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Saudades

Uma das maravilhas que se encontra no código genético dos portugueses são as saudades. Ao andarmos pelo mundo, levámos esta palavra e este sentimento connosco. Espalhou-se pelos 4 cantos do planeta. Saudades. Esta palavra não existe em quase nenhuma língua para além da nossa. Mas o sentimento, esse, impregnou-se por esse mundo fora. Principalmente onde existem portugueses. E haverá algum país no mundo onde não existam portugueses? Pouco entendo destes assuntos geográficos, demográficos e de fluxos de migração. Não é definitivamente a minha especialidade. Agora de saudades, garanto que percebo! 

É apenas uma palavra que em si mesma encerra tantos mistérios e tantas intensidades. Define a essência do melhor que cada um de nós guarda. A saudade, guarda em si própria a dualidade da nossa existência. O verso e o reverso. O côncavo e o convexo. Ou seja, as antíteses e as complementaridades de cada um de nós. As duas metades de uma mesma realidade. Saudade é sinónimo de sofrimento. Sofrimento pelo vazio por aquilo que não temos. Por quem não temos. Por outro lado, também é sinónimo de vivência boa. Temos saudades do que nos encheu o peito. Por aquilo que nos deu muito prazer. Por quem sentimos amor. Sofremos por aquilo que foi tão bom! Que dualidade, não é? Na mesma proporção que as saudades nos fazem mossa no coração também nos permitem reviver momentos e pessoas tão especiais. Nunca encontrei uma palavra que denotasse tão bem os mistérios do ser humano. Os dois lados da moeda. Penso que, no universo inteiro, só os seres humanos podem ser e não ser em simultâneo. Podem querer e não querer ao mesmo tempo. Impressionante! Isto é desafiar todas as leis da ciência, não é? Mas o ser humano (muito para além do que a ciência é capaz de explicar), na sua dualidade, é tão complexo e tão simples. Somos tão iguais e tão diferentes. Tantas plataformas comuns para caminhos tão distintos! Infinitos! E se infinito é uma coisa que me custa a caber na cabeça....a noção de finitude parece que dá alguma certeza sobre alguma coisa...a verdade é que certezas pura e simplesmente não existem. 

As certezas não existem mas as saudades existem com toda a certeza! São nutritivas, alimentam-nos o coração e alma. São devastadoras na mesma medida. Ajudam-nos a lidar com a perdas, com as ausências. É o existir e o não existir ao mesmo tempo. Antes de existir o que hoje chamamos de virtual, já existiam as saudades. Amores que não são mas já foram. Existiram. E ao recordar, ao bater no coração, continuam a existir. São e não são em simultâneo. Ao revivermos bons momentos eles continuam a existir no nosso interior. São só nossos, mas existem. Enquanto houver saudades, as coisas, as pessoas, os momentos, são. Existem. E não esquecer que todo este amealhar interno, de existências mantidas vivas a toque de saudades é o que também levamos para o Pai quando formos ter com Ele. 

As saudades doem, doem, doem. Às vezes queimam. Fazem sangrar. Devastam. Arrasam. Mas, num divino antagonismo, fazem-nos lembrar como o amor é indefinível. Imenso. Intenso. Fantástico. E tudo o que é maravilhoso, também dói. Nem que seja por nos maravilhar tanto!

Resumindo, quem nunca sentiu saudades nunca amou. Quem tem um botãozinho que desliga das vivências passadas e dos amores, ainda não sabe o que é sentir saudades de verdade. Quem não sentiu saudades de verdade ainda nunca amou de verdade....mas ainda vai a tempo. Basta avariar todos os botões emocionais. Acabam-se os botões, os interruptores e os ligar e desligar. O controlar. O conter. Deixar o coração à solta. Deitar cavalos a correr. Se dói? Dói! Mas é melhor a dor do amor e da saudade do que a dor do vazio, da apatia, do gelo. Do lamento. Do nada. Do morno. Do cinzento. Como o cinzento quando temos o arco-íris ao nosso alcance? Como não arriscar quando temos a graça de poder sentir saudades? De poder reviver o melhor? Com os nossos filtros, tão íntimos, tão nossos, tão bonitos quanto o que quisermos que sejam? E Dói. Mas quase tudo dói na vida. Mais vale doer pelo que vale a dor, do que sofrer pelo que não foi e poderia ter sido. A dor e o amor são faces da mesma moeda. Aliás, o amor é a face de uma moeda com muitas coroas. Sendo a força mais poderosa do universo - como não me canso de repetir - também carrega um conjunto de outros sentimentos e emoções que ficarão para uma outra conversa. Hoje estamos centrados na saudade.

A saudade é então uma das muitas faces do amor. E tal como amor, pode ser serena, cálida, amena, embalante, contentora, lânguida e serpenteante no processo. Outras vezes, também tal como o amor, pode ser arrebatadora, carregada de paixão, quente até queimar, rasgando até sangrar. Pode ser lança que fere a direito, de golpe. Trata a chicote. Sem misericórdia nem compaixão. Afinal, as duas metades. Ser e não ser, será, talvez, a questão que se impõe! 

Que saudades de quando tudo parecia simples!

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