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Parar à força

Hoje é um daqueles dias em a reflexão se impõe. Tenho a cabeça e o coração a mil. Uma das minhas irmãs está a sofrer uma intervenção cirúrgica neste momento. Uma coisa simples, graças a Deus. Mas sendo simples ou não, é o suficiente para me fazer refletir um bocadinho, particularmente sobre a velocidade em que vivemos a vida.

Andamos sempre a correr, sempre a correr. A planear o dia de amanhã, a fazer coisas como se fossemos eternos e insubstituíveis. A não ter tempo para aquilo que deveras é importante. Para as pessoas a quem amamos e que nos amam. Ficam sempre para o fim. Ou então são tratados como itens da lista de afazeres entre uma reunião e uma ida à oficina. Ou outra coisa qualquer assim do género. Amamos a correr, como se cumpríssemos também uma tarefa, no meio das outras 350 mil que temos que fazer. Parece que se nós pararmos, o mundo e as pessoas à nossa volta páram, desorganizam-se e descambam. Fazemos, organizamos, controlamos e fazem parte desta lista ainda outros verbos de ação, preferencialmente que denotem rapidez, eficácia, realização e resolução. E parece que assim mesmo tem que ser pois existem um conjunto de situações e de pessoas que depende de nós em termos de trabalho, de sustento e de estrutura.

Um dia, assim de repente e como quem não quer a coisa, o inesperado acontece - paramos à força. Todo aquele tempo que não tivemos para nós próprios, para darmos atenção a quem dela precisava, para amarmos e cuidarmos do outro com calma e disponibilidade, aparece de repente. E ao aparecer, este tempo disponível, não vem sozinho. Traz a dor e o sofrimento por companhia. Aparece uma doença, uma situação aguda, daquelas que faz relativizar tudo e que nos atira para uma cama de hospital. E ficamos impotentes, indefesos e dependentes dos cuidados de terceiros que nem conhecemos...a vida é irónica não é verdade? Mas se não aprendemos a bem, aprendemos a mal. Tenho visto esta frase concretizar-se tantas vezes...andamos por cá a aprender o que deveras tem valor. A dar a devida importância às coisas. E na maior parte das vezes vamos por caminhos paralelos aos que interessam. Que pena. Normalmente trazem tanto sofrimento e tanto desgosto. 

Voltando ao tempo disponível que de repente apareceu na nossa vida, a mal, claro, pois não fomos capazes de o encontrar a bem. Não fomos capazes de gerir o nosso tempo, de encontrarmos tempo para tudo. Um dos meus princípios de vida tem a  ver com com a questão de haver tempo para tudo. Tem que haver. Temos que estabelecer prioridades e organizarmos a nossa vida no sentido de sermos capazes de viver todos os bocadinhos. É evidente que também aprendi à força, no despojamento quase total do que se tem e do que se é capaz de fazer. Quando o tapete nos sai debaixo dos pés, aprendemos num instante a ver os sinais e a dar prioridade aquilo que verdadeiramente tem. 

Sempre que estamos numa situação de paragem à força, passa-nos pela cabeça a ideia de podermos não voltar à vida tal como ela era. Podemos ficar imobilizados, podemos morrer, podemos ficar dependentes de outros para sempre, etc. E esses pensamentos têm um lado muito positivo. Começamos logo por pensar o que deveríamos ter feito e dito e não fizemos nem dissemos às pessoas que são deveras importantes. Pensamos como no meio das nossas corridas, não tivemos tempo para os nossos pais, para os nossos filhos, para os nossos amores, para os nossos amigos, para tudo o que nos enche o coração. Pensámos essencialmente no tamanho e nos problemas da nossa carteira e esquecemo-nos da nossa saúde física, mental, espiritual e também a do nosso coração. Corremos atrás do que nos parece ser o certo. Trabalho, trabalho, trabalho. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Estabilidade, segurança e controlo. E mesmo quando a vida apita por todo o lado e o trabalho, o dinheiro e a estabilidade dão um montão de problemas, que é como quem diz, um montão de sinais, continuamos a insistir teimosamente na fórmula que adotamos. Ou não sabemos ler ou não queremos ler os sinais que a vida nos dá. Na maior parte das vezes por medo. Por medo de não se ter alternativa. Por medo de não se saber fazer de outra forma. Por medo de se perder a falsa noção de segurança e controlo. Por medo de confiar na providência divina. A fé não se resume a um conjunto de palavras que se recitam em determinadas ocasiões. Ou é qualquer coisa que apenas vive no nosso campo teórico e reflexivo. A fé é a coisa mais prática, terra-a-terra e objetiva que existe. Ou é ou não é. E aplica-se em cada vivência, em cada experiência, em cada coisa pequenina na nossa vida. Não tem que ser só nas situações extremas nem nas grandes. É no abrir dos olhos pela manhã e no fechar pela noite. É em cada sorriso e em cada lágrima. É no dia a dia do nosso trabalho. É a moldura da nossa vida. Não tem interesse nenhum enquanto conceito. É fundamental enquanto sopro de vida e força motriz para agir. Comparo ao amor. Quando se ama alguém, não interessa nada só amar para dentro, sem que isso tenha nenhum reflexo no outro. Se não se falar sobre esse amor, se não fizer o outro sentir amado, se não se agir em função desse amor, se não se demonstrar, esse amor não vale nada. Apenas existe o nosso coração e não tem qualquer fruto. É estéril e vai definhar. Deixa de fazer parte da nossa vida. Assim é a fé. Guardada na gaveta dos conceitos e dissertações, não serve para nada.

Pois para mudar de vida, já que a vida nos mudou as nossas circunstâncias à força, é preciso ter fé. E acreditar que o que é importante é sempre o melhor para nós. E as pessoas e o seu amor e a sua amizade é sempre o melhor para nós. Estes momentos em que a vida nos prega uma partida são sempre momentos preciosos. São aqueles que nos fazem ir bem ao nosso interior, ao nosso âmago e paramos para pensar no que temos andado a fazer. Tanto tempo que desperdiçamos em miudezas e porcarias...tanto tempo que damos ao medo, ao parecer bem, ao ser correto, a fazer o que os outros querem, à fuga para a frente, em sermos teimosos...tanto tempo que entregamos de bandeja à infelicidade e à tristeza. Como é possível?! 

Há uma frase muito interessante referente ao medo que diz o seguinte: "Prefiro o mal que conheço ao bem que não conheço". De facto, as mudanças dão medo e é preciso ter-se fé para se seguir o caminho que nos dá paz, mesmo que não se saiba o que mais se vai encontrar. Mas se a vida nos aponta o caminho, é porque temos que ir por ali. E, de repente, como por milagre, afinal, o mundo continua quando estamos numa cama de hospital. Alguém fará o nosso trabalho. E se ele não for feito é porque afinal não era assim tão fundamental. Os outros não param com a nossa paragem. Continuam a viver a sua vida. O mundo não ruiu. Não aconteceu nenhuma catástrofe no planeta e arredores. Só as nossas bases é que tremeram.

E, provavelmente com muita dor e arrependimento, percebemos que não soubemos cuidar do único sítio onde efetivamente somos insubstituíveis: no coração de quem nos quer bem. A boa notícia é que temos o resto da nossa vida para o fazermos. É só preciso um bocadinho de coragem. A fé fará o resto.

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