que podem mudar completamente o rumo das suas vidas. E essas decisões são muito difícies. São muito dolorosas. Podem ter danos colaterais irreparáveis. Este tipo de decisão tem que ser tomado de forma serena. Tenho profundo respeito por quem está neste tipo de situação. Quase que lhe sinto as dores. Sinto as dores que são minhas e as que não me pertencem. Como é que o sono não há-de ficar espantado? Foge de mim a sete pés...e só fica a impotência a acompanhar a minha noite. 

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