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Trapalhada

Se eu fosse um elefante seria um daqueles trapalhões que gostam de entrar nas lojas de porcelana. Tão subtis e cuidadosos.

Se eu fosse um crocodilo, voava tão baixinho, tão baixinho, que ninguém daria pelo meu bater de asas e deslizaria discretamente entre as gotinhas de chuva.

Se um fosse um cisne, haveria de ser tão patudo, tão patudo que, de nenúfar em nenúfar, ia num ápice de um lado ao outro do lago. 

Se eu fosse um baguinho de uva, azedava o vinho todo só pelo prazer de ser do contra.

Se eu fosse um mosquito tocava violino numa orquestra metropolitana só para mostrar aos moscardos que os seus bateres de asa não valem nada. O voo do moscardo é vulgar de Lineu.

Se eu fosse uma centopeia, andaria sempre de patins só para chatear os sapateiros. E rolava melhor. E a vida fluía de outra maneira. Já lá estava antes de ter chegado. Já podia ir andando enquanto educadamente fazia mais um bocadinho de sala. Só vantagens. Ser-se comprido e lânguido tem as suas vantagens. Sendo-se insecto sempre se afasta vizinhos indesejáveis. Até ouvi dizer que os elefantes têm medo de ratos. E de centopeias, será que têm medo? Eu, no lugar deles, teria. Imagine-se o que será uma centopeia com os seus 100 pés enfiados em patins rolantes a andarem para cima e para baixo na sua tromba. Deve dar cá uma comichão! E o elefante teria que chamar o patudo do cisne para lhe ir buscar o crocodilo num ápice para fazer deslizar a centopeia dali para fora num bater de asa. Ou a coisa poderia ficar azeda e não haveria orquestra de violinos que acalmassem a trapalhice do elefante.

E uma loja de porcelana subtilmente desfeita, dá muito prejuízo!!!

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