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A pedagogia da morte

Hoje apetece-me escrever sem saber exatamente sobre o quê. 
Na verdade, o que me apetece é libertar de um monte emoções que me estão a fazer pressão no peito. Existem umas épocas um bocadinho mais difíceis do que outras. Épocas daquelas em que a vida nos faz uns sinalinhos de luzes. Parece que tudo nos vai acontecendo ao mesmo tempo, umas vezes a moer e outras a doer. Se não é connosco, é com alguém à nossa volta.

Uma das minhas boas amigas acabou de perder o seu pai. Sem estar à espera, num espaço de 3 ou 4 dias. Na verdade, nunca estamos preparados para perder as pessoas que amamos. Devíamos lidar com a perda e com a morte como lidamos com a vida. Aceitando. Na verdade, e na maior parte do tempo, vivemos como se a morte não existisse. Como se fosse uma coisa que só acontece aos outros, à família e aos amigos dos outros. Esquecemo-nos que nós somos os outros dos outros. E vamos perder pessoas. De uma ou de outra forma, mais de repente ou mais anunciada, a morte estará sempre ao nosso lado, tal como a vida.

Estou convencida que se nós lidássemos melhor com a morte, se pensássemos mais sobre ela, viveríamos muito melhor a vida. Procuraríamos viver intensamente, com paz e com tudo aquilo que nos faz feliz. E, provavelmente escolheríamos o que nos faz feliz em detrimento de outros critérios de escolha. Fomos familiarmente e socialmente educados para vivermos até aos 200 anos. Passamos a vida a planear, a encontrar segurança, a viver na preparação do dia de amanhã. Mas na verdade, este dia não existe. Só existe o hoje. E o “hoje” é tão mal tratado…não lhe ligamos nenhuma.

A vida foi-me ensinando umas coisinhas no que diz respeito ao dia de “hoje”. Não é que eu seja grande aluna. Mas procuro esforçar-me. Já não tenho pruridos com muitas coisas. Principalmente sobre o que as outras pessoas possam pensar, julgar ou opinar. Interessa-me cada vez mais a opinião de pouquíssimas pessoas. 

E dou por mim a pensar que se eu soubesse que só tinha hoje para viver, desataria a correr para dizer algumas coisas a algumas pessoas. Não poderia partir sem ainda completar o que tenho procurado fazer: dizer o que sinto a quem é muito significante para mim. E haveria lugar ainda a 2 ou 3 boas conversas. Principalmente conversas de amor. Melhor, exclusivamente conversas de amor, porque as outras conversas não fazem falta nenhuma. E como eu não sou de poucas palavras, já tinha o dia feito.

Conversas de amor são qualquer coisa de fantástico. É gratificante para quem fala e para quem recebe. Quantas vezes não mostramos os sentimentos por medo, embaraço, orgulho, teimosia...e onde é que isso nos leva? Muito orgulhosos no alto do nosso pedestal, fazendo-nos de difíceis e importantes , mas sós. Tão sós!

Parece que ao falar de amor somos palermas. E não somos. Somos fortes pois já vencemos tudo o que vai contra esta força. Já perdemos o medo, já vencemos a timidez, já fomos capazes de perdoar (se for caso disso), a pessoa com quem vamos falar já não nos assusta, já aprendemos a escutar o nosso coração, etc. Uma maravilha! Saber conversar de amor pressupõe uma determinada evolução pessoal e espiritual. É preciso termos alcançado alguma paz interior. Principalmente, vencermo-nos a nós próprios. Tornarmo-nos melhores seres humanos. Mais simples e de acordo com a nossa essência divina. Sem grandes elaborações, complexidades, subterfúgios e superficialidades. 

Fui buscar esta conversa toda pelo tema da morte. Na verdade, tenho uma frieza perante a morte que me surpreende a mim própria. Sei que é uma inevitabilidade. Que faz parte da vida. E para dizer a verdade, a morte não me assusta. Sim, eu sei que sou bastante esdrúxula e difícil de compreender...mas é a verdade. Existem coisas que me assustam muito mais do que a morte ou que a perda causada pela morte. Como acredito que a morte é apenas uma passagem para outro lado, também é mais fácil de aceitar. Custa-me muito mais aperceber-me do sofrimento, da dor que as pessoas têm e sentem do que propriamente da morte em si. Mas preocupa-me a dignidade com que se faz essa passagem. 

Já tive umas quantas perdas. Já tive que lidar com elas de frente. Não havia a possibilidade de ter um fanico ou coisa do género. Teve que ser reunir as forças e encarar a coisa de frente. Tive que fazer umas pegas de caras, como se costuma dizer. E isso ensina-nos muito. Porque quando tudo desaba, alguém tem que segurar as pontas. Normalmente, nas situações de emergência e catástrofe, é esse o meu papel. Que seja. É um facto, nem sequer é uma queixa. E Deus deu-me a graça de me baixar uma frieza que até a mim me surpreende. Quando o circo está a arder, tenho uma capacidade analítica que nem costumo utilizar muito no dia a dia. Sou fria como gelo e resolvo o que tenho que resolver. Tenho uns nervos de aço. E se for preciso comandar as tropas, é uma limpeza. Parece até contra-natura, não é? Já pensei nisso muitas vezes. Mas como sou uma pessoa com muitas dualidades e capaz de antagonismos um bocadinho extremados, este tipo de coisas acontece com alguma facilidade. Claro que depois do terramoto e quando tudo já está resolvido, é que costumo largar os nervos e é um Deus nos acuda, choro, estrebucho, sei lá. Quando tudo já está bem com os outros é que me dá a travadinha. É assim mesmo. É na altura em que já me posso dar a esse luxo.

Para além disto tudo, também me parece que quando se passa por uma situação de risco sério de vida, ficamos muito melhores pessoas. Assim, até o vislumbre da morte faz bem à nossa alma. Atira-nos da nossa arrogância abaixo e mostra-nos como somos frágeis. E quando aceitamos as nossas fragilidades, evoluímos mais um bocadinho. Quando deixamos de ter peneiras amamos melhor e deixamo-nos amar pelos outros. Porque é tão difícil deixarmo-nos amar? Porque é que alguns de nós se assustam tanto com o amor? É tão natural em nós...e passamos a vida a defendermo-nos do amor, não é? Parece que entregamos a nossa vida e já não há volta a dar...é um medo desgraçado. É pena que não se ponha os pontos nos "is" e não se fale frontalmente do que nos assusta. Na verdade, temos medo de sofrer. E o amor também faz sofrer. É do sofrimento que verdadeiramente temos medo. E às vezes preferimos não amar e não sofrer. Temos a ilusão de que controlamos melhor. A morte ensina-nos que não controlamos absolutamente nada! Mais vale amar...e sofrer...e viver...e não ser amorfo...e não deixar o medo vencer. Às vezes, no que diz respeito ao amor, deixamos o orgulho vencer. Até parece que o orgulho nos leva a algum lado que preste. O orgulho leva-nos invariavelmente à solidão. É o caminho mais rápido para lá se chegar. A falta de coragem também ajuda a chegar lá depressa. 

Mais vale espatifarmo-nos todos contra a parede de vez em quando do que continuarmos lindamente alinhadinhos, engomadinhos e vincadinhos na nossa douta incapacidade de lidarmos com o amor. Afinal, parece que viver é que dói. A morte não me parece doer assim tanto.


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