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Hoje consegui recuperar um bocadinho de paz e de serenidade. A semana vai bastante carregada e difícil mas ontem consegui ir meditar. Exausta, mas lá fui. E em boa hora o fiz. Não gosto de sucumbir ao cansaço, nem à tristeza nem a outra coisa menos boa mesmo que tenha imensa vontade. Mesmo que me apeteça desistir sem saber do quê e mandar-me para o chão e pronto. Mas lá tenho uma réstia de força para combater estas emoções. Não gosto nada delas. Fazem-me a vida negra. E então, eu devolvo-lhes o efeito. E vou fazer tudo o que tiver ao meu alcance para as contrariar. Só de birra!

E lá fui meditar. Primeiro, a companhia é boa. Para além do amigo que comanda as tropas, a minha melhor amiga também participa. E ela é a pessoa que mais paz me transmite. E a paz, a constância, a temperança e a amizade incondicional são um colo fantástico. Estas virtudes acalmam-me e serenam-me o espírito. E a serenidade é muito importante para se meditar como deve de ser. Para deixar que Deus converse connosco. Ou melhor, para conseguirmos ouvir o que ele tem para nos dizer. E então, após ter encontrado a paz, que tem andado a brincar às escondidas comigo, vim assim com o coração cheio. Principalmente de fé. E trouxe comigo umas palavras que traduzem uma belíssima viagem interior. As palavras são sobre fé e sobre os seus vetores: acreditar, confiar e entregar. Parece quase o mesmo em termos de conceito, não é? Não, não é. Têm umas nuancezinhas de diferença. E antes de tentar diferenciar estas 3 palavrinhas tão importantes, relembro, tal como me relembrei ontem, que ter fé também é acreditar que cada um de nós carrega Deus no seu coração. É uma parte d'Ele. Cada um de nós é um ser divino. Assim, devemos ter fé em nós próprios. Convinha que fosse uma fé incondicional. Ajudaria imenso a nossa vida, para além de honrarmos a Deus, que acredita incondicionalmente em nós. Mesmo quando nós não acreditamos n'Ele...

Também não nos podemos esquecer de que, pela mesma lógica, todas as outras pessoas também têm uma essência divina, tal como nós. Mesmo aqueles que não conseguimos tragar. Mesmo os que nos irritam e os que julgamos maus. São todos uma parte de Deus. É verdade...por isso, é preciso ter muito cuidado nos julgamentos que fazemos. Nós não temos a paciência necessária para as pessoas de quem julgamos mal ou de quem não gostamos. Mas Deus tem uma eternidade de paciência. Não me parece nada que o Céu tenha a dimensão do tempo. Não tem. E tudo tende para mais infinito, para a eternidade. Esta dimensão do tempo, para nós, que por aqui andamos, é uma chatice. Queríamos que fosse assim ou assado no tempo que julgamos certo. Se se for como eu, era já e agora, ou em alternativa, ontem! Esta questão da dimensão temporal tem uma influência danada nas questões da fé. Acreditar, confiar e entregar, implica que se aceite que tudo tem o seu tempo próprio. E que não existe o tarde de mais nem o cedo de mais. Tudo acontece na nossa vida no tempo certo. Apesar de nos parecer fora de horas. Apesar de às vezes não entendermos as esperas. Apesar de não entendermos o porquê das coisas. 

Esta tem sido sempre uma luta interna que tenho tentado conter e aceitar. Tenho uma personalidade enérgica. As coisas não são para se ir fazendo, são para se fazer e pronto. E de facto, existem situações na vida que se devem ir fazendo. Construindo. Aguardando o amadurecimento. Esperando que os alunos estejam prontos para que os mestres possam aparecer. Já tenho tido tantas lições dessas...tenho aprendido que para a nossa alma, para o Céu, não há tempo. É preciso é que se chegue lá, independentemente do tempo e do espaço. O importante são as aprendizagens e as emoções que se carregam no coração. É isso que volta connosco para o céu. O que é que interessa em que altura é que as amealhamos? Claro que para quem é fisicamente finito, isto é um osso um bocadinho duro de roer...e de vez em quando, lá partimos uns dentes a mastigar estas coisas...mas enfim, a vida, toda ela é um processo de aprendizagem e de amadurecimento da alma.

Acreditar é fechar os olhos e não ter medo. É sentir no coração que tudo acontece pelo melhor. Mesmo quando dói muito. Que tudo tem um propósito e uma finalidade. É sentir sempre a companhia do céu a cada passo que damos. É saber que mesmo quando já não temos força para andar, que nos levam ao colo. Acreditar é ter uma esperança no peito que é mais forte do tudo. A esperança nutre a alma. Ilumina a vida. Incendeia o coração e amplia a nossa consciência.

Quando converso sobre estas coisas com alguém, costumo dizer que ter fé é sermos capazes de nos atirarmos de um edifício de 50 andares abaixo com a certeza absoluta que nos vão nascer asas. E confiar é saber que nos vão nascer as asas no momento exato para voarmos e que serão as asas que nós precisamos. Não são as que queremos, são as que forem melhores para nós. Isto é confiar na providência divina. É ter a certeza que tudo o que nasce na nossa vida é para o bem supremo da nossa alma. Pode não se entender, mas confia-se. Pode doer mas confia-se. E as asas podem ser frágeis e pequeninas. Mas devemos ter a certeza absoluta, a confiança absoluta, de que serão as necessárias e suficientes para voarmos, à velocidade indicada para nós e com a segurança que necessitamos.

A fé não pode ser um negócio com o Céu. Não se pode dizer: -"Se me derem umas asas assim ou assado, então eu atiro-me do prédio abaixo...e ainda convém que me ensinem a voar, e ainda...e ainda...". Condições, condições, condições. Ou seja, medo, medo, medo. Temos que fazer primeiro a nossa parte. Depois o Céu fará a sua. E os milagres acontecem. A evolução acontece. Principalmente quando somos capazes de, acreditando e confiando, entregarmos toda a nossa existência, as nossas dores e os nossos amores ao céu. Entregar como quem entrega toda a sua fortuna à guarda de um banco. E entregar também todas as nossas pobrezas e misérias. 

A vida também já me fez passar por situações em que tive que aprender a controlar a minha têmpera intempestiva. O meu pecado mortal é a ira. Se perder a cabeça, é uma maçada. Vai tudo à frente. Depois passa depressa mas os estragos já estão feitos. As palavras já estão ditas e não há volta atrás. Para quem gosta de usar as palavras em todas as circunstâncias, se as usa com raiva, com ira, podem-se destruir pessoas. Da mesma forma que usando-se as palavras com amor se podem salvar pessoas. A vida proporciona-nos sempre as situações necessárias para podermos fazer as nossas aprendizagens e melhorarmos enquanto pessoas. Eu tenho andado a treinar estas coisas da sabedoria. A controlar a ira e a tempestade. A erradicar a força de partir. O primeiro passo para esta aprendizagem foi entregar isto tudo ao céu. Abrir o coração e dizer: "Eu tenho isto tudo, não sei o que lhe hei-de fazer e preciso de ajuda para me libertar. Entrego nas mãos do Pai. No colo da Nossa Senhora". Este foi o princípio. O alívio foi tão grande, que fui aprendendo a entregar tudo. A entregar a minha vida. Que, afinal já pertence lá a cima. No fundo, é termos a consciência das coisas, das pertenças, de quem somos, do que somos e de quem nos conduz e ajuda. É procurarmos o auto-conhecimento, a consciência plena das nossas dimensões. E do que precisamos aprender. Tudo isto é um processo. Um processo difícil que não sei se alguma vez termina. O que sei é que a fé, de facto, conduz este caminho. E que o amor o ilumina. E que a esperança enche-me o coração de alegria e o rosto de sorrisos. E eu, quando sorrio, fecho os olhos. Afinal, ter fé é fechar os olhos e não ter medo, e confiar que quando os abrir, a paisagem será a melhor para mim. 



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