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A pessoa e a sua dignidade

Hoje tenho refletido bastante sobre um tema que me interessa particularmente: o direito à dignidade. Interessa-me a dignidade humana na doença, na invalidez, no estado de quase zero autonomia e em todos os estados irrecuperáveis em que os seres humanos se podem encontrar, aguardando, apenas, a morte.

Quase não se ouve falar sobre estes assuntos. Debate-se e salva-se a natureza, o lince da Península Ibérica, o ambiente, as crianças em risco, os refugiados, a orla marítima, o sável do Tejo e outros conjuntos infindáveis (e sem dúvida importantes) de debatíveis e salváveis. Sobre o que já não se pode salvar, no sentido literal do termo, pouco se fala. Que impressão! Parece que cada um de nós tem medo de se ver refletido numa situação, da qual parece não haver saída ou salvação!

A mim preocupa-me particularmente o que não tem salvação. O que verdadeiramente necessita de se sentir digno, apesar de frágil. Penso no que será ter todas as faculdades e competências mentais e psicológicas e, em simultâneo, ter um corpo que não é compatível. Que não se mexe, que dói, que não se consegue cuidar a si próprio. O nosso corpo é o envelope de toda a nossa interioridade. Nas situações em que esta fica intacta, como se sentirá uma pessoa quando o seu corpo não serve para nada? Quando o corpo não acompanha a vontade, nem a cabeça, nem o coração? Como será sentir-se digno? Como será sentir que depende de outros para tudo o que são as suas necessidades básicas e fisiológicas? Como será? Tenho um respeito profundo por todas estas pessoas. Pelas lições de vida que nos dão. Estão mais perto de Deus. Sei que quando partirmos e formos ter com Deus, é apenas a nossa interioridade que Lhe apresentamos, o nosso coração, os nossos pensamentos e toda a nossa espiritualidade. O corpo fica, desembrulha-se da alma. Então, todas estas pessoas que aos nossos olhos parecem que estão tão frágeis e que dizemos que são “dignas de pena”, na realidade, estão um passo à nossa frente. Estão mais próximas de chegar ao Céu. E, na verdade, são apenas dignas com toda a imensidão e vastidão que este conceito engloba. São digníssimas.

A nossa tendência será sempre afastar estas situações do nosso pensamento e do nosso campo de visão. Porque incomoda. Perturba. Porque nós somos os outros dos outros e, lá no fundo, sabemos que estamos sujeitos a tudo. Mesmo quando achamos que somos super-homens ou super-mulheres. Até os super qualquer coisa têm as suas fragilidades, medos, fraquezas e afins. São super mas são humanos. E estas situações de quase total vulnerabilidade não têm o encanto de um recém-nascido, de um bebé. Aliás, não têm encanto nenhum. Têm o seu exato contrário. Têm o lado desencantado da vida. Da impotência, do nada a fazer. Do caminhar para uma ainda maior vulnerabilidade e maior dependência. Talvez seja este um dos grandes medos de todos nós: de perdermos a nossa independência, de ficarmos à total mercê dos cuidados prestados por outros. De ficarmos sem nenhuma dignidade. 

Quantas vezes tenho ouvido dizer: “antes morrer do que ficar por aí a vegetar e a dar trabalho aos outros!”. Isto sempre me incomodou. Sempre me fez pensar. Uma pessoa não se mede pelas capacidades do seu corpo. Ou até da sua cabeça. Uma pessoa é muito mais do que o somatório das suas várias dimensões. Então, sempre vale a pena. Não existe ser-se mais ou menos pessoa. Não há medida para esta definição. É-se pessoa antes de se ter uma outra categoria qualquer. Antes de qualquer adjetivação. Então, indissociável da pessoa está a sua dignidade. O reconhecimento da dignidade nos outros deveria alterar profundamente a forma como os olhamos, como os consideramos e, nestes casos tão especiais, como os tratamos e cuidamos. Como os fazemos sentir quando fazemos por eles, o que para nós é tão básico e até automático. O mesmo gesto de cuidado pode ser revestido de tantas formas diferentes. Pode ser um gesto eficiente e eficaz mas frio, seco, indiferente. Pode o mesmo gesto eficiente e eficaz ser revestido de pena. De caridadezinha daquela que magoa. E poderá, um gesto eficiente e eficaz, ser revestido de dignidade, de respeito e de amor. Por mais que se queira, não se consegue reconhecer a dignidade de forma natural e inerente se não houver amor no coração. Não existe. Amor que não considera a profunda dignidade do outro, não é amor. É outra coisa qualquer mas não é amor.

Infelizmente existem formas demais para aviltar a dignidade das pessoas. Por vezes até encapotadas, revestidas de competência, de ciência, de eficiência e de eficácia. Quando ouvimos falar de uma instituição que preste cuidados continuados e/ou paliativos (por exemplo), sempre se publicitam as tecnologias de ponta, os melhores cuidados médicos, as condições de higiene, a qualidade dos recursos, o acompanhamento das famílias, etc., etc.,etc. nunca se consegue ler nas entrelinhas, as questões ligadas à dignidade das pessoas. Ao carinho, ao amor com que se tratam e cuidam. Nestes casos, nem são pessoas, são utentes, ou pacientes ou outra coisa acabada em “entes”. Também podem ser os doentes. E para onde vai a pessoa? Que para além de ter um corpo doente ou de estar à beira da morte, continua a ter sentimentos, emoções, desejos, vontades, medos, receios e tudo o resto que nos constitui? É de supor que estas pessoas estejam nos momentos mais fragilizados das suas vidas…e até onde vai o nosso respeito e o nosso cuidado? Boa questão, não é? E onde ficam as tais abordagens sistémicas, se quisermos ser mais profissionais? E as abordagens humanas? 

Basta que nos coloquemos no lugar do outro…se nos conseguíssemos projetar em determinadas situações e refletir sobre isso, só um bocadinho que fosse, a dignidade nunca seria uma espécie em via de extinção. Seria vulgar de Lineu. E o mundo seria diferente. Tão diferente, Pai do Céu!

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