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As mãos

Uma mão é uma mão.
A mesma mão que ajuda a levantar, empurra para cair. A mesma que salva uma vida é aquela que a pode tirar. A mesma que bate é a que acaricia. As nossas mãos são um exemplo perfeito das nossas dualidades e antíteses enquanto pessoas. E ainda por cima temos 2 mãos. Ou será talvez por isso que temos 2 mãos. Uma ajuda a outra ou uma contraria a outra. De qualquer das formas, o equilíbrio.

Vale a pena pensar que não somos exemplo de constância, estabilidade, previsibilidade. Os animais não racionais, como são chamados, são muito mais constantes, sem dualidades. São assim e pronto. O facto de nós, pessoas, sermos conscientes da nossa própria consciência – a tal metaconsciência – baralha a nossa constância, a nossa personalidade, a nossa forma de ser.

Esta é a melhor parte das pessoas. As diferenças, as unicidades, as telhas e os caprichos de cada um. Eu sou muito pouco padronizada. Não gosto de tudo igual, de rotinas, de grupos de pessoas todas azuis ou roxas. Só de uma cor. Adoro as diferenças. As cores todas. Por isso gosto de aeroportos. Porque num instantinho se podem ver todos os géneros de pessoas. E todas com duas mãos. Temos todos tanto em comum e, simultaneamente, tantas coisas que nos diferenciam. E sempre me intrigaram as diferenças. O que há de comum entre as pessoas, já conheço. O que me interessa verdadeiramente são as diferenças. E aborrece-me, entristece-me o facto de as diferenças desunirem os indivíduos. As diferenças são como o código genético, torna-nos únicos. São as diferenças que nos tornam atraentes, brilhantes, iluminados, exóticos, o que seja. São estas que nos ajudam a entender o mundo de outra forma. Pelos olhos de quem o lê por outro prisma. Por isso é que eu gosto de pessoas com mais idade. São ainda um bocadinho “mais diferentes”. Principalmente porque já viram muitos prismas. Já tiveram mais experiências. Acumularam vida. Acumularam diferenças. E as suas mãos, acumularam rugas, calos, manchas, o que seja. Poderão ser mãos menos bonitas, mas serão capazes de fazer muitas mais coisas. E quando tudo acontece como é suposto, estas pessoas mais experientes tornam-se mais tolerantes, menos inflexíveis, mais suaves. E isso é evolução. Se todos entendêssemos as diferenças como mais-valias que enriquecem, seríamos mais tolerantes.

Quando se juntam diferentes visões de uma mesma realidade, essa mesma realidade estará, com certeza, melhor refletida. Só com a junção de muitos bocadinhos é que se faz um todo. E, mesmo assim, um todo qualquer tem uma identidade própria, não é apenas a soma e a junção dos vários bocadinhos constituintes. Cada indivíduo também é um todo cheio de bocadinhos. Cheio de variáveis, mas com uma identidade própria que emerge da miscelânea de todos os seus elementos. As pessoas são mesmo únicas e difíceis. Por isso é que têm piada. Por isso é que são interessantes.

Mesmo as pessoas que para nós não têm piada nenhuma nem são interessantes, são-no para outros. E aqui temos que humildemente assumir que este desinteresse depende muito mais dos nossos olhos do que da outra pessoa em si. Cada um de nós tem as suas teclazinhas relativamente às outras pessoas. Cada um de nós acha esta característica mais interessante do que aquela. Também aqui, os nossos olhos, os nossos prismas, comandam a elaboração deste catálogo de pessoas. Desta forma, este catálogo, verdadeiramente, não existe. Só existe para cada um de nós que o usa. Tem a ver com os nossos filtros, com os nossos gostos. Não tem a ver com o outro em si. É preciso pensar nestas coisas para se ser justo. Não se pode aplicar a justiça partindo apenas da nossa posição, do nosso ponto de vista, no fundo, do nosso catálogo. Eu prezo muito a justiça. E a verdade. Nem que seja a verdade de cada um. Pode não ser bem assim mas o outro acredita que é. É a sua verdade. E eu estimo a verdade em qualquer das suas formas. E respeito quando alguém defende o que acredita, com verdade e com justiça, mesmo que tenha uma opinião contrária à minha.

Por muito que me custe aceitar a mentira (a minha e a dos outros), que me magoa sempre, de vez em quando, entendo-a. Entendo que às vezes as pessoas precisam de manter a sua dignidade (e têm direito a ela). Outras vezes mente-se por medo. Por desconforto. Outras porque não se quer magoar a outra pessoa. Outras vezes porque não temos a coragem de responder às perguntas que nos fazem. É fácil mentirem-me. Dizem que sou muito exigente. Talvez porque faço perguntas demais. Ou tenho demasiados pontos de interrogações a saltarem-me pelos olhos e que atrapalham as outras pessoas. Ou porque sou muito direta nas observações ou nos comentários. E, de vez em quando, alguém fica desconcertado com isso e defende-se. Tem esse direito. Mesmo que eu não queira fazer mal a ninguém ou invadir a sua privacidade, acabo talvez por fazê-lo. Mesmo sem intenção. E, então, o outro defende-se, mentindo. Compreendo. Não gosto. Esperneio. Fico triste porque não haveria necessidade, mas compreendo. O direito à dignidade, à privacidade de sentimentos e de palavras é inviolável. Ou deverá ser. E de vez em quando também faço de conta que a mentira que me estão a dizer, é verdade. Tenho sempre que pensar bem pensadinho se a mentira vale o confronto. Penso e coloco nos pratos da balança se é mais importante aquela pessoa e aquela relação (num prato) ou eu ter razão (noutro prato). A minha idade já me trouxe a serenidade suficiente para, quando faz sentido, escolher as pessoas em vez das razões. E mais do que a mentira em si, procurar perceber o que a causou, o que está por detrás dela. Isso sim é o que verdadeiramente faz a balança pesar para um lado ou para o outro.

Ao contrário do que se pratica habitualmente, no meu ponto vista, os factos não se podem ver nus e crus. Têm que ser colocados em contexto, perceber as suas motivações, as suas causas e as suas consequências. E é tão interessante perceber que o mesmo facto, em diferentes pessoas, pode ter enquadramentos tão diferentes. Nuances e nuances e nuances. Nada existe sem estar em contexto, sem estar em relação. Uma pessoa só é isto ou aquilo em relação a qualquer coisa, não é? Em si próprio, sem comparativo, não é qualificável.

Eu tenho um calcanhar de Aquiles, no que diz respeito às pessoas que tento com muito esforço, melhorar. Custa-me aceitar a mediocridade nas pessoas. Aceito muitas coisas, mas esta característica adoece-me. E faço sempre aquele esforço para pensar que não se pode julgar ninguém por aquilo que não escolhe. Por aquilo pelo qual não é responsável. Ninguém é medíocre porque quer. E isto é um lembrete que tenho que usar com muita frequência para não ser tão impaciente e tão exigente com os outros.  Eles não têm culpa nenhuma que eu seja assim e que me tenha atravessado nos seus caminhos.

Um outro lembrete que uso com muita frequência é o seguinte: o que é óbvio para uns pode ser um bicho de 7 cabeças para outros. As nossas referências são só nossas. É como os catálogos. Cada um tem o seu. E não posso julgar os outros pela minha bitola. Arrumá-los nas minhas prateleiras. Esta é talvez a maior das tentações do relacionamento interpessoal. Ter um monte de prateleiras e gavetas bem etiquetadas para arrumar pessoas em função do seu código de barras. E já agora, montar uma fábrica de onde saem soldadinhos de chumbo todos iguais. E se um sair sem uma perna, atira-se para a sarjeta.

Esta é a nossa maior batalha enquanto seres humanos. Resistir a esta tentação de simplificar a existência dos outros e complexificar a nossa.

E esta converseta toda teve início com um par de mãos. É verdade, as mãos refletem tão bem a nossa existência enquanto pessoas. Cada mão autónoma da outra, que podem ser cooperantes ou competitivas. Podem fazer o mal ou fazer o bem. Podem sempre escolher. E cada uma tem cinco dedos todos diferentes uns dos outros. E os mesmos atributos que damos às pessoas, podemos dar às mãos. Fortes ou fracas, bonitas ou feias, grandes ou pequenas, trabalhadoras ou preguiçosas e etc., etc.. Também é verdade que a forma como nos relacionamos com as nossas mãos é muito reveladora da nossa personalidade. A forma como colocamos as nossas mãos, como apertamos as mãos dos outros, como as sujamos e as limpamos, diz muito a nosso respeito. É muito interessante a observação das mãos das pessoas. É meia personalidade em contexto.

Eu gosto muito de mãos. Daquelas que sabem ser um bocadinho de tudo. Fortes e suaves. Firmes e carinhosas. Limpas mas que sabem mexer na lama, se for necessário. Que não se descompõem por partirem uma unha. E que sabem tomar conta do corpo inteiro. É verdade, são as nossas mãos que tratam do resto do corpo. São as mãos que trabalham, que limpam, que vestem, que conduzem, que abrem portas, janelas e afins, que ajudam a dar à luz, que enterram, que acariciam, que mimam, que amam, que alimentam e que fazem mais um monte de coisas importantíssimas que agora, de repente, não me consigo lembrar. Só nos lembramos da importância das coisas, quando elas nos faltam. Se tiver uma ferida na mão, daquelas que vai encalhar com tudo, é que serei capaz de me lembrar de todas as coisas que as mãos são capazes de fazer.

Já agora, para além de tomarem conta de nós, as nossas mãos também sabem fazer outra coisa maravilhosa: sabem tomar conta de outros. Afinal também amamos com as mãos.

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