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Equilíbrio

Os travões são peças fundamentais não só nos automóveis e meios de transporte em geral como também no relacionamento interpessoal. Tenho andado a refletir sobre este assunto. Claro que esta reflexão tem uma raiz de vivência. Sendo uma pessoa cheia de pensamentos e com mundos e mundos por dentro, há sempre coisas a borbulhar na minha cabeça e no meu coração. Ainda por cima sou extrovertida, espontânea e enérgica. Embora seja cada vez mais reservada em termos daquilo que partilho com os outros e com o mundo, existe um conjunto (pequenino e especial) de pessoas com quem tenho vontade de partilhar cada vez mais. E aqui é que entram os travões. Com ABS e tudo. Muitas vezes tenho que me conter, tenho que guardar, perceber se é ou não o momento para desapertar o garrote. O tal que controla o fluxo entre as minhas fronteiras e o mundo.

Para se poder desapertar o garrote e aliviar o travão, é necessário perceber-se qual é medida dos outros. Isto porque não se pode despejar e pronto. É muito importante que o outro seja capaz de receber o que temos para partilhar ou oferecer. Como alguém que mora no meu coração disse e muito bem, o segredo não está no dar, está sim no receber. E é verdade. Não adianta partilhar aquilo que o outro não entende ou não é capaz de conter em si próprio. E digo isto sem nenhum juízo de valor. Cada um de nós é capaz apenas daquilo que é capaz. Sem culpas nem julgamentos. A mesma pessoa consegue coisas diferentes em momentos diferentes. Daí que seja tão importante pensar-se nos outros até quando lhes estamos a oferecer coisas boas (pelo menos que nós pensamos que são boas). Não adianta dar um monte de mimo a quem não está em condições de o receber. Isto aprende-se muito bem com os adolescentes. Uma das minhas crias (adolescente) diz, com muita sabedoria, que os adolescentes são como os gatos, só recebem festinhas quando eles querem. Não quando os outros querem dar. Mais uma vez, a questão do receber. Penso nisto tudo muitas vezes. Até porque gosto muito, muito, das pessoas de quem gosto, sou assim como rio, daqueles com muitos rápidos e posso levar tudo à frente por gostar tanto. E por querer tanto bem. Como tenho sempre imensos problemas logísticos de armazenamento, nunca sei onde enfiar tanto bem-querer e tanto amor, tenho que escoar isto para qualquer lado. A primeira tendência será sempre a de direcionar o amor que tenho para as pessoas que amo. Só que nem sempre o outro tem espaço para receber e integrar tanta mercadoria. E também não tem culpa nenhuma de eu ser assim. Conjugando ainda mais uns fatores, nomeadamente o respeito que tenho pelo espaço e pela liberdade do outro, a coisa torna-se mais difícil de levar. Acresce ainda um princípio (muito meu e visto como esquisito) que só me atrapalha a vidinha: é que o amor tem que ser livre e libertador. As relações entre as pessoas têm que ser baseadas na verdade, na justiça, no amor e na liberdade. Nunca podem prender. Só encantar e cativar. Tudo isto assim feito em açorda, é o fim da picada para se gerir. Para além de ser muito pouco compreendida nesta minha forma de me relacionar com as pessoas, passo a vida a colocar travões no que digo, no que partilho, no que tenho para dar, etc. isto sai um bocadinho caro porque meia volta lá tenho que mudar as pastilhas que se gastam muito rapidamente…

Mas não sei ser de outra maneira. Nem é essa a questão. Porque não sei ser, nem gosto, de ser morna. Tento ser equilibrada e adequada. Tendo adaptar-me, o melhor que sou capaz, à forma de ser dos outros, procurando respeitar e aceitar as diferenças e encará-las como uma riqueza e não como lados lunares e sombrios que me apoquentam e incomodam. Gosto muito de diferenças portanto nem sequer é difícil. Difícil é não deixar fluir tudo o que tenho no peito e na alma. Difícil é conter as marés e a força das ondas. Difícil é conhecer a justa medida do outro. A medida que o deixa feliz sem ser intrusiva ou excessiva. A medida que o outro é capaz de conter e de gostar. Aquela que traz valor acrescentado. A quantidade certa para que o outro seja feliz. Esta parte é que é o caneco…é a minha maior dificuldade. A gestão da minha barragem. Quanto é que posso ir soltando de água sem causar inundações. Sem que a força das águas galguem as margens dos rios. Sem que levem tudo à frente e assustem na sua passagem. Tudo o que nutre também pode sobrealimentar. Este é o verdadeiro mistério no meu relacionamento com os outros: o equilíbrio. E o equilíbrio é como um baloiço de duas extremidades ou como dois pratos da balança. Conseguir eu própria estar feliz e de bem comigo mesma e causar o mesmo efeito nos outros. O equilíbrio entre as pessoas é um busílis, não é? Também será o desafio mais interessante das nossas vidas. Parece-me. Nada interessa se o nosso coração não for capaz de sentir, de encher e de transbordar. Mesmo não se sabendo o que se há-de fazer com o que transborda do coração (ou não se podendo fazer nada), é sempre melhor ter a mais do que a menos. Nestas coisas do amor, é sempre melhor o excesso. A falta de amor é sempre muitíssimo mais dolorosa e traumatizante. Mas hoje não é esta a conversa que quero ter. Estou mais preocupada em dar conta do excesso. Tenho tanta preocupação com isto e respeito tanto os mundos dos outros que por vezes corro alguns riscos e excedo-me no travar e no controlar dos meus próprios ímpetos. Por vezes reservo-me demais, fecho a torneira e aperto o garrote. Só porque sim. Porque tenho medo de escancarar as portas e de perder o equilíbrio. E vou à minha vida. Largo e deixo ir. Mas sem paz e sem serenidade pois a minha natureza é de expandir. Tudo o que guardo e que gostaria de não guardar, causa-me desassossego. Dá-me inquietação. Não sei gostar para dentro nem cuidar para dentro. Tenho muita dificuldade em não falar de sentimentos, emoções e coisas afins. Vejam como é difícil encontrar equilíbrio. Aquilo que é tão fácil de falar para mim (tudo o que é da esfera do coração) é normalmente o mais difícil de falar para os outros. Nem toda a gente tem esta facilidade. Claro que eu tenho outras dificuldades que os outros não têm. E não sei um montão de coisas nem sou capaz de outras tantas. Mas nestas coisas do coração tenho uma sensibilidade muito apurada, na ponta dos dedos. É-me muito fácil entender as emoções alheias, os sentires e perceber as feridas e os rasgões emocionais. Cada um sabe fazer o que sabe. Embora esta capacidade que tenho seja uma bênção, por vezes torna-se um fardo muito pesado porque não posso fazer nada com o que sei ou sinto. Tenho que ficar muito quietinha a ver os comboios passarem. E, de vez em quando, sacudo os ombros e parto a loiça. E apetece-me desistir, hibernar e outras coisas relacionadas com o enfiar-me dentro do meu casulo que nem sempre é de fio de seda. Às vezes tem uns arames farpados por lá espalhados. São os que me tiram a paz. Mas quando os espinhos me espetam fazem-me sair, nem que seja à força, da minha quarentena. E lá começo tudo outra vez, em ciclos infindáveis como as estações do ano. Com épocas de muita chuva e outras de seca. Pelo meio, uns bocadinhos assim mais temperados e equilibrados. As forças da natureza têm destas coisas. Sonham com o equilíbrio mas passam a vida a mover-se nos extremos…e às vezes com as pastilhas dos travões muito gastas…

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