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Entre mim e o meu silêncio

Entre mim e o meu silêncio há uma distância impossível.
A distância que me obriga a calar o que tanto quereria desafogar do peito.

Entre mim e o meu silêncio há um caminho intransponível.
Um caminho que de tão tortuoso me obriga a elevar os passos para não ferir os pés.

Entre mim e o meu silêncio há uma cumplicidade exata. 
Uma cumplicidade que entende na perfeição as palavras que não digo. Os sentimentos que não falo. As emoções que calco para não chegarem à flor da minha pele.

Entre mim e o meu silêncio há um mar imenso. 
Só no mar encontro a paz necessária para processar a imensidão de palavras que teimam em saltar por cada poro, por cada partícula de mim.

Entre mim e o meu silêncio há um jardim verde e amarelo.
Um jardim meio selvagem sem grandes arranjos, organizações ou canteiros. As plantas e flores nascem por onde lhes dá. Sem nenhuma preocupação cromática. Apenas escolhem por onde querem estar. Sem nenhuma razão aparente. Mas como se sabe, toda a planta e flor tem a sua raiz. E as suas razões são sempre muito mais profundas e enraizadas do que aparentam ser. Mas fazem de conta que não são. Plantas verdes com flores amarelas conjugam muito bem. Já se conhece o pandã que fazem. É mais confortável do que se estar a gastar energia em articular outras cores, tonalidades, formas e padrões. 

Entre mim e o meu silêncio há uma vida inteira.
Há uma vida cheia de eras e de eternidades sem princípio nem fim. Enquanto a vida está entre mim e o meu silêncio, saltita alternadamente nas nossas memórias. E as nossas memórias são eternas embora não nos lembremos disso. A vida é eterna e o silêncio é a própria eternidade. 

Entre mim e o meu silêncio há um baú de segredos.
Não se desvendam, os segredos, porque não é necessário. Estão ali mesmo à vista de ambos, entre um e o outro. E partilham-se, entendem-se, sem se pronunciar o seu nome. Entre segredos há sempre silêncios. Ou palavras impronunciáveis.

Entre mim e o meu silêncio há sempre uma dor fininha.
Aquela dor que de tão fininha se esconde em qualquer lado. Estrelica-se toda para caber em qualquer fissurazinha. E aguarda pacientemente. As dores, fininhas ou não, são muito pacientes. Agarram a primeira oportunidade que lhes aparecem e ficam até não as deixarem mais. De vez em quando, a minha dor fininha resolve sair do seu buraquinho e furar o meu coração. Discretamente e sem ruído. Fura e torce que é para fazer mais efeito.

Entre mim e o meu silêncio há um túnel sem saída.
Por vezes é escuro, frio e escorregadio. Outras vezes é tão luminoso, tão luminoso que encandeia e nem se vê por onde se vai. E escorrega-se na mesma. Os tuneis são solitários. A sua travessia é solitária. E, se calhar, nem é um túnel, é um círculo tubular onde continuamente se volta ao local da partida. E se não for um túnel talvez seja um labirinto.

Entre mim e o meu silêncio talvez haja um labirinto.
Onde as palavras se perdem do seu sentido. Onde as sílabas se dividem sem nexo. Onde os sentimentos se perdem dos corações. E onde as emoções não encontram a flor da pele. Mas onde, teimosamente, todos se procuram e correm freneticamente na esperança de se encontrarem.

Entre mim e o meu silêncio existem mundos e mundos e mundos.
Mundos onde me encontro, onde posso depositar todo o amor que me foi confiado. Onde posso guardar a imensa esperança que me move. Onde a minha alegria pode dar asas à sua essência. Onde posso amar sem limites os que amo. Onde posso sarar as minhas feridas e estancar as minhas sangrias. Onde posso esgotar as minhas lágrimas e arrancar as minhas penas. Sem que ninguém perceba. Sem que as águas se movam.

Entre mim e o meu silêncio, tudo o que verdadeiramente importa, acontece.

(Pseudo qualquer coisa inspirado num poema de José Luís Peixoto, do livro "A criança em ruínas")

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