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A beleza das coisas

A beleza está na ordem do dia. Hoje apetece-me escrever sobre a beleza das coisas. Da criação. De como é importante perdermos (ou ganharmos) tempo a apreciar as coisas belas que existem. Umas são oriundas da natureza. Outras construídas ou criadas pela força dos homens. Pela força criativa, pela força do amor, pela força do sonho ou pela força do engenho.
De facto, o homem tem a força necessária para construir e destruir coisas belas. É uma questão de escolha, como tudo na vida.

Mas como está um lindo dia de primavera, vamos falar de construir e apreciar coisas belas. Hoje não falamos de destruição. 

Vamos falar na beleza da contemplação. No ver com os olhos da alma, a infinita complexidade e beleza que se encontra num simples malmequer. Num pequenino inseto, uma joaninha, ou uma abelhinha, por exemplo. Por vezes apenas apreciamos as coisas muito grandes, que também são belas, sem dúvida, como o mar, o céu, a montanha, mas esquecemo-nos das pequeninas. Com igual beleza e complexidade. Se o universo é infinito para o grande, o chamado mais infinito, também é infinito para o pequeno, o tal menos infinito. Difícil de colocar na nossa cabeça....difícil imaginar que há sempre qualquer coisa maior e para além da última fronteira, como é difícil imaginar que existe sempre uma partícula ainda mais pequenina que a anterior. Complexo demais para a nossa simples existência, não é?

Também isto não interessa nada. Interessa é que devemos ser capazes de apreciar a beleza em todas as suas dimensões e, também, com o que é muito pequenino, ínfimo e que até parece insignificante. Quase nem se vê. Quase nem se dá por isso. No entanto, relembro sempre que as coisas mais importantes da nossa existência nem sequer têm materialidade. Não tem forma de ser medidas ou pesadas. Falamos do amor, da paz, da luz na nossa alma. Só se sentem e pressentem. Damos pelos seus efeitos. Damos pela sua falta. Mas não se medem com nenhuma ordem de grandeza tangível. Dependem exclusivamente de cada um de nós. E de Deus, claro.

Então, como não somos capazes de apreciar  e emocionarmo-nos com uma gotinha, uma migalhinha de qualquer coisa que faça parte da criação, que pertence a um complexo sistema de equilíbrio? A Natureza é tão, mas tão perfeita, que qualquer formiguinha tem um papel e uma importância muito grande no formigueiro. Nada na natureza é deixado ao acaso. Tudo tem uma ordem, um equilíbrio, uma função. Nada é feito de forma gratuita, só porque sim. Maravilhoso!

E quanto mais observamos a natureza e os animais, mais sábios ficamos. Os animais não destroem por destruir. Não matam por matar. Não torturam, não humilham. Os animais têm uma consciência coletiva de que pertencem ao mundo, de que são obra de Deus e de que deverão cumprir o seu papel o melhor que forem capazes. Uma abelha, assim que nasce, sabe exatamente qual é a sua função na colmeia. E não se importa de dar a vida pelo bem comum. Uma abelha tem um cérebro tamanho da cabeça de um alfinete dos pequeninos. Nem sei se terá coração. Mas tem que ter alma! Como é que ela sabe exatamente o que tem que fazer e para onde vai? Como é que Deus lhe diz estas coisas todas? Tem que ser pela alma! E a abelhinha nem tem consciência de si própria! E nós seres humanos, que temos consciência de nós próprios, como não conseguimos fazer melhor que as simples abelhinhas?! Que mistério!!! Como não conseguimos amar melhor, pensar melhor no bem comum, construir umas colmeias grandes onde caiba toda a gente, onde todos tenham um papel fundamental e bem definido, onde exista espaço para os pequenos, para os grandes, para os fracos e para os fortes?! Com tanta consciência, com tanto coração e com tanta alma, porque não conseguimos fazer melhor?!

Por isso é que eu gosto tanto de abelhas! Nem é pelo mel. É mesmo pelo exemplo que elas dão. Se soubéssemos apreciar melhor a beleza das coisas pequeninas, conseguiríamos construir, nós próprios, muito mais coisas belas. À força de tanto exemplo. Basta olhar à nossa volta. Basta apreciar a vida que existe à nossa volta! Que emocionante! Vamos pensar numa singela poça de água que permanece no meio de qualquer coisa. Ao fim de algum tempo, se formos capazes de olhar com olhos de ver, descobrimos um caldeirão de vida naquela simples pocinha. Tantos bichinhos que da poça de água fizeram o seu berço. Tantas plantinhas que aproveitaram a oportunidade para nascer e crescer. Tanto movimento, tanta vida! Tanta oportunidade aproveitada. Mais uma lição de vida, pelo menos para mim: a natureza vê oportunidades em tudo! Não vê obstáculos! A pocinha de água que ali se formou não é uma chatice que aparece no caminho e que nos molha os pés! É uma oportunidade de criação. De vida. De nascer e crescer! De dividir esta oportunidade com todos os que estão à volta. Bendita pocinha de água! Tão singela e tão profícua. 

E, se por mero acaso, por coincidência, por descuido, por distração, começássemos a ver beleza e oportunidades nas poças de água que se atravessam no nosso caminho? Mesmo quando temos sapatos novos e não os queremos estragar. Mesmo quando as nossas passadas sejam curtas e temos que molhar os pés, mesmo que não se veja o fundo da poça de água, nem a transparência, mesmo que a água seja um bocadinho turva...

Se mudarmos a nossa perspetiva, a nossa forma de pensar e de ver o mundo, não temos que nos desviar da poça de água. Nem praguejar porque apareceu no nosso caminho. Certo? Afinal, a beleza e as oportunidades também estão nos nossos olhos! E como são lindos os nossos olhos! Tanta beleza junta ofusca a alma! E a alma também cá anda para ser ofuscada!!!

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