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A lua, os homens e as dores nas costas

Hoje estou numa lua má. Há luas boas e más como tudo na vida. Por vezes, a influência da lua pode ser uma maravilha. Inspiradora, apaziguadora, romântica ou outra coisa qualquer. Conduz as marés e os ânimos. Não sei porquê mas parece-me que as mulheres são mais influenciadas pela lua do que os homens. Os homens são influenciados por qualquer força vinda de um planeta ainda desconhecido. A lua, pelo menos, conhece-se e sabe-se a influência que tem num montão de coisas na natureza. Sabe-se que tem fases, desde o esplendorosa até ao "não quero ver ninguém", é caprichosa e a sua influência é subtil e silenciosa. É verdade, a lua é feminina, sem sombra de dúvida. A própria lua tem luas. 

Os homens não se sabe. São criaturas incompreensíveis.  Às vezes são simples, simples, a preto e branco. Tão simples, tão simples que nem parece possível e custa a acreditar. Outras vezes tão complexos que será preciso ter pelo menos dois doutoramentos para se começar a conseguir formular hipóteses sobre o assunto. O mais engraçado é que tudo isto pode acontecer na mesma pessoa. No mesmo homem. Passarem de uma resposta primária a um raciocínio altamente complexo de um segundo para o outro, é possível. Também há mundos lá por dentro que não se entendem. A mim parece-me que a esmagadora maioria não consegue falar sobre o que sente. Esconde as emoções, os sentimentos, as fragilidades. Escondem a alma e tudo o que têm de mais bonito. E isto não é uma critica é um facto, do meu ponto de vista, claro. E eu entendo, embora por vezes me tenha feito e continue a fazer alguma mossa. Os homens foram educados para a força, para a racionalidade, para a resolução de problemas, para a solução. Homem que é homem não chora. Com estes carimbos desde pequeninos, como é que conseguem lidar com que sentem? Com o que os emociona? Devem sofrer que se fartam...por isso é que muitas vezes, perante situações difíceis que implique perda, emoções ao rubro e outras coisas afins, são as mulheres que mantém o sangue frio e tratam de resolver o problema. Depois têm os fanicos, após as coisas estarem resolvidas. Mas durante o processo, são rochas, enquanto os homens ainda parecem baratas tontas. 

Nem sei porque  estou a desenvolver esta conversa. Devo-me ter lembrado de duas ou três pessoas que conheço e lá seguem as associações de ideias...

Não pensem que sou feminista ou outra coisa qualquer do género. Eu detesto qualquer espécie de radicalismo e de etiquetas, categorizações que colocam as pessoas em lados ou em gavetas. Pessoas são pessoas antes de serem outra coisa qualquer. Antes de serem catalogadas. E acho que as diferenças entre os homens e as mulheres são maravilhosas. Por isso é que se complementam tão bem! Claro que o contexto e a educação têm um papel fundamental na forma como as pessoas se relacionam. Sempre achei que os homens estiveram em desvantagem nestes assuntos do coração, sentimentos e emoções. Na verdade, são educados para a frieza. E o descongelamento é um processo que leva o seu tempo, por mais que o tentemos acelerar. Parece que a amabilidade e delicadeza são muitas vezes confundidas com fraqueza. Que pena! Muitos homens gastarão muita energia a esconder e a trancar o que têm de melhor! Irónico, não é? Bem, será talvez o nosso papel torná-los mais macios e suaves. A ensiná-los a lidar com a sua própria sensibilidade. Tudo isto sem perderem uma gotinha sequer de masculinidade. Porque umas coisas não têm nada a ver com outras e não há maneira de se entender isto!

Se os homens soubessem como a doçura é atraente aos olhos de uma mulher, em vez de usarem perfume, polvilhavam-se com açúcar!!! Mas enfim , não se lhes pode ensinar tudo. Aquelas senhoras de idade respeitável costumam ensinar às mais novas o seguinte "aos homens nem tudo ao comer, nem tudo ao saber". Diz que é infalível para manter o bom relacionamento entre homem e mulher. Eu não saberei dizer. Sou apologista da transparência entre as pessoas, principalmente entre as que se amam. Claro que existe sempre uma parte de nós que é só nossa. Nossa e de Deus. E nem acredito naquela coisa de 1 mais 1 = 1. Penso que os relacionamentos entre as pessoas são qualquer coisa do género: 1 mais 1 = 3. Parece que não sei fazer somas. Com as pessoas não há verdades matemáticas. Eu explico: num par, num casal, num relacionamento deverá haver muito respeito e isto implica que exista o "eu", o "tu" e o "nós". Enquanto entidades diferentes que se complementam e partilham seja lá o que for. Mas não de fundem, não se anulam. O "nós" aparece pelo facto do "eu" e o "tu" ser tão apreciado mutuamente. Por isso é que 1 mais 1 são 3. 

São umas continhas fáceis de fazer mas difíceis de entender pela maioria. Olhando à volta percebe-se a frequência com as pessoas se juntam ou permanecem juntas por todas as razões imagináveis e mais algumas, menos pelo que interessa - por se amarem mutuamente. Podia fazer aqui uma desfiada de razões e de motivos que levam as pessoas a permanecerem juntas. Mas estou sem paciência. Nem sei bem porque estou a falar nestas coisas.

Hoje estou impaciente. Com a lua má. Estou cheia de dores. Tenho uma coluna vertebral que é minha amiga a maior parte do tempo. Mas quando se zanga, é como eu, zanga-se a sério. Depois passa. Mas enquanto passa e não passa, dá-me o que fazer. Faz-me sentir partida pelo meio. Impotente, sem poder governar a minha vida, como gosto tanto de fazer. É o chamado descanso à força. Só que o descanso é bom quando é descanso. Nada do que é forçado é bom. Ou não fosse eu livre de essência. Mas por vezes o meu corpo lembra-me que sou livre mas nem tanto. Toda a liberdade tem que ter as suas balizas. Não pode ser cega. Pode ser usufruída e não gasta de qualquer maneira.  O meu próprio corpo mostra-me que não controlo absolutamente nada. Num minuto estou feliz, com a vida nas mãos e no minuto seguinte, a angustia e a dor instalam-se e a vida salta para as mãos de Deus. Na verdade, de onde nunca saiu. Bocadinhos difíceis, agudos. Apesar de tudo, pedagógicos. Voltam colocar ordem na vida, no sentido das prioridades e da relativização. Tudo volta a ter a importância que tem. E o que não tem importância é colocado no seu devido lugar. Nos bocadinhos difíceis, lembramo-nos das pessoas que verdadeiramente são especiais. Aquelas que fazem toda a diferença na nossa vida. É verdade, por mais que deteste estar doente, reconheço a sua pedagogia. 

E agora vou fazer a única coisa útil que consigo fazer neste estado: pensar um bocadinho sobre tudo e sobre nada, sobre a vida, sobre as pessoas. Sobre o amor. Sobre a aceitação das nossas próprias limitações. Aqui está um belo tema para pensar. Dará, com certeza, uma bela conversa.

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