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O Natal e a sua antítese

Com a época natalícia  a aproximar-se a passos largos, também eu entro em turbilhão. Entro em espiral por todas as contradições e dessincronias que esta época acarreta. Por princípio e por natureza, gosto muito do Natal. Particularmente pelas memórias que traz. Pela alegria e excitação que me marcou a infância, numa época que era vivida de uma forma muito mais simples e fraterna. Em que o mias importante era o facto de se juntar todos os que nos eram queridos. Fazia-se uma festa. Tinha preparativos, cores, cheiros e uma magia tão própria. Parece-me que a magia estava no facto de ser criança. E, quando somos crianças, a magia acontece a qualquer momento. Parece-me que mais do que tudo, o Natal é um mundo que guardo cá dentro com memórias emocionais muito queridas.

Hoje em dia continuo a gostar do Natal. Adoro ver o Natal a nascer pela cidade. As decorações, as cores, as luzes, são qualquer coisa de espetacular. Parece que são lareiras que aquecem as vistas e os corações. É bonito a valer. E gosto de todas as histórias e de todas as comemorações à sua volta. Gosto da fantasia e da magia que lhe são associados. Gosto de laços, de corações, de estrelas, de bolas, de árvores de natal, do vermelho, do verde e do dourado. Adoro o ambiente natalício. Na verdade, eu adoro qualquer tipo de festa ou de comemoração. Tudo o torne as pessoas mais felizes ou mais sorridentes.

Nesta fase em que penso nas chamadas (boas) festas é que as contradições começam. E dou por mim a refilar com a época que se avizinha. Como cristã que sou, o Natal tem um significado especial. Comemora-se o aniversário do nosso melhor amigo - Jesus Cristo. E que melhor maneira existe de o honrar do que perpetuar os seus ensinamentos. E basta um ensinamento. Simples como era, Jesus Cristo deixou-nos um ensinamento tão simples, tão abrangente e tão profundo. Simples mas que resolvia os problemas todos do mundo. De uma assentada ficava tudo resolvidinho se tivéssemos o seguinte lema gravado no nosso coração: "Ama e faz o que quiseres!". Resumo a doutrina a estas 6 palavras. Eu também adoro a simplicidade. E procuro pensar sobre a beleza do que é simples. 

"Ama e faz o que quiseres!". Que fácil tudo seria. Que maneira maravilhosa de recordar Jesus Cristo. O que se faz por amor nunca pode ser errado nem dar asneira. Por amor nunca se ofenderia o próximo. Nunca se prejudicava ninguém e haveria a compulsão para ajudar, partilhar e distribuir. De uma forma muito natural, sem se sequer se pensar muito sobre o assunto. Se o amor nos movesse, a todos, o mundo seria um paraíso. Seis palavrinhas simples transformariam este planeta. 

O que se pode atrapalhar esta equação é a questão do amor. Este amor, de cariz incondicional, universal, libertador e pacificador é que é o busílis de toda a nossa existência, história e situação atual. É a sua falta que torna este mundo tão infernal para tantos...O amor tem sempre que começar por cada um, lá dentro do seu âmago. Quando não começamos por nos amarmos, cada um a si próprio, não somos capazes de amar nada nem ninguém. Não conseguimos atingir a essência desta força. Como consigo acreditar em algo que não sinto por mim próprio? Como posso acreditar no amor que os outros me dedicam se não me considero digno desse amor? Estas são as questões mais básicas da nossa forma de nos relacionarmos connosco próprios, com os outros e com o mundo. E a falta de amor causa medo. E o medo causa as maiores atrocidades. A falta de amor também causa culpa. A culpa é tão ruim como o medo. São uma dupla destrutiva, embora não indestrutível. A culpa tolhe-nos as ações. Torna-nos pequenos, miseráveis, com incapacidade de nos perdoarmos a nós próprios. Todas estas maleitas da alma são tratadas com amor. Com perdão e com justiça. Mas tudo tem que ter início de dentro para fora. São processos difíceis mas possíveis e desejáveis.

E por tudo isto é que eu também gosto do Natal. Parece que é (única) altura do ano em que se pode falar de amor, de perdão, de solidariedade e de mais um conjunto de coisas que durante o resto do ano são piegas ou lamechas. Ao menos que se fale nesta época!  Claro que também me irrita a corrida desenfreada às compras e aos presentes, a loucura instalada quando se esquecem os verdadeiros valores que são a força motriz das comemorações. Irrita-me ainda a caridadezinha para aliviar as consciências e cumprir obrigações religiosas ou de outra espécie. Tudo isto me irrita solenemente. Existem pessoas que se juntam porque é "obrigatório" ou "bem" e não porque querem estar juntas e o Natal é uma maravilhosa desculpa para que isso aconteça. Existe este lado sórdido desta época que me molesta. Que me ofenda. Que me entristece. Como costumo dizer, não há festas em que eu não chore. É fatal como o destino. Acontece sempre qualquer coisa que me faz derramar lágrimas em cascata. Qualquer episódio familiar, qualquer situação na rua, no país, etc. Aguardo para saber qual será a deste ano. O ano passado passei a manhã de Natal no veterinário em que um dos cães da família teve que ser eutanasiado. Destroçou-me o coração. Parece-me que vou guardar essa marca emocional para sempre. Enfim...

Incomoda-me pensar que existem muitas pessoas que sofrerão ainda mais com a sua pobreza e escassez, face à abundância (e até opulência) características da época. Quem vive em solidão, sente-se ainda mais só nesta altura. Quem nada tem ainda mais pobre e insignificante se sentirá nesta época. Quem sofre por ausência, distância ou escassez, sentir-se-à ainda pior nesta altura do ano. Deve ser esta a contra força do amor que paira no ar. Tudo tem a sua antítese e o Natal também tem a sua. 

Cada vez mais procuro retomar as raízes da época, viver a sua essência e a sua magia. Procuro retirar os ensinamentos. Colocar-me no lugar dos que não podem, mesmo que quisessem, viver o Natal em magia, em família, em festa, em partilha, em calor, em aconchego, em amor. Quantos são os que no Natal só agravam o seu sofrimento? Quantos serão? Uma época de tanto amor e de tanto sofrimento! Tudo em simultâneo. Se este amor fosse em bom, e se se estendesse por todos os dias do ano, não seria necessário festejar, por decreto, o nascimento do Salvador do mundo. Seria festejado todos os dias. 

A mim parece-me que sempre que amamos bem, o Céu festeja connosco. E que, 2015 anos depois, Jesus Cristo volta a estar entre nós de uma forma ainda mais especial: nos nossos corações. E poderá renascer todos os dias, a todas as horas, em todos os minutos. Deve ser festa da rija no Céu quando nós, ao amarmos bem, fazemos o que nos dá na real gana!

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