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De um ano para o outro

O ano de 2015 ainda não acabou e está difícil de acabar. Um ano novo renova a esperança. E eu sou uma pessoa que vive muito de esperança. Quando ela começa a entrar em stock mínimo, começo a torcer-me por todo o lado. Este final de ano está a doer. Tem acontecido, nos últimos anos, que esta quadra festiva, Natal e Passagem do Ano, dá conta de mim. São alturas difíceis. De celebrações por decreto, com excessos por um lado e muita escassez pelo outro. Os dois lados de uma moeda levados ao extremo. Toda esta energia que anda no ar dá-me alegria mas também rebenta comigo. Tudo à grande, como é de meu costume. Por ser uma época de balanço por excelência também o olhar para dentro e o refletir sobre os principais acontecimentos e situações dão que falar cá nos meus mundos. É altura de parar para pensar e de refletir sobre mim própria e sobre as orbitas à minha volta. Os balanços são sempre difíceis. Doem apesar de pedagógicos. Foi um ano que doeu muito porque muito aprendi. Caíram-me muitas fichas, descobri muitas coisas sobre mim própria e sobre os outros à minha volta. Aconteceram-me coisas que não estava nada à espera que acontecessem. Desprendi-me de outras tantas. Cada vez estou mais desprendida das coisas. Cada vez mais me interessam muito menos coisas e cada vez gosto mais de menos pessoas. Este ano aceitei definitivamente as minhas diferenças relativamente aos outros. Muito mais solitária mas muito menos só. Aprendi a gostar da minha própria companhia. Descobri os meus mundos, coloquei-os em ordem e aceitei-os. Aprendi a aprofundar as minhas diferenças sem me sentir tão esquisita e sem sentir a mágoa de cada vez mais me afastar dos outros. Iniciei o processo de aprendizagem no que diz respeito a procurar dentro de mim a paz, a alegria, a espiritualidade e tudo o que me faz feliz sem me importar com o fosso que isso possa criar e aumentar nas minhas relações com os outros. Encontro-me a fazer esse processo de aceitação. Sou muito diferente da maioria das pessoas e isso força a algum isolamento. Isso faz com que a maioria das pessoas não me compreenda e, pior do que isso, que não acredite naquilo que vê. Na maioria dos casos não tenho direito ao benefício da dúvida. Mas é assim a vida. Apenas procuro aceitar este facto com toda a serenidade possível. E, na verdade, já não me importo tanto. Na maior parte das vezes já nem quero saber. E este não querer saber não é com fuga para frente ou a fingir que não está a acontecer. Não é nada disso. É apenas o já não querer saber. Já não é importante. Já consegui não gastar muita energia com o que não tem solução ou verdadeira importância. Procurei canalizar a minha energia para o bem, para o bom, para o que me dá alegria, para o que vale a pena cá dentro do meu conceito. Este meu conceito do mundo e da vida pode até estar errado. Quem é que é o dono da verdade? Só Deus. Eu apenas procuro viver cada vez mais de acordo com aquilo que eu julgo que é a verdade. Com a minha forma de ver tudo o que me rodeia. Estar cada vez mais em sintonia com a minha verdade é um dos meus objetivos de vida. Mesmo que isso implique mais reserva da minha parte, mesmo que tenha que marinar mais vezes no meu casulo, mesmo que esteja mais só. Mas estou muito mais em paz. Mais feliz. Mais serena e mais sintonizada com o Céu. Esse foi um dos desenvolvimentos exponenciais de 2015. A minha espiritualidade deu umas piruetas de tal forma que nem consigo acreditar em toda a evolução que fiz. Ainda não consigo falar disso assim tão abertamente mas lá que a evolução aconteceu, aconteceu. E de forma muito abundante. Por vezes até um bocadinho assustadora. Mas este assunto há-de ficar lá para a conversa numero 200 deste meu mundo. Por enquanto ainda me apetece desbobinar outros assuntos que não este. 

No decorrer de este ano fiquei a conhecer-me muito melhor. Trabalhei as questões do desapego e da relatividade das coisas. Fortaleci a minha fé e voltei a fazer, dentro do possível, tudo o que me dá alegria e felicidade. Aprendi a amar-me melhor. E tenho tentado ser menos exigente comigo própria e com os outros. Com tanta coisa feita no mesmo ano, é de se esperar que as dores também sejam muitas. De facto houve algum renascimento. E as dores de parto são sempre dores de parto. Doem que se fartam mas o resultado é objeto de amor profundo. E mais uma vez digo que comigo é tudo à grande. A quente e a frio e, como tal, quando dói, dói a sério e quando é bom, é ótimo! Tudo em profundidade e em extensão e energeticamente muito poderoso. Aprender a ser cada vez mais paciente e mais tolerante é doloroso mas compensa. A energia que se gasta no amor é muito mais forte do que a que se gasta na ira. Eu sou dada a rosnar. Pavio curto que faz rebentar a bomba. Liberta-se energia mas não faz bem a ninguém. É um falso alívio momentâneo que pode ter muitos danos pessoais. Magoa os outros e deixa-nos muito pouco orgulhosos de nós próprios. Também tenho aprendido a lidar melhor com esta minha vertente pouco elegante. Esta zanga fácil é um dos venenos que trago comigo. E tenho que o controlar muito bem controladinho para não espalhar toxicidade por lado nenhum. 

A energia que procurei gastar no amor é uma energia que vai nutrindo a alma. Que faz bem mesmo quando é invisível. Mesmo quando os outros não se apercebem do amor que lhes dedicamos ou que colocamos naquilo que fazemos. Mas o amor está lá, a fazer das suas. Nem que seja apenas a fazer bem, um bem indefinível ou até impercebível. Com simplicidade, com sinceridade. Fortaleci a minha ideia de que o amor, universal, incondicional e livre é a força mais poderosa do universo. Não conheço outra maior. Apesar de isto ser muito difícil de explicar ou fazer entender. Sabe-se que assim é e pronto. Sente-se a sua força na alma. 

Um outro processo ao qual tenho que dar continuidade é o de aceitar plenamente que tudo demora o seu tempo. Que os ritmos são altamente pessoalizados. Cada um tem o seu e que o importante é lá chegar independentemente do tempo que se demora. Isto ainda é um bocadinho difícil de aceitar com um sorriso no rosto e com paz no coração. Trabalho de casa para 2016. É difícil encaixar na minha dura cabeça que, por vezes, o importante é processo em vez do resultado. Que o caminho é que traz o verdadeiro benefício. A verdadeira aprendizagem. Se conseguir integrar isto no meu DNA, serei muito mais feliz e saberei amar muito melhor os outros. E serei ainda menos exigente e mais companheira no sentido de saber acompanhar os percursos em vez de precipitar as soluções. Se conseguir integrar tudo isto no meu sistema serei muito melhor pessoa. E com muito mais sabedoria. A sabedoria tem um preço muito alto…custa muitas lágrimas salgadas. Às litradas. Mas vale a pena, vale tanto a pena…a sabedoria é adquirida a sangue, suor e lágrimas. Por isso é preciosa. 

Outro registo do ano que está acabar é o facto de me ter voltado a apaixonar. O estado de paixão, de amor, para mim é perfeitamente natural já que não sei viver sem estes ingredientes. Vivo de esperança mas também de amor e paixão pela vida, pela natureza, pela criação, pelas minhas crias e pelas pessoas que moram no meu coração. Mas este apaixonar-me foi para além deste expectável em mim própria. De repente, sem estar à espera, a vida faz com que apareça uma estrelinha que me ilumina de forma nova e diferente. E eu nem sequer andava a contar as estrelas. Andava muito entretida na minha vidinha. E quando andamos distraídos, de repente chocamos com uma luz intensa que nos encadeia e nos faz perder um bocadinho o chão. O amor é sempre muito bonito, seja que de forma for. Mesmo que seja solitário. Mesmo que só tenha uma direção. Vale sempre a pena. Apesar da tristeza que também pode acarretar e das lágrimas que pode fazer verter. Mesmo quando se tem um satélite que consegue detetar o estado do coração do outro sem que ele nos diga. E nada poder fazer com isso. Amar é, de facto, ter um pedaço de nós que anda por aí, ao Deus dará, e que não nos pertence. Mas que se sente e que nos faz mossa. Comigo é sempre tudo à grande e esdrúxulo. Nunca nada é linear, apesar do esforço que faço para que tudo seja o mais simples possível. Este tipo de amor esdrúxulo é como uma veia que tem um furinho e que vai sangrando, devagarinho, gotinha a gotinha, de dia e de noite, sem descanso. Paulatinamente e em moinha. De repente a exaustão instala-se e não se sabe porquê. Deus deu-me muito amor para sentir mas também me tem dado a lucidez para saber de onde as coisas vêm e o que são. A lucidez por vezes também é uma chatice. Faz com que a pessoa se reserve e se proteja quando deveria escancarar os portões. A vida também tem destas coisas. Por vezes, temos que dosear o que de mais bonito temos em nós. Temos que pensar na medida em que soltamos o que demais puro e luminoso nos constitui. Temos que gerir esta maravilhosa energia que nos anima. Mas porque raio se há-de ter que gerir o amor?! Isto sim é uma pena. Não podermos oferecer sem restrições o que melhor temos. Mas antes de tudo o que nos anima está o princípio da liberdade. E nestas coisas do amor, também é necessário que o outro queira receber de forma livre. Nem sempre se é capaz de receber coisas muito boas apesar de oferecidas sem negócio nem “ses”, só porque sim. Primeiro tem que se acreditar que é possível o amor sem “ses”, sem cobranças, sem amarras nem rédeas. Depois tem que se querer. E contra isto, nada a fazer, nenhuma palha a mexer. Só ajudar que o outro encontre o seu caminho de felicidade quer passe por pairar sobre o nosso quer nos afaste dele. As coisas são como são…enfim. Ano intenso, este, não tem sido? Cá por mim, estou desejando que acabe. Mesmo que acabe em tristeza, com lágrimas. Parece que o início de qualquer coisa nos faz voltar a sorrir. E sorrir é fundamental. Mesmo quando o sorriso é triste. Um sorriso triste não deixa de ser um ato de coragem. Coragem para continuar, para remar a favor ou contra. E por vezes, um sorriso ilumina de tal maneira que a sua luz consegue chegar à alma. E a esperança volta. E o caminho volta a abrir-se. E a vontade de o percorrer torna-se mais forte do que tudo, apesar das pedras, dos buracos, dos tropeções, das arranhadelas e dos joelhos esfolados. Nestes caminhos, as surpresas escondem-se a cada metro, à nossa espera. Também se escondem outras coisas menos simpáticas. Mais difíceis de ultrapassar. Mas quando não as conseguimos resolver a bem, as lágrimas lavam tudo. Desinfetam. Depois é deixar que o tempo resolva o resto. E assim se vai andando de ano em ano, até se retornar a Casa, levando a única bagagem possível de carregar – um coração cheio de amor.

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