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A vida sem aviso

Quando uma desgraça como a que aconteceu no Nepal acontece em qualquer parte do mundo, temos que parar e refletir um bocadinho. Temos a obrigação moral de honrar a vida e a perda daquelas pessoas. Iguais a nós. A única diferença é que estão quase no outro lado do mundo. E nós estamos do outro lado do mundo deles. Somos os outros dos outros. Parece-nos que cada um de nós deverá fazer o que puder para que toda aquela perda e sofrimento não seja completamente em vão.

É verdade que não podemos todos desatar a ir para o Nepal ajudar aquelas pessoas. Não podemos todos fazer essa viagem ao quase outro lado do mundo. Mas podemos fazer uma viagem interior ao outro lado do nosso mundo. Ao mundo de cada um de nós e que tantas vezes também sofre cataclismos de diferentes tipos. Podemos fazer alguns exercícios que nos ajudarão a viajar melhor. E se o que aconteceu no Nepal, acontecesse aqui na minha cidade, na minha rua, na minha família? E se eu perdesse, de um momento para o outro, todos os que amo? Sem possibilidade de me despedir? Se perdesse tudo o que tenho? Tudo o que conheço? Tudo o que me parece seguro e à prova de sismo? E se fosse comigo? E se fosse aqui e agora? E se eu ficasse sozinho no mundo, órfão de tudo o que me é familiar? Ou, se fosse a minha hora de partir, também sem aviso? 

Este exercício que vos proponho requer alguma meditação. É um facto irrefutável a nossa vida poder mudar num segundo. Ficar de pernas para o ar. Ou até sem pernas nenhumas. Ou ficarmos sem vida, tal como a conhecemos. E se fosse daqui a meia hora? O que pensaríamos? Como gostaríamos de ter vivido? Que resumo faríamos assim num instantinho? Diríamos:

- Valeu tanto a pena!
ou 
- Lamento, lamento, lamento....

Por vezes insisto neste tema. De podermos perder tudo o que temos, inclusive a vida de um momento para o outro. Faço isto porque já passei por uma situação em que a morte me acenou de frente. Apesar de ter sido um os momentos mais marcantes da minha vida, agradeço-o a Deus. Foi o melhor que me aconteceu. Colocou-me os valores no sítio. Tornou-me uma pessoa muito melhor. Ensinou-me a olhar para a vida de uma forma completamente nova. Tornou-me mais suave, mais contemplativa, mais reflexiva e muito mais alegre. Aquele fatídico momento, agora que posso analisar à distância, ensinou-me a maior de todas as lições de vida que já tive até ao dia de hoje. Ensinou-me a não ter medo. Nem da própria morte. E quando quase não se tem medo, ama-se muito melhor. O medo é a antítese do amor. Não é o ódio. É o medo. O medo é que não nos deixa amar os outros de uma forma mais livre. Temos medo de não sermos amados de volta, de sermos ridículos, de parecermos palermas. Temos medo de dizer o que nos vai no coração. Temos medo da rejeição, de criar expetativas, medo de sofrer, de perder, etc. etc. Temos medo. E quando temos medo, não temos coragem. E  quando não temos coragem, não somos capazes de fazer escolhas baseadas no amor. Podemos fazer escolhas baseadas no que julgamos estar certo. No que nos parece seguro, aceitável ou forte. Escolhemos sobre o que nos baliza o medo. Temos tanta preocupação com o que é seguro. Temos tanta necessidade de criar fortalezas à prova de sismo na nossa vida que acaba por ser um paradoxo. Gastamos tanta energia a planear o futuro, um futuro seguro que nos esquecemos de viver e apreciar o dia de hoje. Pensamos tanto a longo prazo...e nem uma vez por dia, pensamos que podemos não acordar do nosso sono da noite. E se soubéssemos que não iríamos acordar do sono da próxima noite? O que é que se escolhia? O medo ou o amor?

Vou partilhar convosco uma lista de perguntas que faço a mim própria, de vez em quando, quando reflito sobre estes assuntos. E isto tudo porque para mim, a paz é para o espírito e para o coração como o pão é para a boca. É o meu desafio diário, a paz. E todas as perguntas e todas as respostas têm que conduzir à paz.

1. Sou capaz de dizer às pessoas que amo que as amo? Ou tenho medo de parecer ridículo? Ou tenho vergonha, ou não tenho coragem, ou sou orgulhoso..mas se eu partir esta noite, o que é que isso interessa? Interessa é que as pessoas que cá ficam, se sintam amadas. Que saibam o quanto foram tão importantes e fizeram tanta diferença na minha vida. Isso sim interessa. Não quero partir com arrependimentos...

2. Fiz as minhas escolhas baseadas no quê? Nas minhas convicções? Nas convicções dos outros? Ou na minha teimosia? No meu coração? No que acreditava? No que me fazia feliz? Mesmo que isso implicasse riscos? Ou tive medo? E vivi medianamente ou de forma medíocre mas segura? Vivi a preparar a velhice? Ou soube viver cada dia, cada momento como se fosse único?

3. Arrisquei ser feliz? Ou tive medo? Preferi as coisas, o dinheiro, o prestígio às pessoas? Preferi os barcos ao mar? O avião em vez do céu? 

4. Levo um coração cheio de afetos e de amores ou de medos, arrependimentos, remorsos e mágoas? Fugi ou encarei de frente? Sorri e chorei sempre que tive vontade? Vou leve, pacificado ou vou carregado de tensão?

5. Soube pedir desculpa sempre que cometi uma argolada ou quando tive a consciência que magoei alguém? É que o orgulho não me vai servir de nada lá do outro lado...

6. Soube desculpar quando me magoaram? Consegui aceitar que cada um é como é e que não tem culpa que eu gostasse que esse um fosse diferente? 

7. E com os meus filhos? Preferi a exigência, a repreensão ao amor? Que imagem é que eles vão guardar de mim? Como me descreverão? Como ausente, austero, severo, ou como amoroso, compreensivo, presente, como colo onde sempre se podiam sentir protegidos, ou precisaram do mundo para se protegerem de mim?

Difícil, não é? Muito difícil. Porque também é preciso não ter medo para pensar nestas coisas. É preciso ser-se corajoso para se ser feliz e para se fazerem os outros mais felizes.

A boa notícia é que, ao contrário do povo do Nepal, estamos perfeitamente a horas de fazermos estas perguntas. De encontrarmos as respostas. E, Deus querendo, de usufruirmos do facto de sermos mais felizes e de fazermos os outros mais felizes. Principalmente os que mais amamos que, pelos vistos, por vezes não sabem que lhes queremos tanto bem. Uma oportunidade destas não se perde.

E ao olharmos para trás poderemos dizer: Valeu a pena! Valeu tanto, mas tanto a pena!


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