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Excessos

Parece-me que agora estou numa fase em as coisas que vou lendo me vão inspirando a escrever. Uma das minhas grandes paixões tem a ver com a leitura. Adoro ler. Sou tão feliz a ler. Admiro tanto os escritores e os poetas que com as palavras que estão acessíveis a todos fazem verdadeiras maravilhas e milagres. Relatam a realidade, inventam realidades, ajudam-nos a encontrar a nossa realidade. A mim particularmente, e dito de uma forma muito simplista, ajuda-me a ser cada vez mais eu própria. Ajudam-me a não ter medo do que encontro cá dentro. A literatura sempre tem pontos de ligação com a nossa realidade e com a nossa fantasia. Com as nossas emoções. Os livros permitem tudo. Dão-nos verdadeiramente asas. Com a poesia alimentamos o nosso coração. Ou damos-lhe companhia quando a coisa está um bocadinho torta. O nosso coração percebe que não sofre sozinho. Percebe que alguém, algures, sente uma dor parecida. Sente um sentimento tal e qual. Que afinal de contas, nunca se está sozinho em coisa nenhuma. São as palavras, principalmente as escritas, que criam laços firmados entre as pessoas. As histórias, os textos e os poemas são assim como contratos emocionais que são estabelecidos de livre e espontânea vontade entre quem escreve e quem lê. Fantástico, não é?

Tanto para ler e tão pouco tempo para viver...sempre digo que precisava de um clone só para ler. Mas se uma Magdala é difícil de gerir, duas seria o fim da picada! Continuando...hoje li uma frase de um escritor brasileiro do século passado, Graciliano Ramos, que é tão atual para mim (a frase). Faz-me tanto sentido. E inspira-me a escrever por aqui mais umas letritas. Diz assim: "Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões".

Esta frase do Graciliano Ramos quase que foi feita à minha medida, apenas com um ajustezinho ou outro. Fico muito feliz por alguém ter sido capaz de escrever que se comove em excesso. Eu também. Sempre com o coração na alma, com coração no coração, com o coração na cabeça e com o coração na boca . Às vezes parece que há coração a mais. No entanto, nunca há coração a mais, nunca é excessivo. O que nós havemos de fazer com ele e com a sua influência é que tem que ser alvo de algum trabalho interno. Isto para não nos deixarmos afogar pelas suas intensidades. Pois sou naturalmente excessiva no que diz respeito a emoções, também por natureza e ofício. Mesmo que por vezes o saiba disfarçar muito bem. Não gosto de o disfarçar mas tem que ser. Isto porque ninguém tem culpa que eu seja assim. E, apesar de ser cada vez mais eu própria, faz parte também da minha evolução enquanto pessoa, o deixar que os outros sejam também eles próprios. Daí que não seja, para mim, medonho que alguém viva sem paixões. Este é uma ajustezinho à frase do autor referido. Não é medonho porque não me causa qualquer medo. Não é assustador. Dá-me sim alguma pena, alguma compaixão por quem vive de forma morna. Sem nada que lhe incendeie o coração. Lamento muito quem vive de frieza, a desligar o coração. Quem vive a toque de interruptor emocional. Em função do correto, do que deve ser, de regras, de valores tangíveis e outras coisas do género. Lamento quem passa de raspão pelas coisas e pela vida. Lamento quem não consegue sentir a natureza, a criação. Quem não consegue contemplar a beleza de tudo o que está fora de si próprio. Lamento quem não se consegue emocionar com as coisinhas simples e pequeninas. Lamento quem não se arrepia com o cheiro da terra depois de uma bela chuvada. Lamento quem não sente a liberdade de uma brisa de ar. Lamento quem não transborda à beira do mar. 

O facto de lamentar não me faz juiz. Não sou ninguém para fazer criticas a quem está num estado diferente. Não tenho o direito de apontar o dedo a quem não vê e sente o que eu vejo e sinto. Apenas não compreendo como é possível. Tal como não compreendo um montão de outras coisas na vida. O facto de não compreender não me assusta. Não me dá medo. Não me faz afastar ou criticar. Aceito e pronto. Claro que não é fácil aceitarmos o que não compreendemos, com amor, tolerância e disponibilidade. Fácil, fácil é aceitar quem é como nós. Difícil é aceitar a diferença. Também ninguém disse que viver e aprender seria fácil...e sendo eu tão excessiva e diferente, não encontro ao virar da esquina quem seja como eu. Vou rezando para encontrar quem me aceite tal como eu sou. E, como costumo dizer, apesar do que eu sou. Se me aceitarem mesmo que não me compreendam, já é maravilhoso! Em troca, procuro também amar o que não entendo. Só não é mais difícil porque eu adoro tudo o que seja diferente de mim própria e do que já conheço. Adoro tudo que não conheço. Adoro saber mais, conhecer mais, entender mais, tudo mais no que diz respeito a almas, corações, pessoas e natureza. Adoro a abundância emocional. Ou não fosse movida a paixões. Nos dias mais tristonhos, mais dolorosos, também sou movida a qualquer coisa de forte. A dores. Fortes, também. Daquelas que rasgam. Que parece que têm garras cravadas no meu coração. Esses dias também são excessivos em termos emocionais. E, para grandes males, grandes remédios. É deixar doer à grande, é chorar à grande até destilar tudo e voltar às boas emoções. A minha sorte é que eu tenho uma essência muito alegre. Contemplativa, energética e alegre. Mais à esquerda ou mais à direita lá consigo voltar ao equilíbrio, à paixão pela vida e por tudo o que mexe (com exagero e tudo, claro está). 

Para mim, os dias mais difíceis, são uns muito muito raros mas muito desconcertantes para quem tem uma personalidade de não desligar botões e de viver ávida e intensamente. São uns dias que por vezes me assolam em que a tristeza passou o limite do razoável e, em vez de ir para a destilaria, perde-se lá pelo caminho e vai-me para as veias, para a alma. E fico morna. Quieta. Perco o pio e as escritas. Não me apetece nada a não ser ficar só, enfiada na minha casca, a ter pena de mim própria. Frieza e indiferença. E nem o sol, nem o mar, nem as brisas me alegram. Encerro-me em mim própria. Fecho a fechadura e deito fora a chave. Estes são os dias e os estados de alma que são as exceções que confirma a regra do tal exagero emocional. Também sou dona de uma ou outra exceçãozita difícil de compreender. Principalmente para mim. Também quem me conhece não sabe o que me há-de fazer nesses dias. Parece que não me pertencem. Que não sou eu. Mas na verdade, tudo faz parte de mim própria. O que compreendo e o que não compreendo. O que sou eu e o que parece que nem estou em mim.  Tudo isto, bem pensado, é altamente pedagógico. Ensina-me que também eu sou desconcertante. Não são só os outros. O concerto e o desconcerto faz parte de cada um de nós, cada um à sua maneira. Cada um com a sua medida e intensidade. Ser capaz de se amar o que não se compreende, é o exercício da plenitude do amor incondicional. Amor incondicional connosco próprios e com os outros. É maravilhoso o ser humano, não é?

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