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Animais, bichos e bicharocos

Gosto tanto de animais que gostaria de ter algumas das suas virtudes. Se por um golpe de magia pudesse transferir algumas características dos outros bicharocos para a minha pessoa, seria brutal! Um sonho! Não é possível, está claro, mas que seria maravilhoso, lá isso seria. E eu gosto de tudo o que é ou do que poderia ser maravilhoso.

Então vamos lá ao desgarrar da bicharada e das suas virtudes, dos seus encantamentos e magias. Claro que os animais são mágicos. Fazem parte da magia da criação e da natureza. Penso que devem ter levado com uns pozinhos de perlimpimpim quando estavam para aparecer no nosso mundo. Só podem. Sabem exatamente qual é a sua missão e o seu papel no todo. E são felizes por isso. Desempenham as suas funções sem queixumes, sem lamurias nem descontentamentos. Têm a consciência coletiva de pertença à natureza e respeitam-na universalmente. Nenhum bicho se considera superior a outro. Até o enorme rinoceronte sabe que uma avezinha a bicar as suas costas é uma ajuda preciosa. Retira-lhe os parasitas que o aborrecem. Sabem que todos os seres vivos têm um papel muito importante na vida e não discriminam uns dos outros. Não estragam nada só por estragar. Não destroem por destruir. Não matam por matar. Gosto tanto dos animais!

Se eu pudesse ser um bicharoco, gostava de ser uma data deles. Já que é para sonhar, sonha-se como deve de ser. Gostava de poder nadar como os golfinhos. Nadar como se não houvesse amanhã, no maravilhoso mar que contorna o mundo. O ambiente aquático é um dos meus preferidos. Se calhar, tenho para aqui uns resquícios de guelras e de barbatanas...ainda não os encontrei mas lá que os tenho, tenho! Adoro o conforto e o embalo da água. A sensação de leveza e de flutuação são muito pacificantes. Para além disso, um golfinho parece ser um animal muito bem disposto. E bate certo com a minha essência.

Gostava ainda de ser mansa como a pomba e prudente como a serpente, como nos diz o ditado popular. A mansidão, para quem é temperamental como eu, é muito desejável. A prudência também vem sempre a calhar que é para uma pessoa não se estampar na primeira curva que aparece. É que as curvas, às vezes, estão disfarçadas com lindos caminhos a direito. Só paisagem. Na verdade, por detrás da ilusão, estão curvas e contra curvas, lombas e buracos no chão. Diz que prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. 

Já agora, e por falar em galinha, parece que quando se compara uma mulher a uma galinha é sempre com desprimor. A mim parece-me que a galinha tem uma característica que considero muito ternurenta. Debaixo das suas asas, a penugem é muito fofinha e quentinha e cabem lá todos os seus pintainhos. Ficam protegidos e confortáveis. Se as minhas crias se sentirem debaixo das minhas asas como se sentem os pintainhos debaixo das asas de uma galinha, então, valeria a pena ser mãe-galinha. As galinhas, ao contrário do que se pensa, são muito inteligentes. Se calhar é só uma inteligência maternal, mas é melhor do que nada. As mães-galinha, ao contrário de algumas mães-pessoa, sabem exatamente quando devem abrir as asas e deixar os seus filhotes irem à vidinha deles. Elas sabem isso muito bem e abrem as asas com alegria. Não sentem tristeza por dar autonomia e liberdade aos pintainhos. Não sofrem de síndromes complicados como o do "ninho vazio". Não choram nem deprimem. Não tentam à força agarrar o que verdadeiramente não lhes pertence. Os filhos não são nossos, são de Deus, são da vida. E não os podemos proteger de tudo e mais alguma coisa. Uma asa quentinha é sempre boa em qualquer altura. Um conforto, um carinho. Eu, que já estou madura que me farto, ainda adoro que, de vez em quando, alguém me coloque debaixo da sua asa (que maravilha...!). Manter a asa fechada é que não pode ser, particularmente no que diz respeito aos nossos pintainhos. O grande desafio de se ser pai ou mãe é ser-se capaz de encarar e ultrapassar o seguinte: não querermos que os nossos filhos cometam os erros que nós já cometemos e  não querermos que os nossos filhos cometam os erros que eles próprios têm que cometer. Buscar a perfeição nas nossas crias é um dos principais tormentos das relações parentais. Difícil aceitar que os nossos filhos não são perfeitos. Nós, pais, não o somos mas exigimos que eles sejam. Bonito, hein? Sem errar não se aprende, não se evolui, não se cresce. As mães-galinha sabem isto muito bem e atuam em conformidade. Deixam os seus pintainhos sair debaixo da asa, errar, cair, tentar de novo e outra vez até aprenderem. Elas apenas supervisionam e acompanham. Afinal, o cérebro de galinha é pequenino mas eficiente, certo? Aves admiráveis.

Assim de repente apetece-me admirar os bichos todos e dar graças a Deus pela diversidade. Pela sinfonia de espécies, tipos, tamanhos e cores. Só para ficar assim pela rama. Penso como os animais são exatamente como precisam ser para viverem no seu habitat. Exatamente como precisam. Nem mais, nem menos. Se nós, humanos, fossemos assim, teríamos apenas o necessário para vivermos com alegria. Já repararam como os animais são alegres na sua essência? Não ambicionam mais do que têm. Apenas o suficiente para sobreviverem e tomarem conta dos seus. O homem, quando tem o suficiente para viver (que é muito mais do que sobreviver) não fica alegre. Quer mais e mais e mais. Isto porque a espécie humana ainda não descobriu uma coisa que todos os bichinhos sabem: que a alegria não está no que se tem fora. Não está no nosso exterior. A alegria está no nosso interior, no nosso coração, na nossa essência. 

Os animais, para além da consciência coletiva, partilham também de um conhecimento ancestral. Sabem muitas coisas sem terem a noção de que as sabem. Sabem tudo o que precisam sobre o funcionamento do seu ecossistema. Só se usa o que se precisa. Ponto final parágrafo. Não se destrói, não se estraga. Usufrui-se e respeita-se. Sabem usar a intuição, dar conta da presença da água, da mudança dos ventos e das estações, das intempéries, dos ciclos da lua e de um conjunto de outras coisas que homem já se esqueceu. Não se ter consciência do que se sabe é capaz de ser uma coisa boa. É simples. A simplicidade é muito bonita e faz muito bem à alma. A simplicidade é irmã gémea verdadeira da pureza. E a pureza de coração e de alma é talvez a maior das virtudes. É onde o amor, a paz, a fé, a verdade, a justiça e a compaixão gostam de morar. E tanta virtude junta, é festa de arromba todos os dias. Os animais estão sempre em festa, parece-me a mim. Por isso é que eles aproveitam todo o bocadinho livre para dormir e descansar. Fechar os olhos. Tanta festa e tanta alegria dá muita canseira...

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